O que há de grande na vida e obra do Padre António Vieira é a harmonia do cristão, pregador e missionário, do português, patriota e combatente, do homem, humanista e lutador pela dignidade dos outros homens. Uma harmonia entre o explorador da Amazónia, o mensageiro secreto e discreto do rei, humanista de grande saber e de voz profética, orador e estilista ímpar. É o lutador do pensamento, o visionário realista destes quase 90 anos passados numa e noutra margem do Atlântico, dos faustos da Roma barroca dos papas aos sertões da Baía, da companhia dos grandes da política europeia aos míseros índios do Maranhão, entre o favor dos reis e a perseguição dos grandes. No Brasil português, Vieira bateu-se pela dignidade dos índios, defendendo-os contra as injustiças e opressão, ao mesmo tempo que procurava para eles a protecção da Coroa, o que lhe valeu a fúria dos colonos. Deste tempo e circunstância data o mais célebre dos seus sermões, o Sermão de Santo António aos Peixes. Também neste tempo brasileiro ele explorou a bacia do Amazonas, viajando milhares de quilómetros rio acima, embrenhando-se pelo Tocatins e pelo Madeira, e nessas paragens terá redigido o Quinto Império do Mundo, Esperanças de Portugal.
Esta actividade no terreno não o impede, porém, de dar largas a uma outra das suas facetas: a de conceber grandes projectos estratégicos para Portugal, tais como o de conseguir o retorno ao reino dos cristãos-novos emigrados na Europa e dos seus capitais, a troco da liberdade religiosa; e a concepção de uma grande companhia multinacional de comércio e navegação, para o Brasil e o Oriente, à semelhança das companhias majestáticas holandesas. Entretanto, a maioria destes projectos malogrou-se, pois Vieira, como outros portugueses de excepção, teve dificuldade em ser entendido pelos poderosos do seu tempo e gerou, bem pelo contrário, um cortejo de invejas, de calúnias, de intrigas, de golpes baixos.
Quatrocentos anos depois do seu nascimento, o que ainda impressiona na pessoa, na vida e na obra do Padre António Vieira é precisamente esta "harmonia da discordância" das actividades, a extraordinária qualidade do trabalho desenvolvido em áreas tão diversas, em ambientes tão distantes, em "províncias do saber" tão variadas, em terras e gentes tão remotas. E sempre fiel ao seu Deus e à sua Pátria, aos seus ideais católicos e portugueses, sem parar por isso de interrogar o tempo e os seus modos, o passado, o presente e o futuro. E que espantosa modernidade, assente num profundo conhecimento da natureza humana, das suas limitações e grandezas, expressa de forma ímpar no sermão Pelo Bom Sucesso das Nossas Armas: "A mais perigosa consequência da guerra e a que mais se deve recear nas batalhas, é a opinião. Na perda de uma batalha arrisca-se um exército; na perda da opinião arrisca-se um reino. Salomão, o Rei mais sábio, dizia que 'o melhor era o bom nome, que o óleo com que se ungiam os reis'; porque a unção pode dar reinos, a opinião pode tirá-los.
"Vieira era, por tudo isto, um visionário genial. Tendo lutado por um poder português no mundo, assente nos factores materiais do poder - nas armas, nas armadas, nas fortalezas -, procurando consequentemente o dinheiro e negócios necessários para os manter, ele viu também que o destino de Portugal era o de poder vir a ser um Quinto Império: um Império de "mil e muitos anos", uma utopia político-social, sem limite e sem distância, para chegar ao futuro, depois de cumpridos e acabados todos os impérios - inclusive o império português! Seria esse império do futuro a luta que ele travou contra o preconceito racial e esclavagista que expulsara o cristão-novo e oprimia o índio brasileiro? Talvez. Mas, de qualquer modo, um genial profetismo este, nos meados do século XVII, um padre jesuíta que pensa uma companhia transnacional para responder à globalização dos mercados e dos interesses, que prega a grande unidade e dignidade universais das criaturas do Reino de Deus neste mundo, e que a tudo isto dá um sentido cristão e português.
(MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO, "DIÁRIO DE NOTÍCIAS", 27.3.08)
quarta-feira, 26 de março de 2008
O dia da Paixão
Neste ano, meu artigo de Sexta-Feira da Paixão corresponde aos 400 anos do nascimento do Padre Antonio Vieira, a quem Fernando Pessoa chamou de imperador da língua portuguesa. Vieira sobreviveu quatro séculos e continuará vivo porque não foi somente o pregador, o divulgador da fé, o evangelizador dos índios e o inconformado com todos os tipos de escravidão humana. Foi um humanista e um grande escritor. E, como escritor, vive na eternidade de grande pensador. Fazem parte dos seus grandes sermões os quaresmais. Ele não se continha no relembrar os fatos litúrgicos da Paixão, os episódios que levaram à crucificação, mas enfrentava os sentimentos maiores contidos na visão cristã da morte pelos homens do filho de Deus. Tomemos por exemplo o ‘Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma’ de 1644. Não é um convite ao recolhimento, é a proposta de meditar sobre um tema difícil e sempre dentro de nós: amor e ódio. O mais difícil de todos os ensinamentos de Cristo, que é aquele que manda ‘amar vossos inimigos’ (‘Diligite inimicos vestros’, Mt. 5). Esse preceito é ‘o mais rigoroso da lei evangélica’, sustentavam santo Agostinho e são Jerônimo. ‘Repugnante à natureza humana’, e sobre esta natureza devia ser a meditação de todo o tempo dos 40 dias da Quaresma, que comparava aos 40 dias do dilúvio. ‘Neste chovia água, naquele, misericórdia’. A chave de cumprir aquele princípio está em Sêneca: 'Se queres ser amado, ama' ('Si vis amari, ama'). A Quaresma, para Vieira, é tempo de ‘desenganos’, em que se tem o exemplo do ‘destino da existência humana’. Começa com cinzas, a lembrar que somos pó e ao pó retornaremos, em seguida vem o sacrifício de jejum, a cobertura dos altares, para que nem os santos vejam essa ‘semana penosa’, na expressão de são Bernardo, mas a semana maior do calendário da igreja. E nos propõe meditar sobre ‘quem padece, o que padece, por quem padece’. Com Alçada Batista, grande escritor português, numa Semana Santa em Lisboa, discutíamos sobre a fé, o difícil espaço das religiões nos dias atuais, e ele me resumiu todo o simbolismo da Sexta-Feira da Paixão: ‘Só há uma maneira de afastarmos todas as dúvidas: é saber que ela traz um mistério e os mistérios não são revelados. Acreditar sem indagações’. Eu acrescentaria a chave de nossa fé, que seria vã, na expressão de são Paulo, se não fosse a ressurreição. ‘Sem ressurreição, não há cristianismo’. E aqui vai o meu sermão com o mesmo Deus da minha infância, da minha juventude, da minha maturidade, da minha velhice, que um dia me cobrará: ‘José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas?’.
(DIÁRIO DO AMAZONAS, 26.3.08)
(DIÁRIO DO AMAZONAS, 26.3.08)
quarta-feira, 19 de março de 2008
Padre Antônio Vieira 400 anos
Na sessão solene na Câmara Municipal de Salvador, no dia 11.03.2008, em homenagem ao IV Centenário de nascimento do Pe. Antônio VieiraO menino Antônio Vieira chegou à Cidade da Bahia nos idos de 1614, vindo de Lisboa, com a família. Tinha seis anos de idade. As ruas desta cidade, então capital da Colônia, testemunharam a trajetória do menino que morava nos arredores do Mosteiro de São Bento e freqüentava as aulas do Colégio do Jesuítas, no Terreiro de Jesus. O Paço Municipal, este edifício em que nos encontramos agora, ficava bem no meio do trajeto que o pequeno Antônio fazia todos os dias até à escola. Esta cidade viu aquele menino crescer “em idade, sabedoria e graça”, até se tornar o gigante que atravessou o séc. XVII, deixando a sua marca definitiva na nossa história. O jovem que aos 15 anos, escolhendo servir à maior glória de Deus, desafiou o mundo – disse não ