sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Vieira - o génio literário
"Nasceu a 6 de Fevereiro de 1608 em Lisboa. Aos seis anos foi para o Brasil. Lá aprendeu das primeiras letras à filosofia e teologia. Ingressou na Companhia de Jesus muito novo. As suas qualidades como orador fizeram-se notar muito cedo. Foi amado e odiado por muita gente. Denunciou muitas injustiças, defendeu os índios. Irritou colonos e o Santo Ofício.
Fez algumas viagens pela Europa. Esteve ligado à colónia de judeus portugueses em Amesterdão. Viveu em Roma onde a rainha Catarina da Suécia, lá exilada, o quis para confessor.
Numa dessas viagens, saiu num navio do Maranhão em Junho de 1654. Sessenta dias mais tarde, avistaram a ilha do Corvo perto da qual uma tempestade fez naufragar o navio. Um corsário holandês resgatou as quarenta e uma pessoas, tendo roubado os papéis e livros de António Vieira que mais tarde os tentou recuperar através de um judeu amigo. Nove dias depois, deixaram essas passageiros na ilha da Graciosa onde permaneceram durante dois meses. António Vieira passou depois à ilha Terceira, tendo ficado hospedado no Colégio de Angra. Passou a seguir para S. Miguel onde ficou no Colégio de Ponta Delgada. Em Angra, instituiu a devoção do Rosário. Em Ponta Delgada também deixou o hábito de rezar o Terço e em 15 de Outubro fez um sermão na festa de Santa Teresa.
Nesse sermão, António Vieira descreve o naufrágio perto da ilha do Corvo. “Obrigado da tempestade e do naufrágio chegou S. Paulo à ilha de Malta e do que ali pregou o apóstolo tiveram princípio aquelas luzes com que hoje alumia e se defende a igreja. Bem conheço quão falto estou de eloquência e muito mais do espírito de S. Paulo, mas na ocasião e nas circunstâncias presentes, ninguém me poderá negar uma grande parte de pregador, que é chegar a esta Ilha vomitado pelas ondas. (...) Mas era Jonas um pregador vomitado das ondas. Pregava nele a tempestade, pregava nele a baleia, pregava nele o perigo, pregava nele o assombro, pregava nele a mesma morte, de que duas vezes escapara./ Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas como a em que eu e os meus companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar e nós fora dele pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus e da sua Mãe. Não apareceu ali a baleia que nos tragasse, mas apareceu, não menos prodigiosamente naquele ponto, um desses monstros marinhos que andam infestando estes mares: ele nos tragou e vomitou depois em terra. (...) em terra onde o fogo é mais poderoso que o mesmo mar oceano, e levanta no meio dele ilhas, e desfaz ilhas (...)."[1]
Além dos Sermões, obra-prima da literatura portuguesa, António Vieira escreveu dois livros: A História do Futuro[2] e Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas) onde expõe as suas crenças futuristas, fonte dos sebastianismos e nacionalismos quinto-imperiais que ao longo dos séculos se desenvolveram. A Clavis Prophetarum é considerada pelo seu tradutor, trezentos anos depois, Arnaldo Espírito Santo, “a cúpula das suas obras”. A Biblioteca Nacional editou esta obra em 1999-2000.
A obra de António Vieira revela a transição do período do Renascimento para o Barroco, e é naturalmente paradoxal. Vale a pena ler a obra deste escritor a quem Fernando Pessoa, na Mensagem, chamou “Imperador da Língua Portuguesa”.
[1] VIEIRA, Padre António, Sermões, T. VII, Lisboa, 1854-1858, pp.86 a 90.
[2] VIEIRA, António, História do Futuro, introdução, actualização do texto e notas por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Biblioteca de Autores Portugueses, 2ª edição, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, Janeiro, 1992.
( Maria Eduarda Rosain, in Tribuna das Ilhas, 8 de Fevereiro de 2008)
Fez algumas viagens pela Europa. Esteve ligado à colónia de judeus portugueses em Amesterdão. Viveu em Roma onde a rainha Catarina da Suécia, lá exilada, o quis para confessor.
Numa dessas viagens, saiu num navio do Maranhão em Junho de 1654. Sessenta dias mais tarde, avistaram a ilha do Corvo perto da qual uma tempestade fez naufragar o navio. Um corsário holandês resgatou as quarenta e uma pessoas, tendo roubado os papéis e livros de António Vieira que mais tarde os tentou recuperar através de um judeu amigo. Nove dias depois, deixaram essas passageiros na ilha da Graciosa onde permaneceram durante dois meses. António Vieira passou depois à ilha Terceira, tendo ficado hospedado no Colégio de Angra. Passou a seguir para S. Miguel onde ficou no Colégio de Ponta Delgada. Em Angra, instituiu a devoção do Rosário. Em Ponta Delgada também deixou o hábito de rezar o Terço e em 15 de Outubro fez um sermão na festa de Santa Teresa.
Nesse sermão, António Vieira descreve o naufrágio perto da ilha do Corvo. “Obrigado da tempestade e do naufrágio chegou S. Paulo à ilha de Malta e do que ali pregou o apóstolo tiveram princípio aquelas luzes com que hoje alumia e se defende a igreja. Bem conheço quão falto estou de eloquência e muito mais do espírito de S. Paulo, mas na ocasião e nas circunstâncias presentes, ninguém me poderá negar uma grande parte de pregador, que é chegar a esta Ilha vomitado pelas ondas. (...) Mas era Jonas um pregador vomitado das ondas. Pregava nele a tempestade, pregava nele a baleia, pregava nele o perigo, pregava nele o assombro, pregava nele a mesma morte, de que duas vezes escapara./ Por certo que não foi tão grande a tempestade de Jonas como a em que eu e os meus companheiros nos vimos. O navio virado no meio do mar e nós fora dele pegados ao costado, chamando a gritos pela misericórdia de Deus e da sua Mãe. Não apareceu ali a baleia que nos tragasse, mas apareceu, não menos prodigiosamente naquele ponto, um desses monstros marinhos que andam infestando estes mares: ele nos tragou e vomitou depois em terra. (...) em terra onde o fogo é mais poderoso que o mesmo mar oceano, e levanta no meio dele ilhas, e desfaz ilhas (...)."[1]
Além dos Sermões, obra-prima da literatura portuguesa, António Vieira escreveu dois livros: A História do Futuro[2] e Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas) onde expõe as suas crenças futuristas, fonte dos sebastianismos e nacionalismos quinto-imperiais que ao longo dos séculos se desenvolveram. A Clavis Prophetarum é considerada pelo seu tradutor, trezentos anos depois, Arnaldo Espírito Santo, “a cúpula das suas obras”. A Biblioteca Nacional editou esta obra em 1999-2000.
A obra de António Vieira revela a transição do período do Renascimento para o Barroco, e é naturalmente paradoxal. Vale a pena ler a obra deste escritor a quem Fernando Pessoa, na Mensagem, chamou “Imperador da Língua Portuguesa”.
[1] VIEIRA, Padre António, Sermões, T. VII, Lisboa, 1854-1858, pp.86 a 90.
[2] VIEIRA, António, História do Futuro, introdução, actualização do texto e notas por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Biblioteca de Autores Portugueses, 2ª edição, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, Janeiro, 1992.
( Maria Eduarda Rosain, in Tribuna das Ilhas, 8 de Fevereiro de 2008)
"Grandes Portugueses no Brasil"
"Neste mês de fevereiro cumpre-nos celebrar - com pompa e circunstância - dois lusitanos, que brilharam neste Brasil que tão bem nos recebe, e que adotamos como segunda Pátria; são eles:
O Padre jesuita Antônio Vieira, nascido há precisamente 400 anos (06/fev/1608) em Lisboa, mas chegado ao Brasil em janeiro de 1616, onde - nos colégios-universidades do Salvador da Baía e de Olinda - recebeu toda a sua instrução e formação acadêmica, que o tornaram o maior orador e escritor sacro de seu século, e um dos maiores de todos os tempos, autor que foi de mais de 200 sermões, 500 cartas e outras peças literárias de inegável valor, por sua forma estilística pura e bela, e de riquíssimo e erudito conteúdo, onde sobressaem uma vibrante e arrebatante eloquência e uma indesmontável retórica. De notar que, para escrever a sua gigantesca obra para o tempo, não dispunha Vieira de nada mais que a grosseira pena de escrever, que a todo o momento necessitava mergulhar no tinteio, para só depois passar as suas idéias a um grosseiro e absorvente papel, onde o borrão era comum.
Eram os então designados colégios centros de ensino superior, nome ainda hoje muito usado, não apenas nos países de língua inglesa, como ainda em outras terras e circunstâncias, caso do
Collège de France; enfatizamos o fato em virtude de - muitas vezes - e creio que por ignorância de quem o diz, ouvirmos que só com D. João VI o Brasil teve escolas superiores, talvez porque o nosso Príncipe, depois rei D. João VI, teve a preocupção - entre outras - de logo após a sua chegada, implantar algumas das ainda hoje famosas faculdades brasileiras.
Na época da intolerância, foi Antônio Vieira o humanista defensor dos oprimidos, especialmente dos índios nativos, que o apelidaram de Paiaçu ou grande Pai. Mas esse atributo do jesuita foi apenas um, dos muitos que o engrandeceram. Na realidade, quando estudamos Vieira, logo sobressaem as variadas facetas deste grande português do Brasil, onde avulta e brilha o primoroso escritor, o pregador sacro sem concorrente, o humanista e homem de ação sem paralelo, o político e diplomata de muitas causas e batalhas, o filólogo que dominava todas as línguas cultas e ainda sete dialetos nativos, nos quais escrevia os castecismos com que evangelizava os seus queridos índios. Deste modo, podemos compreender que a moderna língua portuguesa - saída do gênio de Camões - tenha sido, como os diamantes, lapidada e consolidada pela elegante, precisa e erudita escrita (e também pela voz) do padre Antônio Vieira, que elevou a prosa portuguesa à sua mais brilhante e pura expressão, como Camões já tinha feito com a poesia épica e lírica.
O Príncipe D. João, depois rei D. João VI, aqui chegado no início de 1808, acompanhado pela sua corte de cerca de 15.000 pessoas espremidas em 36 navios, trazendo consigo os corpos docente e discente do Colégio dos Nobres (também ele de nível superior), a sua rica biblioteca hoje núcleo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o tesouro do reino de cerca de 80 milhões de cruzados em ouro e diamantes (ou 180 milhões segundo certos autores), as primeiras impressoras que no Brasil houve(ram), e tudo que de valor e interesse se conseguiu embarcar em Lisboa, às vésperas da chegada das hordas napoleónicas, que tudo roubabam, tudo violentavam, tudo destruíam.
A vinda da corte foi uma retirada estratégica, que permitiu a Portugal manter a independência através do Brasil, ao mesmo tempo que impediu as tropas de Junot de se apoderarem das riquezas transportadas, que aqui contribuíram para o desenvolvimento do Brasil, como a fundaação do primeiro banco oficial do então Império Português, que foi o Banco do Brasil, em outubro de 1808, no Rio de Janeiro. Mas, como atrás referimos, ao iluminado Príncipe coube - além da abertura dos portos - fundar muitas escolas superiores, como faculdade de Direito, escolas de medicina e cirurgia da Baía e do Rio de Janeiro, academias militares e escolas de desenho e risco (engenharia), que iriam dar à nova sede do governo, e logo depois Império do Brasil quadros para o seu desenvolvimento.
É esta a altura ideal para fazer justiça ao primeiro rei do Brasil, recuperando uma imagem por vezes aviltada, por historiadores cegos por um nacionalismo capenga, ou por cinegrafistas desonestos em busca de popularidade fácil e de faturamento repugnante, porque originado na deturpação da história e na adulteração de fatos, personagens e obras que marcaram a formação e engrandecimento de seu próprio país. Aliás, é esta (recuperação) a intenção do coordenador das comemorações dos 200 anos, acadêmico e ex-embaixador Costa e Silva, da Academia Brasileira de Letras, segundo as suas próprias palavras. Presta, assim, um grande serviço à sua Pátria, à história e à cultura lusófonas. BEM HAJA por sua reta intenção e meridiana coragem, pois corajoso necessita ser quem ousa enfrentar o establishement, sempre interessado em diminuir a grande obra dos colonizadores."
(José Verdasca, Escritor português)
O Padre jesuita Antônio Vieira, nascido há precisamente 400 anos (06/fev/1608) em Lisboa, mas chegado ao Brasil em janeiro de 1616, onde - nos colégios-universidades do Salvador da Baía e de Olinda - recebeu toda a sua instrução e formação acadêmica, que o tornaram o maior orador e escritor sacro de seu século, e um dos maiores de todos os tempos, autor que foi de mais de 200 sermões, 500 cartas e outras peças literárias de inegável valor, por sua forma estilística pura e bela, e de riquíssimo e erudito conteúdo, onde sobressaem uma vibrante e arrebatante eloquência e uma indesmontável retórica. De notar que, para escrever a sua gigantesca obra para o tempo, não dispunha Vieira de nada mais que a grosseira pena de escrever, que a todo o momento necessitava mergulhar no tinteio, para só depois passar as suas idéias a um grosseiro e absorvente papel, onde o borrão era comum.
Eram os então designados colégios centros de ensino superior, nome ainda hoje muito usado, não apenas nos países de língua inglesa, como ainda em outras terras e circunstâncias, caso do
Collège de France; enfatizamos o fato em virtude de - muitas vezes - e creio que por ignorância de quem o diz, ouvirmos que só com D. João VI o Brasil teve escolas superiores, talvez porque o nosso Príncipe, depois rei D. João VI, teve a preocupção - entre outras - de logo após a sua chegada, implantar algumas das ainda hoje famosas faculdades brasileiras.
Na época da intolerância, foi Antônio Vieira o humanista defensor dos oprimidos, especialmente dos índios nativos, que o apelidaram de Paiaçu ou grande Pai. Mas esse atributo do jesuita foi apenas um, dos muitos que o engrandeceram. Na realidade, quando estudamos Vieira, logo sobressaem as variadas facetas deste grande português do Brasil, onde avulta e brilha o primoroso escritor, o pregador sacro sem concorrente, o humanista e homem de ação sem paralelo, o político e diplomata de muitas causas e batalhas, o filólogo que dominava todas as línguas cultas e ainda sete dialetos nativos, nos quais escrevia os castecismos com que evangelizava os seus queridos índios. Deste modo, podemos compreender que a moderna língua portuguesa - saída do gênio de Camões - tenha sido, como os diamantes, lapidada e consolidada pela elegante, precisa e erudita escrita (e também pela voz) do padre Antônio Vieira, que elevou a prosa portuguesa à sua mais brilhante e pura expressão, como Camões já tinha feito com a poesia épica e lírica.
O Príncipe D. João, depois rei D. João VI, aqui chegado no início de 1808, acompanhado pela sua corte de cerca de 15.000 pessoas espremidas em 36 navios, trazendo consigo os corpos docente e discente do Colégio dos Nobres (também ele de nível superior), a sua rica biblioteca hoje núcleo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o tesouro do reino de cerca de 80 milhões de cruzados em ouro e diamantes (ou 180 milhões segundo certos autores), as primeiras impressoras que no Brasil houve(ram), e tudo que de valor e interesse se conseguiu embarcar em Lisboa, às vésperas da chegada das hordas napoleónicas, que tudo roubabam, tudo violentavam, tudo destruíam.
A vinda da corte foi uma retirada estratégica, que permitiu a Portugal manter a independência através do Brasil, ao mesmo tempo que impediu as tropas de Junot de se apoderarem das riquezas transportadas, que aqui contribuíram para o desenvolvimento do Brasil, como a fundaação do primeiro banco oficial do então Império Português, que foi o Banco do Brasil, em outubro de 1808, no Rio de Janeiro. Mas, como atrás referimos, ao iluminado Príncipe coube - além da abertura dos portos - fundar muitas escolas superiores, como faculdade de Direito, escolas de medicina e cirurgia da Baía e do Rio de Janeiro, academias militares e escolas de desenho e risco (engenharia), que iriam dar à nova sede do governo, e logo depois Império do Brasil quadros para o seu desenvolvimento.
É esta a altura ideal para fazer justiça ao primeiro rei do Brasil, recuperando uma imagem por vezes aviltada, por historiadores cegos por um nacionalismo capenga, ou por cinegrafistas desonestos em busca de popularidade fácil e de faturamento repugnante, porque originado na deturpação da história e na adulteração de fatos, personagens e obras que marcaram a formação e engrandecimento de seu próprio país. Aliás, é esta (recuperação) a intenção do coordenador das comemorações dos 200 anos, acadêmico e ex-embaixador Costa e Silva, da Academia Brasileira de Letras, segundo as suas próprias palavras. Presta, assim, um grande serviço à sua Pátria, à história e à cultura lusófonas. BEM HAJA por sua reta intenção e meridiana coragem, pois corajoso necessita ser quem ousa enfrentar o establishement, sempre interessado em diminuir a grande obra dos colonizadores."
(José Verdasca, Escritor português)
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
"O Imperador da Política"
O padre Antônio Vieira, cujo quarto centenário de nascimento se comemora no mês de fevereiro, foi imperador de vários reinos. “Imperador da língua portuguesa”, definiu-o o poeta Fernando Pessoa; “Imperador do púlpito”, disse dele o escritor Joaci Pereira Furtado, organizador de sua obra. A estes epítetos pode-se adicionar “imperador da política”, e, neste particular, sem prejuízo da sua colossal figura de evangelista, pregador e pensador, foi como homem de Estado que se agigantou além do apertado figurino português do século XVII.
Não exerceu o poder propriamente dito, como seu colega de batina cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII e homem mais poderoso da França naquele período. Foi apenas conselheiro do rei português dom João IV e de sua viúva, a rainha-regente Luísa de Gusmão. O governo e a sociedade portugueses, tolhidos pelo maior mal que se abateu sobre Portugal, a Inquisição, não dispunha das condições objetivas para, depois da Restauração ocorrida em 1640, quando o país se libertou do domínio da Espanha, aplicar as políticas que Vieira formulou para recuperar a glória lusa da “grandeza antiga”.
Sua visão de estadista alcançava mais longe que a miopia dos irmãos religiosos, especialmente os dominicanos que ministravam as trevas da Inquisição. Defendeu a reabilitação dos judeus, para livrar os cristãos-novos do sinal infamante, com o objetivo de atrair a Portugal o capital judaico que já migrara para os Países Baixos (hoje Bélgica e Holanda) e ajudava a fazer daquele país a grande potência comercial da Europa. Foi dele a idéia da criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil (1649), para concorrer com a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (1621), patrocinadora da invasão do Nordeste de 1624 a 1654, período em que os holandeses controlaram a produção de açúcar e o tráfico de escravos. Jesuíta, “fiel servo de Deus”, Vieira colocava os interesses de Estado acima do obscurantismo religioso que atrasava Portugal.
A astúcia geopolítica do padre-estadista se fez presente quando sugeriu a dom João IV uma bandeira que demarcasse os limites do Brasil com as terras da Espanha. Não há notícia de que tenha se oposto ao nome que o rei designou para a tarefa, o excomungado capitão Raposo Tavares, o maior inimigo dos jesuítas, destruidor das reduções espanholas da Companhia de Jesus no que é hoje o Sul do Brasil. Vieira é autor de um dos poucos relatos acerca desta bandeira epopéica, que de 1648 a 1651 palmilhou dez mil quilômetros, do Tietê à foz do Amazonas, e praticamente delineou a fronteira atual do País. É visível a ambivalência do texto. Mesmo incriminando Raposo Tavares (“o matador”), sem citar-lhe o nome, compara os bandeirantes aos gregos míticos “argonautas”, e qualifica a empreitada como “uma das mais notáveis que até hoje se tem feito no mundo”.
Pesou em sua biografia a capitulação diante dos holandeses. Autor de um eloqüente Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, em 1640, concordaria com a decisão de dom João IV de entregar o Nordeste ao inimigo. Considerava que a guerra era cara a Holanda, um adversário difícil de vencer, e que Portugal poderia reaver as terras “quando nos virmos em melhor fortuna”, antes compensando a perda de território com a anexação da Argentina. Como não é raro na História, os soldados surpreenderam os generais. Os guerrilheiros sertanejos, que na exaltação do próprio Vieira “tinham por casa o céu e a terra por cama” e “se sustentavam só de farinha de guerra, sem mais que uma pouca de água”, impuseram uma derrota militar humilhante ao exército flamengo.
Neste episódio, e em tantos outros, a bússola política de Vieira apontava para um só objetivo estratégico, a consolidação do trono português depois dos sessenta anos de domínio espanhol, iniciado após a morte de um jovem rei que não tinha sucessor, dom Sebastião. Desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, forjou o mito do retorno triunfal – o sebastianismo – de que voltaria para realizar por vontade de Deus um grande império universal sob domínio português. Quando dom João IV assumiu o trono, voltaram a lume as profecias de um sapateiro de Trancoso, Antônio Gonçalo Bandarra, que no século anterior vaticinara a volta do rei exatamente em 1640: “O seu nome é dom João”. Para a corte, dom João IV era dom Sebastião redivivo.
Quando dom João morreu, em 1656, Vieira abençoou Bandarra, comparando-o aos profetas bíblicos Daniel e Isaías, e pregando que desta vez seria dom João que voltaria à vida e ao poder. Chamaram-no de louco e herege – a Inquisição lhe impôs dois anos de custódia e seis meses de reclusão. Em sua sagacidade política, queria fortalecer a dinastia dos Braganças com o movimento do sebastianismo que animara a luta da Restauração, e unir o país em torno do projeto do grande império.
( Por ALDO REBELO, deputado federal pelo PCdoB-SP. Foi presidente da Câmara dos Deputados e ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República)
Não exerceu o poder propriamente dito, como seu colega de batina cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII e homem mais poderoso da França naquele período. Foi apenas conselheiro do rei português dom João IV e de sua viúva, a rainha-regente Luísa de Gusmão. O governo e a sociedade portugueses, tolhidos pelo maior mal que se abateu sobre Portugal, a Inquisição, não dispunha das condições objetivas para, depois da Restauração ocorrida em 1640, quando o país se libertou do domínio da Espanha, aplicar as políticas que Vieira formulou para recuperar a glória lusa da “grandeza antiga”.
Sua visão de estadista alcançava mais longe que a miopia dos irmãos religiosos, especialmente os dominicanos que ministravam as trevas da Inquisição. Defendeu a reabilitação dos judeus, para livrar os cristãos-novos do sinal infamante, com o objetivo de atrair a Portugal o capital judaico que já migrara para os Países Baixos (hoje Bélgica e Holanda) e ajudava a fazer daquele país a grande potência comercial da Europa. Foi dele a idéia da criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil (1649), para concorrer com a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (1621), patrocinadora da invasão do Nordeste de 1624 a 1654, período em que os holandeses controlaram a produção de açúcar e o tráfico de escravos. Jesuíta, “fiel servo de Deus”, Vieira colocava os interesses de Estado acima do obscurantismo religioso que atrasava Portugal.
A astúcia geopolítica do padre-estadista se fez presente quando sugeriu a dom João IV uma bandeira que demarcasse os limites do Brasil com as terras da Espanha. Não há notícia de que tenha se oposto ao nome que o rei designou para a tarefa, o excomungado capitão Raposo Tavares, o maior inimigo dos jesuítas, destruidor das reduções espanholas da Companhia de Jesus no que é hoje o Sul do Brasil. Vieira é autor de um dos poucos relatos acerca desta bandeira epopéica, que de 1648 a 1651 palmilhou dez mil quilômetros, do Tietê à foz do Amazonas, e praticamente delineou a fronteira atual do País. É visível a ambivalência do texto. Mesmo incriminando Raposo Tavares (“o matador”), sem citar-lhe o nome, compara os bandeirantes aos gregos míticos “argonautas”, e qualifica a empreitada como “uma das mais notáveis que até hoje se tem feito no mundo”.
Pesou em sua biografia a capitulação diante dos holandeses. Autor de um eloqüente Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, em 1640, concordaria com a decisão de dom João IV de entregar o Nordeste ao inimigo. Considerava que a guerra era cara a Holanda, um adversário difícil de vencer, e que Portugal poderia reaver as terras “quando nos virmos em melhor fortuna”, antes compensando a perda de território com a anexação da Argentina. Como não é raro na História, os soldados surpreenderam os generais. Os guerrilheiros sertanejos, que na exaltação do próprio Vieira “tinham por casa o céu e a terra por cama” e “se sustentavam só de farinha de guerra, sem mais que uma pouca de água”, impuseram uma derrota militar humilhante ao exército flamengo.
Neste episódio, e em tantos outros, a bússola política de Vieira apontava para um só objetivo estratégico, a consolidação do trono português depois dos sessenta anos de domínio espanhol, iniciado após a morte de um jovem rei que não tinha sucessor, dom Sebastião. Desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, forjou o mito do retorno triunfal – o sebastianismo – de que voltaria para realizar por vontade de Deus um grande império universal sob domínio português. Quando dom João IV assumiu o trono, voltaram a lume as profecias de um sapateiro de Trancoso, Antônio Gonçalo Bandarra, que no século anterior vaticinara a volta do rei exatamente em 1640: “O seu nome é dom João”. Para a corte, dom João IV era dom Sebastião redivivo.
Quando dom João morreu, em 1656, Vieira abençoou Bandarra, comparando-o aos profetas bíblicos Daniel e Isaías, e pregando que desta vez seria dom João que voltaria à vida e ao poder. Chamaram-no de louco e herege – a Inquisição lhe impôs dois anos de custódia e seis meses de reclusão. Em sua sagacidade política, queria fortalecer a dinastia dos Braganças com o movimento do sebastianismo que animara a luta da Restauração, e unir o país em torno do projeto do grande império.
( Por ALDO REBELO, deputado federal pelo PCdoB-SP. Foi presidente da Câmara dos Deputados e ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República)
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Lauro Mohry sobre Vieira
Pronunciamento do Professor Lauro Morhy, Professor Emérito e Ex-Reitor da Universidade de Brasília, feito no dia 11 de Fevereiro de 2008, na Embaixada de Portugal, por ocasião da Celebração do 4º.Centenário de Nascimento do Padre Antônio Vieira, promovida pela Embaixada de Portugal e pela Universidade de Brasília.
É com grande satisfação que participo desta Celebração do 4º.Centenário de Nascimento do Padre Antônio Vieira, representando a Universidade de Brasília (UnB) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e também como simples admirador da obra desse grande mestre da língua portuguesa do século XVII e, porque não dizer, de todos os tempos.
Quisera eu ter o dom da oratória para neste momento poder homenagear o Pe. Antônio Vieira usando ainda que um pouco da sua espontaneidade e vigor, da sua erudição, da sua estilística, da sua segurança e da clareza dos seus sermões. Não o tendo, recorro a esta breve e modesta manifestação que aqui faço com o mais profundo reconhecimento, com a gratidão mais sincera por toda obra gigantesca e valiosa que Vieira nos legou.
Vieira foi um dos luso-brasileiros mais brasileiros ! Nasceu em 1608 em Lisboa e faleceu em Salvador, Bahia, em 1697. Educado no Colégio Jesuíta da Bahia, foi desde cedo contemplado com o dom da palavra e com conhecimentos de filosofia e teologia, enquanto vivia um Brasil que dava os primeiros passos, enquanto descortinava o mundo com todos os seus encantos e sua dura realidade.
Certamente predestinado pelo céu, iniciou o seu noviciado com os jesuítas já em 1623, e teve uma vida plena de atividades que enriqueceram muito a sua mente e o seu espírito. No seminário teve despertada a sua vocação para o magistério, mas logo viu que tinha também muito a fazer além da sala de aula. Foi combatente e ferido na luta contra a segunda invasão holandesa; trabalhou de perto com escravos e índios. Viveu a proximidade do poder em Lisboa e em Roma. Defendeu os Cristãos Novos. Sofreu perseguição pela Inquisição; foi quando teria balbuciado que “os inquisidores viviam da fé e os jesuítas morriam por ela”...
Magoado disse Vieira certa vez, em um sermão na Capela Real em Lisboa: “Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma; mas, que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia ?”. Este desabafo é sempre atual e frequentemente lembrado e repetido ainda em nossos dias, pois, afinal, os homens ainda são os homens, e a pátria o que costuma...
Vieira fez muito em sua longa vida de 89 anos, mas foram os seus sermões e os seus livros que o imortalizaram !
Ao terminar a minha missão como Reitor da Universidade de Brasília em 2005, em comum acordo com a equipe de dirigentes que me acompanhava, e especialmente com o grupo do Laboratório de Estudos do Futuro, decidimos que encerraríamos aquela nossa missão, tão rica em experiências e resultados, com uma edição especial da obra História do Futuro, do Pe. Antônio Vieira.
Na ocasião do seu lançamento, significativamente aqui, na Embaixada de Portugal, tive a honra e a satisfação de declarar que aquele lançamento era a chave de ouro, com a qual encerrávamos a honrosa missão que nos fôra confiada. Era a nossa homenagem, já iniciando as comemorações do 4º. centenário do nascimento do Pe. Vieira.
A preparação da edição primorosa da História do Futuro, feita pela Editora da Universidade de Brasília, contou com a dedicada colaboração do Padre José Carlos Brandi Aleixo (Organizador), dos Doutores João Ferreira e João Pedro Mendes, de nossas então estudantes de pós-graduação, Andréa Costa Tavares (mestranda) e Vanda Passos (doutoranda), além de uma equipe de revisores citados no livro. Mas foi graças à colaboração dos amigos das Embaixadas de Portugal no Brasil, especialmente do Embaixador Francisco Seixas da Costa; dos amigos da Embaixada do Brasil em Portugal; e, especialmente, do Dr. Pedro Cardim, que tornou-se possível incluir na preciosa obra, os riquíssimos painéis, que resultaram de iniciativa da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, no âmbito da celebração da efeméride da morte do Padre Antônio Vieira.
Senhoras e Senhores ! O Passado e o presente se encontram no início do futuro todos os dias, e o acompanham por muito tempo. Assim é que Vieira está aqui hoje, vivo, com as suas idéias, com a sua milagrosa inteligência e sabedoria, a nos dizer que “O homem, filho do tempo, reparte com o tempo ou o seu saber ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada”.
Mas, prezadas amigas e amigos, certamente Vieira concordará conosco, seus admiradores e discípulos, quando aqui também dizemos hoje, em sua homenagem, que o futuro não é o que se teme, que o futuro que queremos é o que se constrói com muita dedicação, trabalho árduo, muito respeito a tudo e a todos, e com pleno amor ! Sim, com pleno amor, porque tudo que é verdadeiramente grande e bom, nasce do amor!
É com grande satisfação que participo desta Celebração do 4º.Centenário de Nascimento do Padre Antônio Vieira, representando a Universidade de Brasília (UnB) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e também como simples admirador da obra desse grande mestre da língua portuguesa do século XVII e, porque não dizer, de todos os tempos.
Quisera eu ter o dom da oratória para neste momento poder homenagear o Pe. Antônio Vieira usando ainda que um pouco da sua espontaneidade e vigor, da sua erudição, da sua estilística, da sua segurança e da clareza dos seus sermões. Não o tendo, recorro a esta breve e modesta manifestação que aqui faço com o mais profundo reconhecimento, com a gratidão mais sincera por toda obra gigantesca e valiosa que Vieira nos legou.
Vieira foi um dos luso-brasileiros mais brasileiros ! Nasceu em 1608 em Lisboa e faleceu em Salvador, Bahia, em 1697. Educado no Colégio Jesuíta da Bahia, foi desde cedo contemplado com o dom da palavra e com conhecimentos de filosofia e teologia, enquanto vivia um Brasil que dava os primeiros passos, enquanto descortinava o mundo com todos os seus encantos e sua dura realidade.
Certamente predestinado pelo céu, iniciou o seu noviciado com os jesuítas já em 1623, e teve uma vida plena de atividades que enriqueceram muito a sua mente e o seu espírito. No seminário teve despertada a sua vocação para o magistério, mas logo viu que tinha também muito a fazer além da sala de aula. Foi combatente e ferido na luta contra a segunda invasão holandesa; trabalhou de perto com escravos e índios. Viveu a proximidade do poder em Lisboa e em Roma. Defendeu os Cristãos Novos. Sofreu perseguição pela Inquisição; foi quando teria balbuciado que “os inquisidores viviam da fé e os jesuítas morriam por ela”...
Magoado disse Vieira certa vez, em um sermão na Capela Real em Lisboa: “Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma; mas, que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia ?”. Este desabafo é sempre atual e frequentemente lembrado e repetido ainda em nossos dias, pois, afinal, os homens ainda são os homens, e a pátria o que costuma...
Vieira fez muito em sua longa vida de 89 anos, mas foram os seus sermões e os seus livros que o imortalizaram !
Ao terminar a minha missão como Reitor da Universidade de Brasília em 2005, em comum acordo com a equipe de dirigentes que me acompanhava, e especialmente com o grupo do Laboratório de Estudos do Futuro, decidimos que encerraríamos aquela nossa missão, tão rica em experiências e resultados, com uma edição especial da obra História do Futuro, do Pe. Antônio Vieira.
Na ocasião do seu lançamento, significativamente aqui, na Embaixada de Portugal, tive a honra e a satisfação de declarar que aquele lançamento era a chave de ouro, com a qual encerrávamos a honrosa missão que nos fôra confiada. Era a nossa homenagem, já iniciando as comemorações do 4º. centenário do nascimento do Pe. Vieira.
A preparação da edição primorosa da História do Futuro, feita pela Editora da Universidade de Brasília, contou com a dedicada colaboração do Padre José Carlos Brandi Aleixo (Organizador), dos Doutores João Ferreira e João Pedro Mendes, de nossas então estudantes de pós-graduação, Andréa Costa Tavares (mestranda) e Vanda Passos (doutoranda), além de uma equipe de revisores citados no livro. Mas foi graças à colaboração dos amigos das Embaixadas de Portugal no Brasil, especialmente do Embaixador Francisco Seixas da Costa; dos amigos da Embaixada do Brasil em Portugal; e, especialmente, do Dr. Pedro Cardim, que tornou-se possível incluir na preciosa obra, os riquíssimos painéis, que resultaram de iniciativa da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, no âmbito da celebração da efeméride da morte do Padre Antônio Vieira.
Senhoras e Senhores ! O Passado e o presente se encontram no início do futuro todos os dias, e o acompanham por muito tempo. Assim é que Vieira está aqui hoje, vivo, com as suas idéias, com a sua milagrosa inteligência e sabedoria, a nos dizer que “O homem, filho do tempo, reparte com o tempo ou o seu saber ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada”.
Mas, prezadas amigas e amigos, certamente Vieira concordará conosco, seus admiradores e discípulos, quando aqui também dizemos hoje, em sua homenagem, que o futuro não é o que se teme, que o futuro que queremos é o que se constrói com muita dedicação, trabalho árduo, muito respeito a tudo e a todos, e com pleno amor ! Sim, com pleno amor, porque tudo que é verdadeiramente grande e bom, nasce do amor!
A intemporalidade de Vieira
A Academia das Ciências de Lisboa assinalou o quarto centenário do nascimento do padre António Vieira, sendo orador o jornalista açoriano António Valdemar que destacou "o génio que engrandeceu a língua na qual dizemos uns aos outros o que nos une e o que nos distingue; realidade quotidiana e património intemporal de portugueses, brasileiros, africanos, orientais, pátria de pátrias, instrumento de cultura e civilização com íntimas cumplicidades de afecto e fortes vínculos de história".
Para António Valdemar, que é também sócio efectivo da Classe de Letras da Academia que promove a iniciativa, o assinalar da efeméride tem "o mérito de nos aproximar de uma figura que viveu e marcou o seu tempo, projectando-se para os outros tempos e constituindo uma referência emblemática da língua falada hoje por mais de 200 milhões de habitantes de cinco continentes", pois "o grande desígnio de uma política da lusofonía tem raízes no pensamento de Vieira ao defender, a abertura da língua à vida, ao tempo e ao mundo".
O Jornalista traça o perfil e o percurso do homem que viveu há 400 anos e que ainda hoje permanece vivo nos compêndios escolares, sendo no entanto "quase um ignorado na sua cidade" de nascimento que é Lisboa, onde tem "o nome inscrito na toponímia, mas numa rua vulgar, igual a tantas e tantas outras". Esse esquecimento é tanto maior, de acordo com as palavras de António Valdemar, porque "nunca se ergueu um monumento à sua memória. Até agora, no Panteão Nacional, não há um cenotáfio que o recorde. Apenas Columbano o integrou num dos retratos colectivos que se encontram nos Paços Perdidos, do Palácio de São Bento. Esta é uma das raras homenagens que recebeu. A outra foi a de Fernando Pessoa ao inclui-lo na Mensagem e exaltando – o como o imperador da língua portuguesa e dizendo que ele «foi-nos um céu também»"."Missionário, diplomata, político e génio literário, Vieira foi tudo isto, lembra o jornalista, para acrescentar que vieira "ocupou quase por inteiro o século XVII – umas vezes, com os maiores privilégios e distinções, pelos êxitos alcançados, dentro e fora de Portugal; outras, marginalizado, suportando o travo da derrota, a crueldade e o silencio do ostracismo".
Valdemar aponta também o papel de Vieira na história do país, uma vez que "exerceu influência assinalável no Portugal da Restauração. Pregador e conselheiro de D. João IV, realizou missões diplomáticas a Paris e Haia, à procura de alianças e fundos para a Guerra contra Castela. Teve encontros com as comunidades judaicas de Ruão e Amesterdão. Propôs a D João IV a admissão de mercadores judeus e a abolição da discriminação dos cristãos novos, com o objectivo de atrair os seus investimentos. Depois de uma polémica com os colonos no Brasil, fez aprovar legislação contra a escravatura dos índios. Enfrentou conflitos com a Inquisição, esteve preso nos cárceres do Santo Oficio mas conseguiu do Papa a suspensão dos autos de fé”. António Valdemar recorda que Vieira teve, ainda, um contencioso no seio da própria Companhia de Jesus. "Para muitos causa surpresa e atribui-se ao seu temperamento arrojado e heterodoxo. Contudo, essa heterodoxia, talvez faça parte e seja uma das virtualidades da actuação e funcionamento da Companhia: ocupar a Cidade dos Homens a fim de atingir a Cidade de Deus. Mais de 300 anos depois de Vieira, Theilhard de Chardin, é outro exemplo desta dissidência controlada".
Embora existem diferenças inevitáveis, entre ambos, não há, no entanto, dissemelhanças irredutíveis no essencial da atitude, do comportamento e até da doutrina. Partindo de uma experiência temporal, Vieira – diz Valdemar - formula uma visão simbólica e alegórica para o domínio político - espiritual , enquanto Chardin, projectando as suas concepções cientificas, procedeu a uma teorização teológico - filosófica do universo. Tanto um como outro, acrescenta, "mantiveram-se sempre na Companhia e não se desviaram das suas finalidades, apesar de sofrerem admoestações, reprimendas e, até, a proscrição e o ostracismo. Para Vieira foi a utopia do Quinto Império, para Chardin a Noosfera, o que ascende e converge para um Cristo Cósmico, ponto ómega da idade final do espírito. Ambos foram universalistas e ambos se quiseram profetas e historiadores do futuro".
E que dizer do génio literário de Vieira?, pergunta Valdemar, cuja resposta é simples: "Como orador e epistológrafo não tem paralelo. Seguiu os modelos da Antiguidade Clássica, do pensamento e da literatura medievais, aprofundou os prosadores e poetas quinhentistas; as bases doutrinais do Concílio de Trento e outras directrizes da Contra Reforma. Mas é sempre ele próprio".
Entre os Sermões e as Cartas há diferenças, mas o autor é sempre o mesmo, ficando o registo de que "cada sermão de Vieira é uma «partitura linguística» e constituía um acontecimento religioso, político e mundano, que esgotava a lotação da capela real, das igrejas e conventos de Lisboa e do País e no Brasil.António Valdemar não se esquece de referir que o tema abordado por Vieira "está, sempre, subordinado a uma efeméride religiosa, pronunciando-se acerca das hipocrisias do mundo, do amor e da morte, da felicidade e da infelicidade, da modéstia e da vaidade, da corrupção e do roubo, dos impostos abusivos, e das riquezas ilegítimas, das fraquezas e grandezas da condição humana".
Contra opiniões dominantes – vinca Valdemar - defendeu a igualdade dos povos e das raças. Destaca – se, já o assinalámos, a posição assumida em relação aos judeus e aos índios, mas que correspondia a uma linha de rumo da Companhia de Jesus, na Europa e no Brasil.
Já no plano da oratória, o açoriano diz que vieira "tem um discurso organizado, persuasivo, às vezes provocador, para se apoderar do auditórioe para quem "não há tempos fracos, todos são fortes".
"O discurso de Vieira é empolgante e entre os principais clássicos é o mais acessível. Continua a despertar e a prender a atenção", remata António Valdemar.
(Nélia Câmara, 10.2.08, Diário dos Açores)
Para António Valdemar, que é também sócio efectivo da Classe de Letras da Academia que promove a iniciativa, o assinalar da efeméride tem "o mérito de nos aproximar de uma figura que viveu e marcou o seu tempo, projectando-se para os outros tempos e constituindo uma referência emblemática da língua falada hoje por mais de 200 milhões de habitantes de cinco continentes", pois "o grande desígnio de uma política da lusofonía tem raízes no pensamento de Vieira ao defender, a abertura da língua à vida, ao tempo e ao mundo".
O Jornalista traça o perfil e o percurso do homem que viveu há 400 anos e que ainda hoje permanece vivo nos compêndios escolares, sendo no entanto "quase um ignorado na sua cidade" de nascimento que é Lisboa, onde tem "o nome inscrito na toponímia, mas numa rua vulgar, igual a tantas e tantas outras". Esse esquecimento é tanto maior, de acordo com as palavras de António Valdemar, porque "nunca se ergueu um monumento à sua memória. Até agora, no Panteão Nacional, não há um cenotáfio que o recorde. Apenas Columbano o integrou num dos retratos colectivos que se encontram nos Paços Perdidos, do Palácio de São Bento. Esta é uma das raras homenagens que recebeu. A outra foi a de Fernando Pessoa ao inclui-lo na Mensagem e exaltando – o como o imperador da língua portuguesa e dizendo que ele «foi-nos um céu também»"."Missionário, diplomata, político e génio literário, Vieira foi tudo isto, lembra o jornalista, para acrescentar que vieira "ocupou quase por inteiro o século XVII – umas vezes, com os maiores privilégios e distinções, pelos êxitos alcançados, dentro e fora de Portugal; outras, marginalizado, suportando o travo da derrota, a crueldade e o silencio do ostracismo".
Valdemar aponta também o papel de Vieira na história do país, uma vez que "exerceu influência assinalável no Portugal da Restauração. Pregador e conselheiro de D. João IV, realizou missões diplomáticas a Paris e Haia, à procura de alianças e fundos para a Guerra contra Castela. Teve encontros com as comunidades judaicas de Ruão e Amesterdão. Propôs a D João IV a admissão de mercadores judeus e a abolição da discriminação dos cristãos novos, com o objectivo de atrair os seus investimentos. Depois de uma polémica com os colonos no Brasil, fez aprovar legislação contra a escravatura dos índios. Enfrentou conflitos com a Inquisição, esteve preso nos cárceres do Santo Oficio mas conseguiu do Papa a suspensão dos autos de fé”. António Valdemar recorda que Vieira teve, ainda, um contencioso no seio da própria Companhia de Jesus. "Para muitos causa surpresa e atribui-se ao seu temperamento arrojado e heterodoxo. Contudo, essa heterodoxia, talvez faça parte e seja uma das virtualidades da actuação e funcionamento da Companhia: ocupar a Cidade dos Homens a fim de atingir a Cidade de Deus. Mais de 300 anos depois de Vieira, Theilhard de Chardin, é outro exemplo desta dissidência controlada".
Embora existem diferenças inevitáveis, entre ambos, não há, no entanto, dissemelhanças irredutíveis no essencial da atitude, do comportamento e até da doutrina. Partindo de uma experiência temporal, Vieira – diz Valdemar - formula uma visão simbólica e alegórica para o domínio político - espiritual , enquanto Chardin, projectando as suas concepções cientificas, procedeu a uma teorização teológico - filosófica do universo. Tanto um como outro, acrescenta, "mantiveram-se sempre na Companhia e não se desviaram das suas finalidades, apesar de sofrerem admoestações, reprimendas e, até, a proscrição e o ostracismo. Para Vieira foi a utopia do Quinto Império, para Chardin a Noosfera, o que ascende e converge para um Cristo Cósmico, ponto ómega da idade final do espírito. Ambos foram universalistas e ambos se quiseram profetas e historiadores do futuro".
E que dizer do génio literário de Vieira?, pergunta Valdemar, cuja resposta é simples: "Como orador e epistológrafo não tem paralelo. Seguiu os modelos da Antiguidade Clássica, do pensamento e da literatura medievais, aprofundou os prosadores e poetas quinhentistas; as bases doutrinais do Concílio de Trento e outras directrizes da Contra Reforma. Mas é sempre ele próprio".
Entre os Sermões e as Cartas há diferenças, mas o autor é sempre o mesmo, ficando o registo de que "cada sermão de Vieira é uma «partitura linguística» e constituía um acontecimento religioso, político e mundano, que esgotava a lotação da capela real, das igrejas e conventos de Lisboa e do País e no Brasil.António Valdemar não se esquece de referir que o tema abordado por Vieira "está, sempre, subordinado a uma efeméride religiosa, pronunciando-se acerca das hipocrisias do mundo, do amor e da morte, da felicidade e da infelicidade, da modéstia e da vaidade, da corrupção e do roubo, dos impostos abusivos, e das riquezas ilegítimas, das fraquezas e grandezas da condição humana".
Contra opiniões dominantes – vinca Valdemar - defendeu a igualdade dos povos e das raças. Destaca – se, já o assinalámos, a posição assumida em relação aos judeus e aos índios, mas que correspondia a uma linha de rumo da Companhia de Jesus, na Europa e no Brasil.
Já no plano da oratória, o açoriano diz que vieira "tem um discurso organizado, persuasivo, às vezes provocador, para se apoderar do auditórioe para quem "não há tempos fracos, todos são fortes".
"O discurso de Vieira é empolgante e entre os principais clássicos é o mais acessível. Continua a despertar e a prender a atenção", remata António Valdemar.
(Nélia Câmara, 10.2.08, Diário dos Açores)
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Evento vieirino em S. Paulo
O 34º Encontro dos Descobrimentos será realizado na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Para celebrar o 400º aniversário do Padre António Vieira - religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus, que defendeu os direitos humanos dos povos indígenas e os negros combatendo a sua exploração e escravização -, será promovido um evento no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), no dia 23 de fevereiro (sábado), às 15 horas. O 34º Encontro dos Descobrimentos é promovido pelas comunidades portuguesa e japonesa, que formaram a cultura brasileira, e realizado pela Comissão Municipal de Direitos Humanos (CMDH), presidida pelo Dr. José Gregori e pelo IHGSP.
Na comemoração serão realizadas palestras de José Gregori, Nelly Martins Ferreira Candeias, presidente do IHGSP e do advogado, Nelson Faria de Oliveira.
O evento conta com o apoio da ONG Resgatando Valores, da Embaixada do Brasil em Portugal, de Hélio Matsuda e da firma Faria de Oliveira Advogados.
O 34º Encontro dos Descobrimentos – Homenagem ao Padre Vieira, no dia 23 de fevereiro (sábado), às 15 horas, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), rua Benjamin Constant, 158 – S.Paulo. http://portal.prefeitura.sp.gov.br/cidadania/cmdh Telefone: (11) 3106-0030 0800-7701445 xcontrera@prefeitura.sp.gov.br
(Portal Factor 19.2.08)
Para celebrar o 400º aniversário do Padre António Vieira - religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus, que defendeu os direitos humanos dos povos indígenas e os negros combatendo a sua exploração e escravização -, será promovido um evento no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), no dia 23 de fevereiro (sábado), às 15 horas. O 34º Encontro dos Descobrimentos é promovido pelas comunidades portuguesa e japonesa, que formaram a cultura brasileira, e realizado pela Comissão Municipal de Direitos Humanos (CMDH), presidida pelo Dr. José Gregori e pelo IHGSP.
Na comemoração serão realizadas palestras de José Gregori, Nelly Martins Ferreira Candeias, presidente do IHGSP e do advogado, Nelson Faria de Oliveira.
O evento conta com o apoio da ONG Resgatando Valores, da Embaixada do Brasil em Portugal, de Hélio Matsuda e da firma Faria de Oliveira Advogados.
O 34º Encontro dos Descobrimentos – Homenagem ao Padre Vieira, no dia 23 de fevereiro (sábado), às 15 horas, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), rua Benjamin Constant, 158 – S.Paulo. http://portal.prefeitura.sp.gov.br/cidadania/cmdh Telefone: (11) 3106-0030 0800-7701445 xcontrera@prefeitura.sp.gov.br
(Portal Factor 19.2.08)
domingo, 17 de fevereiro de 2008
CTT assinalam aniversário de António Vieira
Os Correios de Portugal vão editar um selo especial, comemorativo dos 400 anos do Padre António Vieira.
A emissão, no próximo mês de Março, faz parte de uma série dedicada a vultos da cultura portuguesa, como Maria Helena Vieira da Silva, Manoel de Oliveira, José Relvas, Ricardo Jorge, Aureliano Mira Fernandes e, como referido, o Padre António Vieira.
O ano de 2008, em que passam quatrocentos anos sobre o nascimento de António Vieira, tem sido marcado pela evocação da vida e da obra deste jesuíta, figura ímpar da Cultura Portuguesa e Brasileira.
Ao longo da sua longa vida (1608-1697), repartida entre Portugal e o Brasil, com passagens por França, Holanda, Inglaterra e Itália, o religioso português distinguiu-se como escritor, diplomata, pregador, teólogo e profeta.
(Agência Ecclesia, 15.2.08)
A emissão, no próximo mês de Março, faz parte de uma série dedicada a vultos da cultura portuguesa, como Maria Helena Vieira da Silva, Manoel de Oliveira, José Relvas, Ricardo Jorge, Aureliano Mira Fernandes e, como referido, o Padre António Vieira.
O ano de 2008, em que passam quatrocentos anos sobre o nascimento de António Vieira, tem sido marcado pela evocação da vida e da obra deste jesuíta, figura ímpar da Cultura Portuguesa e Brasileira.
Ao longo da sua longa vida (1608-1697), repartida entre Portugal e o Brasil, com passagens por França, Holanda, Inglaterra e Itália, o religioso português distinguiu-se como escritor, diplomata, pregador, teólogo e profeta.
(Agência Ecclesia, 15.2.08)
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
"A vida e obra do Padre António Vieira"
Nasce no dia 6 de Fevereiro de 1608, em Lisboa, António Vieira, filho de Cristóvão Vieira Ravasco e Maria de Azevedo. Em 1614, a família viaja para o Brasil, fixando-se em São Salvador da Bahia de Todos os Santos. A então capital brasileira reunia cerca de 15 mil habitantes (3 mil portugueses, 9 mil índios e 3 a 4 mil escravos africanos).
Aos 5 de Maio de 1623, António inicia os seus estudos no Colégio dos Jesuítas, como noviço. No ano seguinte (1624), os holandeses invadem a pequena cidade e António vai viver, durante perto de um ano numa aldeia de índios, cujas tradições aprende a respeitar, ao mesmo tempo que divulga as Leis de Cristo. Acossados pela população, os holandeses rendem-se em 30 de Maio de 1625.António Vieira começa a redigir, em 1626, as Cartas Ânuas, relatando as actividades da Companhia de Jesus, nos dois anos anteriores, e em 1627 dá aulas de retórica no Colégio de Olinda. É ordenado Presbítero em 10 de Dezembro de 1634 e celebra a primeira Missa três dias mais tarde. Prega o primeiro Sermão (em honra de São Sebastião, 6-3-1633). Entretanto, os holandeses voltam a atacar São Salvador em 16 de Abril, mas são repelidos. No dia 13 de Junho de 1640, o Padre Vieira prega o histórico Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda, fazendo outro Sermão em acção de graças pelas vitórias portuguesas sobre os holandeses em 6 de Janeiro de 1641. Entretanto, no dia 15 de Fevereiro chega a notícia de que, em 1º. de Dezembro de 1640, Portugal se libertara do jugo espanhol, e aos 27 de Fevereiro de 1641 o Padre Vieira embarca para Lisboa a fim de anunciar ao Rei D. João IV que o Brasil apoiava o novo soberano de Portugal (o Vice-Rei, que era o Marquês de Montalvão, nomeara o seu filho D. Fernando de Mascarenhas, o jesuíta Pe. Simão de Vasconcelos e o Pe. Vieira como embaixadores da missão).
António Vieira fizera 30 anos e após as explicações necessárias perante D. João IV ganha a confiança do Rei, que o manda e, com outros, ele parte em 30 de Abril de 1641 para Roma, onde o Papa se mostra receoso dos protestos espanhóis, que não querem aceitar a independência de Portugal. Regressa e no dia 1º. de Janeiro de 1642 prega pela primeira vez em Lisboa, na Capela Real, deslumbrando os fieis com o Sermão dos Bons Anos. Seguem-se outros Sermões que consagram a fama do pregador – com o Sermão de Santo António, em Setembro (fez 9 sobre o mesmo tema) reclama aos nobres e ao clero que dêem mais apoio à luta pela Restauração Nacional.
Em 23 de Setembro de 1643 os holandeses são definitivamente derrotados em Guararapes (Pernambuco) e em 1644 o Padre Vieira é nomeado Pregador Régio e viaja outra vez para Roma, pedindo o reconhecimento papal da autonomia portuguesa. Cumpre a seguir outra missão real na França, tentando acertar o casamento do Príncipe D. Teodósio (filho de D. João IV) com a filha do Duque de Orleans, havendo quem chegasse a admitir a hipótese de o rei português abdicar no filho D. Teodósio – enquanto D. João IV poderia tornar-se o Rei do Brasil independente, projectos que não se concretizaram.
A influência de António Vieira aumenta e os seus adversários unem-se – o padre jesuíta Martim Leitão denuncia aos inquisidores (1649) os "desvios" teológicos do pregador, em virtude da defesa que Vieira faz dos escravos e dos judeus. É fundada a Companhia de Comércio do Brasil, com base em sugestão do grande pregador, que viaja para Roma (1650), propondo o casamento de D. Teodósio com a filha do rei de Espanha. Em seguida, embarca para o Brasil (22-XI-1652), desconhecendo-se os motivos da viagem. Prega o Sermão dos Escravos (São Luís do Maranhão, 22-V-1653): "Sabeis, cristãos, sabeis nobreza e povo do Maranhão, qual é o jejum que quer Deus de vós esta Quaresma? Que solteis as ataduras da injustiça, e que deixeis ir livres os que tendes cativos e oprimidos". E uma vez mais insiste na libertação dos escravos em carta de 20/5/1652 ao Rei.
Rodam os anos e acumulam-se as invejas contra o Padre António Vieira, que continua a defender índios e africanos. Em 1655, é aprovada a Lei da Liberdade dos Índios e ele volta ao Maranhão, sendo expulso com outros em Novembro de 1661.
É desterrado para o Porto em 1662, de onde o reenviam para Coimbra – e a Inquisição Portuguesa prende-o por mais de dois anos, proibindo-o de pregar e viajar. Libertado em 12-VI-1668, consegue ir a Roma – o Papa revoga as maiores punições inquisitoriais, Vieira retorna a Lisboa – e em 27-1-1681 reembarca para a Bahia. Nomeado Visitador-Geral da Companhia de Jesus no Brasil (17-I-1688), faz a redacção definitiva de alguns dos Sermões e morre em São Salvador da Bahia em 18-VII-1697: foi um grande evangelizador, um extraordinário dos dois Mundos e um dos nossos maiores prosadores – e é o "Imperador da Língua Portuguesa", como o chamou Fernando Pessoa.
(João Alves das Neves, 15.2.07, "Diário dos Açores"
Aos 5 de Maio de 1623, António inicia os seus estudos no Colégio dos Jesuítas, como noviço. No ano seguinte (1624), os holandeses invadem a pequena cidade e António vai viver, durante perto de um ano numa aldeia de índios, cujas tradições aprende a respeitar, ao mesmo tempo que divulga as Leis de Cristo. Acossados pela população, os holandeses rendem-se em 30 de Maio de 1625.António Vieira começa a redigir, em 1626, as Cartas Ânuas, relatando as actividades da Companhia de Jesus, nos dois anos anteriores, e em 1627 dá aulas de retórica no Colégio de Olinda. É ordenado Presbítero em 10 de Dezembro de 1634 e celebra a primeira Missa três dias mais tarde. Prega o primeiro Sermão (em honra de São Sebastião, 6-3-1633). Entretanto, os holandeses voltam a atacar São Salvador em 16 de Abril, mas são repelidos. No dia 13 de Junho de 1640, o Padre Vieira prega o histórico Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda, fazendo outro Sermão em acção de graças pelas vitórias portuguesas sobre os holandeses em 6 de Janeiro de 1641. Entretanto, no dia 15 de Fevereiro chega a notícia de que, em 1º. de Dezembro de 1640, Portugal se libertara do jugo espanhol, e aos 27 de Fevereiro de 1641 o Padre Vieira embarca para Lisboa a fim de anunciar ao Rei D. João IV que o Brasil apoiava o novo soberano de Portugal (o Vice-Rei, que era o Marquês de Montalvão, nomeara o seu filho D. Fernando de Mascarenhas, o jesuíta Pe. Simão de Vasconcelos e o Pe. Vieira como embaixadores da missão).
António Vieira fizera 30 anos e após as explicações necessárias perante D. João IV ganha a confiança do Rei, que o manda e, com outros, ele parte em 30 de Abril de 1641 para Roma, onde o Papa se mostra receoso dos protestos espanhóis, que não querem aceitar a independência de Portugal. Regressa e no dia 1º. de Janeiro de 1642 prega pela primeira vez em Lisboa, na Capela Real, deslumbrando os fieis com o Sermão dos Bons Anos. Seguem-se outros Sermões que consagram a fama do pregador – com o Sermão de Santo António, em Setembro (fez 9 sobre o mesmo tema) reclama aos nobres e ao clero que dêem mais apoio à luta pela Restauração Nacional.
Em 23 de Setembro de 1643 os holandeses são definitivamente derrotados em Guararapes (Pernambuco) e em 1644 o Padre Vieira é nomeado Pregador Régio e viaja outra vez para Roma, pedindo o reconhecimento papal da autonomia portuguesa. Cumpre a seguir outra missão real na França, tentando acertar o casamento do Príncipe D. Teodósio (filho de D. João IV) com a filha do Duque de Orleans, havendo quem chegasse a admitir a hipótese de o rei português abdicar no filho D. Teodósio – enquanto D. João IV poderia tornar-se o Rei do Brasil independente, projectos que não se concretizaram.
A influência de António Vieira aumenta e os seus adversários unem-se – o padre jesuíta Martim Leitão denuncia aos inquisidores (1649) os "desvios" teológicos do pregador, em virtude da defesa que Vieira faz dos escravos e dos judeus. É fundada a Companhia de Comércio do Brasil, com base em sugestão do grande pregador, que viaja para Roma (1650), propondo o casamento de D. Teodósio com a filha do rei de Espanha. Em seguida, embarca para o Brasil (22-XI-1652), desconhecendo-se os motivos da viagem. Prega o Sermão dos Escravos (São Luís do Maranhão, 22-V-1653): "Sabeis, cristãos, sabeis nobreza e povo do Maranhão, qual é o jejum que quer Deus de vós esta Quaresma? Que solteis as ataduras da injustiça, e que deixeis ir livres os que tendes cativos e oprimidos". E uma vez mais insiste na libertação dos escravos em carta de 20/5/1652 ao Rei.
Rodam os anos e acumulam-se as invejas contra o Padre António Vieira, que continua a defender índios e africanos. Em 1655, é aprovada a Lei da Liberdade dos Índios e ele volta ao Maranhão, sendo expulso com outros em Novembro de 1661.
É desterrado para o Porto em 1662, de onde o reenviam para Coimbra – e a Inquisição Portuguesa prende-o por mais de dois anos, proibindo-o de pregar e viajar. Libertado em 12-VI-1668, consegue ir a Roma – o Papa revoga as maiores punições inquisitoriais, Vieira retorna a Lisboa – e em 27-1-1681 reembarca para a Bahia. Nomeado Visitador-Geral da Companhia de Jesus no Brasil (17-I-1688), faz a redacção definitiva de alguns dos Sermões e morre em São Salvador da Bahia em 18-VII-1697: foi um grande evangelizador, um extraordinário dos dois Mundos e um dos nossos maiores prosadores – e é o "Imperador da Língua Portuguesa", como o chamou Fernando Pessoa.
(João Alves das Neves, 15.2.07, "Diário dos Açores"
Vieira: os mesmos desafios quatro séculos depois
A actualidade da palavra do Padre António Vieira foi recordada no passado fim-de-semana, no encontro Fé e Justiça que aconteceu no âmbito de uma conferência organizada pelo Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV), pelo Círculo Vieira e pelo Instituto Padre António Vieira. Subordinado ao tema "Padre António Vieira: os mesmos desafios quatro séculos depois", este evento inseriu-se nas comemorações dos 400 anos do nascimento do missionário, escritor e orador português da Companhia de Jesus.
O encontro dividiu-se em quatro painéis: "Os Direitos Humanos", "O Diálogo Inter-Cultural e Inter-Religioso", "Um Desígnio para Portugal" e "O Serviço da Fé", e contou com a presença de Diogo Freitas do Amaral, do presidente do Tribunal de Contas, Guilherme Oliveira Martins, da vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik, de Roberto Carneiro, do Padre Vaz Pinto, de António Vitorino, das jornalistas Paula Moura Pinheiro e Laurinda Alves, e de Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros.
Foram citadas várias partes dos seus sermões e discutidas, paralelamente, várias questões relacionadas com a actualidade, tais como a situação actual de Portugal face ao futuro e a situação do diálogo entre culturas e entre religiões.
Focando a singularidade da sua obra, nomeadamente na defesa dos índios brasileiros, Guilherme d''Oliveira Martins justificou a importância da evangelização do índio como defesa da dignidade e procura de que essa igualdade se traduzisse no dia-a-dia. "Oh trato desumano em que a mercancia é o homem", disse citando Padre António Vieira, classificando-o como profeta à frente do seu tempo.
"Nós judeus também guardamos uma memória importante de Padre António Vieira", afirmou Esther Mucznik ao iniciar a sua intervenção, lembrando outra das vertentes da sua obra, a de defesa dos judeus e dos cristãos-novos, que o levou a ser preso pela Inquisição. A representante da comunidade judaica aproveitou a oportunidade para afirmar que "contrariamente às aparências, o diálogo entre religiões não é nada fácil. Mesmo no judaísmo ainda existe algum ressentimento", acrescentando que "é favorável ao diálogo inter-religioso", embora considere que "este não existe em Portugal, em especial porque as confissões não-católicas têm uma expressão muito pequena na sociedade portuguesa" sendo esse diálogo "um poderoso instrumento de combate a preconceitos".
Quanto à garantia da existência de um desígnio para Portugal, António Vitorino salientou a necessidade de resposta a três "tensões": crescimento das desigualdades sociais; debate entre a afirmação de Portugal como país "atlantista" ou continental, defendo que "deveríamos apostar inequivocamente numa visão cosmopolita assente na Europa" e, por fim, a "qualidade da nossa democracia em relação ao conjunto dos cidadãos e, não só, em relação a alguns".
Na sequência da intervenção de António Vitorino, o também comentador, Marcelo Rebelo de Sousa, acrescentou que "haverá razões para desânimo num país que vive há vários anos numa crise económica e social", mas por outro lado, "Portugal, em 40 anos, enfrentou os desafios do fim do ciclo do império, descobriu e construiu uma democracia, encarou o desafio de se integrar no processo europeu do século XXI e construiu uma nova economia contra a visão de um Estado protector".
O ciclo de comemorações irá ainda continuar até dia 14 de Fevereiro, contando com várias actividades, onde se incluem o "Eléctrico Chamado Vieira", carreira do eléctrico 28 que liga o Largo do Camões à Graça e roteiros pela Lisboa de Vieira.
( in Edit on Web 11.2.08)
O encontro dividiu-se em quatro painéis: "Os Direitos Humanos", "O Diálogo Inter-Cultural e Inter-Religioso", "Um Desígnio para Portugal" e "O Serviço da Fé", e contou com a presença de Diogo Freitas do Amaral, do presidente do Tribunal de Contas, Guilherme Oliveira Martins, da vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik, de Roberto Carneiro, do Padre Vaz Pinto, de António Vitorino, das jornalistas Paula Moura Pinheiro e Laurinda Alves, e de Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros.
Foram citadas várias partes dos seus sermões e discutidas, paralelamente, várias questões relacionadas com a actualidade, tais como a situação actual de Portugal face ao futuro e a situação do diálogo entre culturas e entre religiões.
Focando a singularidade da sua obra, nomeadamente na defesa dos índios brasileiros, Guilherme d''Oliveira Martins justificou a importância da evangelização do índio como defesa da dignidade e procura de que essa igualdade se traduzisse no dia-a-dia. "Oh trato desumano em que a mercancia é o homem", disse citando Padre António Vieira, classificando-o como profeta à frente do seu tempo.
"Nós judeus também guardamos uma memória importante de Padre António Vieira", afirmou Esther Mucznik ao iniciar a sua intervenção, lembrando outra das vertentes da sua obra, a de defesa dos judeus e dos cristãos-novos, que o levou a ser preso pela Inquisição. A representante da comunidade judaica aproveitou a oportunidade para afirmar que "contrariamente às aparências, o diálogo entre religiões não é nada fácil. Mesmo no judaísmo ainda existe algum ressentimento", acrescentando que "é favorável ao diálogo inter-religioso", embora considere que "este não existe em Portugal, em especial porque as confissões não-católicas têm uma expressão muito pequena na sociedade portuguesa" sendo esse diálogo "um poderoso instrumento de combate a preconceitos".
Quanto à garantia da existência de um desígnio para Portugal, António Vitorino salientou a necessidade de resposta a três "tensões": crescimento das desigualdades sociais; debate entre a afirmação de Portugal como país "atlantista" ou continental, defendo que "deveríamos apostar inequivocamente numa visão cosmopolita assente na Europa" e, por fim, a "qualidade da nossa democracia em relação ao conjunto dos cidadãos e, não só, em relação a alguns".
Na sequência da intervenção de António Vitorino, o também comentador, Marcelo Rebelo de Sousa, acrescentou que "haverá razões para desânimo num país que vive há vários anos numa crise económica e social", mas por outro lado, "Portugal, em 40 anos, enfrentou os desafios do fim do ciclo do império, descobriu e construiu uma democracia, encarou o desafio de se integrar no processo europeu do século XXI e construiu uma nova economia contra a visão de um Estado protector".
O ciclo de comemorações irá ainda continuar até dia 14 de Fevereiro, contando com várias actividades, onde se incluem o "Eléctrico Chamado Vieira", carreira do eléctrico 28 que liga o Largo do Camões à Graça e roteiros pela Lisboa de Vieira.
( in Edit on Web 11.2.08)
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Exposição
Até ao dia 29 de Fevereiro, está patente ao público uma exposição evocativa da Comemoração dos “400 Anos do Nascimento do Padre António Vieira”, (a 6 de Fevereiro de 1608, Lisboa), na Biblioteca Municipal do Barreiro.
Esta mostra é constituída por alguns textos e imagens extraídos das obras do autor e livros existentes na Biblioteca. O Padre António Vieira foi um notável prosador e o mais conhecido orador religioso português. Um dos mais influentes personagens do séc. XVII em termos de política, destacando-se como missionário em terras brasileiras. Foi na qualidade de Missionário que defendeu os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização.
O Padre António Vieira defendeu também os Judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, e a abolição da escravatura. Criticou, ainda, severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Faleceu na Bahia, em 1697.
(rostos.pt, 14.2.08)
Esta mostra é constituída por alguns textos e imagens extraídos das obras do autor e livros existentes na Biblioteca. O Padre António Vieira foi um notável prosador e o mais conhecido orador religioso português. Um dos mais influentes personagens do séc. XVII em termos de política, destacando-se como missionário em terras brasileiras. Foi na qualidade de Missionário que defendeu os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização.
O Padre António Vieira defendeu também os Judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, e a abolição da escravatura. Criticou, ainda, severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Faleceu na Bahia, em 1697.
(rostos.pt, 14.2.08)
Padre António Vieira
Comemora-se os 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, influente personagem do Sec. XVI, politico, missionário, escritor e pregador. Dá-se relevo ao seu papel de jesuíta e são famosos os seus sermões. Grande defensor dos índios e judeus, numa época onde os índios ainda não eram considerados seres humanos, grande lutador contra a escravatura, foi sempre um grande dissidente da orientação geral. Esta dissidência trouxe-lhe grandes problemas com a Santa Inquisição tendo sido condenado pela mesma e proibido de pregar.
Tem-se de lhe reconhecer uma grande coragem, quer física quer intelectual, para defender posições que arrostavam com os poderes dominantes.
Como era possível alguém questionar as directrizes da Santa Igreja ?
Ainda por cima padre....
"Se os pequenos comerem os grandes, bastara um grande para muitos pequenos, mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande" . Não, não é uma alegoria aos tempos modernos e ao sistema ultra liberal em que vivemos. São palavras do seu "Sermão aos Peixes".
Ou será que são mesmo palavras actuais ? Estou confuso...
Se tivesse nascido há cerca de 30 anos estaria agora a lutar pelos direitos dos imigrantes e das minorias étnicas.
Estaria a lutar contra o centralismo e federalismo desta União Europeia que nos vai garroteando.
Estaria a lutar pelo direito ao trabalho.
Estaria a lutar por melhores condições de vida para todos os excluídos.
Estaria a lutar para que não tivéssemos que pagar para ter direito à saúde e educação. Estaria a lutar pelo direito a uma habitação condigna.
Estaria a lutar pelo direito de igualdade de oportunidades.
Estaria a lutar contra os grandes grupos económico-financeiros que vão sugando o pouco que os pobres têm.
Estaria a lutar contra as grandes empresas que estão desmatando as florestas amazónicas.
Estaria a lutar contra o analfabetismo e ileteracia.
Estaria a lutar contra a pobreza.
Estaria a lutar.... Tantas e tantas lutas a favor dos mais desfavorecidos.
400 anos passados e estaria novamente a pregar aos peixes....
(Paulo Cruz, 14.2.08 , "O Notícias da Trofa")
Tem-se de lhe reconhecer uma grande coragem, quer física quer intelectual, para defender posições que arrostavam com os poderes dominantes.
Como era possível alguém questionar as directrizes da Santa Igreja ?
Ainda por cima padre....
"Se os pequenos comerem os grandes, bastara um grande para muitos pequenos, mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande" . Não, não é uma alegoria aos tempos modernos e ao sistema ultra liberal em que vivemos. São palavras do seu "Sermão aos Peixes".
Ou será que são mesmo palavras actuais ? Estou confuso...
Se tivesse nascido há cerca de 30 anos estaria agora a lutar pelos direitos dos imigrantes e das minorias étnicas.
Estaria a lutar contra o centralismo e federalismo desta União Europeia que nos vai garroteando.
Estaria a lutar pelo direito ao trabalho.
Estaria a lutar por melhores condições de vida para todos os excluídos.
Estaria a lutar para que não tivéssemos que pagar para ter direito à saúde e educação. Estaria a lutar pelo direito a uma habitação condigna.
Estaria a lutar pelo direito de igualdade de oportunidades.
Estaria a lutar contra os grandes grupos económico-financeiros que vão sugando o pouco que os pobres têm.
Estaria a lutar contra as grandes empresas que estão desmatando as florestas amazónicas.
Estaria a lutar contra o analfabetismo e ileteracia.
Estaria a lutar contra a pobreza.
Estaria a lutar.... Tantas e tantas lutas a favor dos mais desfavorecidos.
400 anos passados e estaria novamente a pregar aos peixes....
(Paulo Cruz, 14.2.08 , "O Notícias da Trofa")
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
"O esclarecimento de Vieira"
A 6 de Fevereiro de 1608 nasceu, em Lisboa, António Vieira, que veio a ser missionário jesuíta, grande defensor dos índios e dos judeus, antiesclavagista, pregador da corte de Portugal, conselheiro do rei e embaixador político, mas o seu grande objectivo de vida pareceu ser o esclarecimento espiritual da Humanidade. Tendo vivido 89 anos, foi um dos maiores oradores do seu tempo, deixando cerca de 200 sermões, 700 cartas e outros escritos.
Vivendo na Baía desde os seis anos, contava apenas 15 quando, contra a vontade dos pais, entrou no noviciado jesuíta. Dada a sua inteligência superior e os seus dotes de oratória, aos 18 anos já era professor de Retórica no Colégio de Olinda, onde mais tarde foi lente de Teologia.
Até aos 32 anos, distinguiu-se como pregador no sertão baiano e em Salvador, defendendo sempre os mais desfavorecidos, assumindo interpretações pessoais de vários temas teológicos e mostrando uma certa tendência para uma visão profética. Viajando então para Lisboa, tornou-se num grande orador da Restauração portuguesa e dos cristãos-novos contra a Inquisição. Depois de ter sido encarregado de missões diplomáticas em França, Holanda e Itália, regressou ao Brasil com 45 anos, como superior dos missionários jesuítas, onde se distinguiu na cristianização dos índios e como antiesclavagista. Essa postura valeu-lhe a expulsão da então colónia, aos 53 anos, na companhia dos seus confrades.
Chegado à metrópole, foi interrogado, deportado para o Porto e para Coimbra, preso inicialmente no domicílio e depois em situação de incomunicabilidade, num lúgubre cubículo de reduzidas dimensões, sem luz e mal arejado. Aos 60 anos, Vieira foi libertado e iniciou uma luta pela supressão da Inquisição em Portugal.
Destacado para Roma, aí continuou essa luta nos sete anos seguintes, altura em que regressou a Lisboa, onde foi perdendo prestígio, o que o levou a voltar à Baía aos 73 anos. Aos 80, foi nomeado visitador da província do Brasil pelo responsável da Companhia de Jesus, na altura em que preparava a publicação dos seus "Sermões", o que foi acontecendo com sucesso. Seguiu-se a "História do futuro", que procurava ser uma previsão dos destinos de Portugal e do Mundo, mas que não chegou a acabar.
O Quinto Império - a "maravilha" da grande "mudança" a operar-se no "teatro" do mundo pelo "triunfo de Cristo" por acção dos portugueses - foi considerado por alguns um sonho enlouquecido e por outros o mito fundamental da sua visão profética relativa ao esclarecimento espiritual da Humanidade. E esse esclarecimento continuou e continua desejado por muitos outros, como Fernando Pessoa "No Quinto Império, haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria - ou seja, a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual, e o seu lado direito - ou seja, o conhecimento oculto, a intuição".
( Luís Portela, 13.2.08, "Jornal de Notícias" )
Vivendo na Baía desde os seis anos, contava apenas 15 quando, contra a vontade dos pais, entrou no noviciado jesuíta. Dada a sua inteligência superior e os seus dotes de oratória, aos 18 anos já era professor de Retórica no Colégio de Olinda, onde mais tarde foi lente de Teologia.
Até aos 32 anos, distinguiu-se como pregador no sertão baiano e em Salvador, defendendo sempre os mais desfavorecidos, assumindo interpretações pessoais de vários temas teológicos e mostrando uma certa tendência para uma visão profética. Viajando então para Lisboa, tornou-se num grande orador da Restauração portuguesa e dos cristãos-novos contra a Inquisição. Depois de ter sido encarregado de missões diplomáticas em França, Holanda e Itália, regressou ao Brasil com 45 anos, como superior dos missionários jesuítas, onde se distinguiu na cristianização dos índios e como antiesclavagista. Essa postura valeu-lhe a expulsão da então colónia, aos 53 anos, na companhia dos seus confrades.
Chegado à metrópole, foi interrogado, deportado para o Porto e para Coimbra, preso inicialmente no domicílio e depois em situação de incomunicabilidade, num lúgubre cubículo de reduzidas dimensões, sem luz e mal arejado. Aos 60 anos, Vieira foi libertado e iniciou uma luta pela supressão da Inquisição em Portugal.
Destacado para Roma, aí continuou essa luta nos sete anos seguintes, altura em que regressou a Lisboa, onde foi perdendo prestígio, o que o levou a voltar à Baía aos 73 anos. Aos 80, foi nomeado visitador da província do Brasil pelo responsável da Companhia de Jesus, na altura em que preparava a publicação dos seus "Sermões", o que foi acontecendo com sucesso. Seguiu-se a "História do futuro", que procurava ser uma previsão dos destinos de Portugal e do Mundo, mas que não chegou a acabar.
O Quinto Império - a "maravilha" da grande "mudança" a operar-se no "teatro" do mundo pelo "triunfo de Cristo" por acção dos portugueses - foi considerado por alguns um sonho enlouquecido e por outros o mito fundamental da sua visão profética relativa ao esclarecimento espiritual da Humanidade. E esse esclarecimento continuou e continua desejado por muitos outros, como Fernando Pessoa "No Quinto Império, haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria - ou seja, a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual, e o seu lado direito - ou seja, o conhecimento oculto, a intuição".
( Luís Portela, 13.2.08, "Jornal de Notícias" )
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Sessão sobre Vieira no Instituto Camões
Teve ontem lugar no Instituto Camões, em Brasília, uma sessão de divulgação da vida e obra do Padre António Vieira.
Na ocasião, foi feita uma apresentação pelo especialista "vieirino" Padre Aleixo, ilustrada pela leitura de textos de António Vieira, feita pelo embaixador Lauro Moreira, representante do Brasil junto da CPLP, e pelo Conselheiro Cultural da Embaixada, Adriano Jordão.
Na ocasião, foi feita uma apresentação pelo especialista "vieirino" Padre Aleixo, ilustrada pela leitura de textos de António Vieira, feita pelo embaixador Lauro Moreira, representante do Brasil junto da CPLP, e pelo Conselheiro Cultural da Embaixada, Adriano Jordão.
Coimbra e o Padre António Vieira
O Padre António Vieira (1608-1697) foi personalidade marcante do século XVII, tanto em Portugal como no Brasil. Fernando Pessoa apelidou-o, inclusivamente, de “Imperador da Língua Portuguesa”. Ao longo dos seus 89 anos de vida, atravessou inúmeras vezes o Oceano Atlântico e percorreu milhares de quilómetros em terras brasileiras. Missionário e diplomata, também considerado um percursor da defesa dos direitos humanos (bateu-se pela abolição da escravatura, combateu os métodos da Inquisição, defendeu por várias vezes judeus e cristãos novos), deixou uma obra literária composta por centenas de sermões e cartas, tratados proféticos e dezenas de escritos filosóficos, teológicos, espirituais, políticos e sociais.
As comemorações em curso do IV centenário do seu nascimento são, por tudo isso, merecidíssimas. Trata-se não só de homenagear um homem que participou activamente da história do seu tempo, mas igualmente um autor fundamental da nossa literatura. Obras como “Os Sermões”, em que revela toda a sua extraordinária veia de moralista e teólogo, ou as “Cartas” em que plasmou com enorme inspiração a actividade política que também foi desenvolvendo, designadamente no decurso do reinado de D. João IV, são efectivamente, ainda hoje, de estudo obrigatório em muitas universidades. Há quem o considere mesmo “o maior artista da língua portuguesa”.
As celebrações coincidem, de resto, praticamente, com a eleição do 29.º “Papa Negro”, como é conhecido o superior da Companhia de Jesus, fundada em 1540, pelo espanhol Santo Inácio de Loyola, e que, 468 anos depois, está presente em 127 países, o que a torna, inquestionavelmente, a mais poderosa ordem da Igreja Católica e aquela que, entre as congregações masculinas, detém o maior número de membros. São igualmente reputadas as escolas e universidades que gere, bem como as elites que promove entre os leigos. A hierarquia católica e os próprios políticos nem sempre viram com bons olhos o poder dos jesuítas, aliado à sua grande formação intelectual. Os “desentendimentos” com o Vaticano foram frequentes e, em Portugal, a Companhia foi duramente perseguida, no século XVIII, pelo Marquês de Pombal. Ainda assim, os hábitos negros dos jesuítas mantêm presença nos locais de maior perseguição aos católicos, como nos países islâmicos, China, Cuba e Vietname, prestando serviços nas áreas da educação e apoio social.
Coimbra tem sido madrasta para com aqueles que lhe ajudaram a fazer a história e a consolidar-lhe o imaginário no país e no mundo. Que a última vítima não seja, portanto, o padre António Vieira (até tem nome de rua na cidade), que para cá veio desterrado em 1663 e onde foi, segundo o professor Aníbal Pinto de Castro, “bastante enxovalhado”, ao ser obrigado a depor no Santo Ofício sobre a sua obra “Esperanças de Portugal” – e que, até agora, apenas mereceu um simples recital de órgão e uma pregação do “Sermão de Quarta-feira de Cinzas”. A Faculdade de Letras, sobretudo ela, não poderá ficar indiferente a uma efeméride que já mereceu, até, o alto patrocínio do Presidente da República.
(Soares Rebelo, 12.2.08, Diário "As Beiras" )
As comemorações em curso do IV centenário do seu nascimento são, por tudo isso, merecidíssimas. Trata-se não só de homenagear um homem que participou activamente da história do seu tempo, mas igualmente um autor fundamental da nossa literatura. Obras como “Os Sermões”, em que revela toda a sua extraordinária veia de moralista e teólogo, ou as “Cartas” em que plasmou com enorme inspiração a actividade política que também foi desenvolvendo, designadamente no decurso do reinado de D. João IV, são efectivamente, ainda hoje, de estudo obrigatório em muitas universidades. Há quem o considere mesmo “o maior artista da língua portuguesa”.
As celebrações coincidem, de resto, praticamente, com a eleição do 29.º “Papa Negro”, como é conhecido o superior da Companhia de Jesus, fundada em 1540, pelo espanhol Santo Inácio de Loyola, e que, 468 anos depois, está presente em 127 países, o que a torna, inquestionavelmente, a mais poderosa ordem da Igreja Católica e aquela que, entre as congregações masculinas, detém o maior número de membros. São igualmente reputadas as escolas e universidades que gere, bem como as elites que promove entre os leigos. A hierarquia católica e os próprios políticos nem sempre viram com bons olhos o poder dos jesuítas, aliado à sua grande formação intelectual. Os “desentendimentos” com o Vaticano foram frequentes e, em Portugal, a Companhia foi duramente perseguida, no século XVIII, pelo Marquês de Pombal. Ainda assim, os hábitos negros dos jesuítas mantêm presença nos locais de maior perseguição aos católicos, como nos países islâmicos, China, Cuba e Vietname, prestando serviços nas áreas da educação e apoio social.
Coimbra tem sido madrasta para com aqueles que lhe ajudaram a fazer a história e a consolidar-lhe o imaginário no país e no mundo. Que a última vítima não seja, portanto, o padre António Vieira (até tem nome de rua na cidade), que para cá veio desterrado em 1663 e onde foi, segundo o professor Aníbal Pinto de Castro, “bastante enxovalhado”, ao ser obrigado a depor no Santo Ofício sobre a sua obra “Esperanças de Portugal” – e que, até agora, apenas mereceu um simples recital de órgão e uma pregação do “Sermão de Quarta-feira de Cinzas”. A Faculdade de Letras, sobretudo ela, não poderá ficar indiferente a uma efeméride que já mereceu, até, o alto patrocínio do Presidente da República.
(Soares Rebelo, 12.2.08, Diário "As Beiras" )
sábado, 9 de fevereiro de 2008
A liberdade que animou Vieira
Foi a causa da liberdade, “este sentido de consciência crítica ao serviço do bem comum, que animou Vieira contra as animosidades do Estado e da própria Inquisição” – afirmou D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, no colóquio «Padre António Vieira – os mesmo desafios quatro séculos depois», realizado hoje, no Auditório do Colégio de S. João de Brito, em Lisboa.
Num painel sobre «O Serviço da Fé», o bispo auxiliar de Lisboa dividiu a sua conferência em três pontos: “Uma profunda espiritualidade – a fidelidade à Palavra de Deus”; “A coerência da acção - uma determinação política na defesa da justiça” e “A qualidade dos modos: a beleza das formas”. Na celebração da efeméride dos 400 anos de nascimento deste jesuíta, D. Carlos Azevedo sublinhou que “o cristão no poder, exercido no Estado ou na hierarquia da Igreja, é chamado a respeitar a liberdade dos outros e a colocar a sua ao serviço dos mais fracos e pobres”. E acrescenta: “O cristão tem um modo de dar significado à sua liberdade, alheio assim a qualquer corrupção, porque se oferece em serviço”.
Em relação ao actual afastamento da política e a crise da participação cívica, D. Carlos Azevedo realça que “as acusações de que todos os poderosos procuram os seus interesses, de que são todos iguais, os exemplos de corrupção, de terrorismo de Estado, do tráfico de influências, acabam por conduzir a aceitar passivamente a normalidade do imoral”.
Ao falar do lado estético do Pe. António Vieira, o conferencista salienta que “Vieira não serviu apenas a Palavra fazendo-a incidir com vivacidade sobre as situações reais do seu tempo, não só se disponibilizou para dar passos políticos no sentido da relação e do respeito entre povos e culturas, mas aliou a este serviço da fé uma graça, um encanto formal que é lição permanente para hoje”. E finaliza: “a sua persuasão não seria tão fecunda sem o entusiasmo estético. O estilo não obscurecia a mensagem. Oferecia-lhe limpidez de enlevo, sedutor das mentes, graças ao fulgor da inteligência, comunicada em arquitectura sonora”.
( Luís Filipe Santos na Agência Ecclesia)
Num painel sobre «O Serviço da Fé», o bispo auxiliar de Lisboa dividiu a sua conferência em três pontos: “Uma profunda espiritualidade – a fidelidade à Palavra de Deus”; “A coerência da acção - uma determinação política na defesa da justiça” e “A qualidade dos modos: a beleza das formas”. Na celebração da efeméride dos 400 anos de nascimento deste jesuíta, D. Carlos Azevedo sublinhou que “o cristão no poder, exercido no Estado ou na hierarquia da Igreja, é chamado a respeitar a liberdade dos outros e a colocar a sua ao serviço dos mais fracos e pobres”. E acrescenta: “O cristão tem um modo de dar significado à sua liberdade, alheio assim a qualquer corrupção, porque se oferece em serviço”.
Em relação ao actual afastamento da política e a crise da participação cívica, D. Carlos Azevedo realça que “as acusações de que todos os poderosos procuram os seus interesses, de que são todos iguais, os exemplos de corrupção, de terrorismo de Estado, do tráfico de influências, acabam por conduzir a aceitar passivamente a normalidade do imoral”.
Ao falar do lado estético do Pe. António Vieira, o conferencista salienta que “Vieira não serviu apenas a Palavra fazendo-a incidir com vivacidade sobre as situações reais do seu tempo, não só se disponibilizou para dar passos políticos no sentido da relação e do respeito entre povos e culturas, mas aliou a este serviço da fé uma graça, um encanto formal que é lição permanente para hoje”. E finaliza: “a sua persuasão não seria tão fecunda sem o entusiasmo estético. O estilo não obscurecia a mensagem. Oferecia-lhe limpidez de enlevo, sedutor das mentes, graças ao fulgor da inteligência, comunicada em arquitectura sonora”.
( Luís Filipe Santos na Agência Ecclesia)
Congresso em Roma sobre António Vieira
Roma, 09 fev (RV) – Na última quarta-feira, dia 6, foi recordado o IV Centenário do nascimento de Padre António Vieira. Jesuíta, missionário e diplomata, ele entrou para os anais da história portuguesa e brasileira como um grande prosador e defensor dos direitos humanos.
Padre António Vieira deixou uma obra literária composta de 200 sermões, 700 cartas, tratados proféticos e dezenas de escritos filosóficos, teológicos, espirituais, políticos e sociais.
Foi um incansável defensor dos direitos humanos dos povos indígenas, e combateu a exploração e escravização dos mesmos. Era chamado por eles de "Paiaçu" (Grande Pai, em língua tupi).
Padre António Vieira defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos na época pela Inquisição) e cristãos-antigos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda e severamente, os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição.
Para recordar os quatro séculos de seu nascimento, a Universidade "La Sapienza", de Roma, organizou um congresso, com a participação de estudiosos e professores brasileiros, portugueses e italianos.
Entre eles, está a professora Sonia Salomão, que ensina cultura e língua brasileiras na "La Sapienza". Ela nos fala da atualidade de Padre Antonio Vieira.
( Rádio Vaticano 9.2.08)
Padre António Vieira deixou uma obra literária composta de 200 sermões, 700 cartas, tratados proféticos e dezenas de escritos filosóficos, teológicos, espirituais, políticos e sociais.
Foi um incansável defensor dos direitos humanos dos povos indígenas, e combateu a exploração e escravização dos mesmos. Era chamado por eles de "Paiaçu" (Grande Pai, em língua tupi).
Padre António Vieira defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos na época pela Inquisição) e cristãos-antigos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda e severamente, os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição.
Para recordar os quatro séculos de seu nascimento, a Universidade "La Sapienza", de Roma, organizou um congresso, com a participação de estudiosos e professores brasileiros, portugueses e italianos.
Entre eles, está a professora Sonia Salomão, que ensina cultura e língua brasileiras na "La Sapienza". Ela nos fala da atualidade de Padre Antonio Vieira.
( Rádio Vaticano 9.2.08)
Encontros com Vieira
“Encontros com o Padre António Vieira”, é o tema do curso que se inicia já a partir de 11 de Fevereiro e que decorrerá às segundas-feiras, das 21h às 23h, no Seminário de Leiria. As inscrições fazem-se na Secretaria do CFC, ou pelo site.
“Missionário incansável, um dos grandes objectivos da sua vida foi levar o evangelho a todos os povos do mundo”, salienta a organização. Esta formação pretende evocar a vida e a obra de uma figura ímpar da cultura portuguesa e brasileira.
(Fátima Missionária 9.2.08)
“Missionário incansável, um dos grandes objectivos da sua vida foi levar o evangelho a todos os povos do mundo”, salienta a organização. Esta formação pretende evocar a vida e a obra de uma figura ímpar da cultura portuguesa e brasileira.
(Fátima Missionária 9.2.08)
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
A arte de interpretar para persuadir
Nas muitas artes que o Pe. António Vieira praticou, deparamos sempre com a presença de um modus operandi que consiste em interpretar para persuadir. Ocupe-se ele de pregação, de profetismo, de história, de apologética, e veremos, em todos esses casos, que os textos, acontecimentos, coisas e pessoas aí abordados encerram mais valor e sentido do que o imediato valor e sentido que parece decorrer da respectiva realidade empírica.
Assim acontece porque existem como entidades pregnantes, em relação às quais não há, nem pode haver, uma compreensão unívoca, definitiva e exclusiva. A fixidez e permanência de tais entidades, ao permitir que as tomemos como referentes, também nos habilita a mantê-las disponíveis para múltiplas dimensões de valor e de sentido de que são portadoras. Ora, o acto de delimitar nessa dimensão significativa plural o maior número possível de constituintes semânticos é tarefa que compete à arte da interpretação. E Vieira soube ser sempre um intérprete diligente.
O modo de interpretar por ele seguido obedece a regras e critérios muito antigos, compendiados outrora pelo dominicano Agostinho de Dácia (séc. XIII), em dístico que refere os quatro sentidos da exegese medieval, nestes termos: “A letra ensina os feitos, o que crês a alegoria, / A moral o que deves fazer, para onde te inclinas a anagogia.”1 Ficamos, pois, a saber que a Palavra de Deus, tal como está impressa nos livros do Velho e do Novo Testamento, além do sentido literal, dispõe igualmente dos sentidos alegórico, moral ou tropológico, anagógico ou místico.
Esta maneira de ler os textos sagrados apresenta, em Vieira, algumas aplicações surpreendentes. O que, desde os Padres da Igreja, foi sendo elaborado como método de interpretação bíblica serve ao pregador jesuíta para ler e interpretar os elementos da própria natureza e os acontecimentos da história. Além disso, junta à Revelação feita por Deus e guardada nos Livros Sagrados o ensino e interpelação que o mesmo Deus, na sua Providência, vai transmitindo aos homens, através de acontecimentos da mais variada espécie.
Baseado nestes princípios, Vieira tanto estende o procedimento interpretativo dos quatro sentidos às coisas da natureza e às peripécias da história profana, elevadas ambas ao estatuto de textos, como envolve na dinâmica da economia da salvação realidades do mundo natural e social que dela parecem distantes. Este alargamento do campo da interpretação obedece a um propósito claro e imperativo: persuadir ouvintes e leitores das consequências práticas da fé.
É preciso não perder de vista que Vieira se assume permanentemente como quem está em missão. Esta missão, mesmo nos episódios em que parece andar demasiado imiscuída em negócios humanos, subordina-se sempre ao desígnio supremo de quem sabe, como Vieira, que a sua vocação é servir a realização do Reino de Deus.
Compreende-se assim que a retórica tenha sido instrumento, nunca um fim, usado com inexcedível perícia, tendo em vista argumentar, aduzir provas, persuadir. Contemporâneo de Descartes (1596-1660) e de Baltasar Gracián (1584-1658), deles se distingue profundamente quanto ao método e quanto à arte de argumentar. Ao critério da evidência racional e dos juízos nele fundados, prefere Vieira as certezas da fé e da esperança a cuja luz interpreta os acontecimentos passados e presentes e neles descobre o sentido de coisas futuras, deste modo consagrando a história como verdadeiro sacramentum futuri (sinal sagrado do futuro).
Embora compartilhe com Gracián os processos do discurso engenhoso, dele diverge quanto à finalidade para a qual os utiliza. Mais do que exercício de estética, a subtileza dos conceitos e a sua organização discursiva pretende inculcar verdades e levá-las à prática na vida dos indivíduos e dos povos. Se os conceitos são em Gracián palavras belas que deleitam, em Vieira são, antes de mais, palavras que ensinam, transformam e querem operar a conversão.
Critica com desassombro, no sermão da Sexagésima (1655), o estilo culto e as agudezas a que se entregavam vários pregadores do seu tempo que mais lhe pareciam actores de comédia ou de farsa do que semeadores da palavra de Deus. Tenta, por outro lado, traçar as linhas mestras de uma arte de pregar em que as Escrituras não devem andar mal interpretadas nem Deus ser traído por aqueles mesmos que se apresentam e falam em seu nome.
Digamos que a retórica utilizada com mestria pelo pregador jesuíta quis servir, acima de tudo, o sentido pleno dos textos e da vida. Soube promovê-lo na dupla acepção que o sentido tem, isto é, como manifestação de inteligibilidade e como factor de orientação e direcção. Como manifestação de inteligibilidade, os textos, ao serem lidos e relidos, revelam-se manancial inesgotável de saber e de verdade; como factor de orientação e direcção, a história e a existência humana adquirem o rumo que as faz alinhar pela esperança na consumação final do Reino de Cristo.
(1) “Littera gesta docet, quid credas allegoria, / Moralis quid agas, quo tendas anagogia.” Cit. por Henri de Lubac, Exégèse Médiévale Les quatre sens de l’Écriture. I. Paris, Aubier, 1959, p. 23
Assim acontece porque existem como entidades pregnantes, em relação às quais não há, nem pode haver, uma compreensão unívoca, definitiva e exclusiva. A fixidez e permanência de tais entidades, ao permitir que as tomemos como referentes, também nos habilita a mantê-las disponíveis para múltiplas dimensões de valor e de sentido de que são portadoras. Ora, o acto de delimitar nessa dimensão significativa plural o maior número possível de constituintes semânticos é tarefa que compete à arte da interpretação. E Vieira soube ser sempre um intérprete diligente.
O modo de interpretar por ele seguido obedece a regras e critérios muito antigos, compendiados outrora pelo dominicano Agostinho de Dácia (séc. XIII), em dístico que refere os quatro sentidos da exegese medieval, nestes termos: “A letra ensina os feitos, o que crês a alegoria, / A moral o que deves fazer, para onde te inclinas a anagogia.”1 Ficamos, pois, a saber que a Palavra de Deus, tal como está impressa nos livros do Velho e do Novo Testamento, além do sentido literal, dispõe igualmente dos sentidos alegórico, moral ou tropológico, anagógico ou místico.
Esta maneira de ler os textos sagrados apresenta, em Vieira, algumas aplicações surpreendentes. O que, desde os Padres da Igreja, foi sendo elaborado como método de interpretação bíblica serve ao pregador jesuíta para ler e interpretar os elementos da própria natureza e os acontecimentos da história. Além disso, junta à Revelação feita por Deus e guardada nos Livros Sagrados o ensino e interpelação que o mesmo Deus, na sua Providência, vai transmitindo aos homens, através de acontecimentos da mais variada espécie.
Baseado nestes princípios, Vieira tanto estende o procedimento interpretativo dos quatro sentidos às coisas da natureza e às peripécias da história profana, elevadas ambas ao estatuto de textos, como envolve na dinâmica da economia da salvação realidades do mundo natural e social que dela parecem distantes. Este alargamento do campo da interpretação obedece a um propósito claro e imperativo: persuadir ouvintes e leitores das consequências práticas da fé.
É preciso não perder de vista que Vieira se assume permanentemente como quem está em missão. Esta missão, mesmo nos episódios em que parece andar demasiado imiscuída em negócios humanos, subordina-se sempre ao desígnio supremo de quem sabe, como Vieira, que a sua vocação é servir a realização do Reino de Deus.
Compreende-se assim que a retórica tenha sido instrumento, nunca um fim, usado com inexcedível perícia, tendo em vista argumentar, aduzir provas, persuadir. Contemporâneo de Descartes (1596-1660) e de Baltasar Gracián (1584-1658), deles se distingue profundamente quanto ao método e quanto à arte de argumentar. Ao critério da evidência racional e dos juízos nele fundados, prefere Vieira as certezas da fé e da esperança a cuja luz interpreta os acontecimentos passados e presentes e neles descobre o sentido de coisas futuras, deste modo consagrando a história como verdadeiro sacramentum futuri (sinal sagrado do futuro).
Embora compartilhe com Gracián os processos do discurso engenhoso, dele diverge quanto à finalidade para a qual os utiliza. Mais do que exercício de estética, a subtileza dos conceitos e a sua organização discursiva pretende inculcar verdades e levá-las à prática na vida dos indivíduos e dos povos. Se os conceitos são em Gracián palavras belas que deleitam, em Vieira são, antes de mais, palavras que ensinam, transformam e querem operar a conversão.
Critica com desassombro, no sermão da Sexagésima (1655), o estilo culto e as agudezas a que se entregavam vários pregadores do seu tempo que mais lhe pareciam actores de comédia ou de farsa do que semeadores da palavra de Deus. Tenta, por outro lado, traçar as linhas mestras de uma arte de pregar em que as Escrituras não devem andar mal interpretadas nem Deus ser traído por aqueles mesmos que se apresentam e falam em seu nome.
Digamos que a retórica utilizada com mestria pelo pregador jesuíta quis servir, acima de tudo, o sentido pleno dos textos e da vida. Soube promovê-lo na dupla acepção que o sentido tem, isto é, como manifestação de inteligibilidade e como factor de orientação e direcção. Como manifestação de inteligibilidade, os textos, ao serem lidos e relidos, revelam-se manancial inesgotável de saber e de verdade; como factor de orientação e direcção, a história e a existência humana adquirem o rumo que as faz alinhar pela esperança na consumação final do Reino de Cristo.
(1) “Littera gesta docet, quid credas allegoria, / Moralis quid agas, quo tendas anagogia.” Cit. por Henri de Lubac, Exégèse Médiévale Les quatre sens de l’Écriture. I. Paris, Aubier, 1959, p. 23
(LUIS MACHADO DE ABREU, Universidade de Aveiro, na AGÊNCIA ECCLESIA)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
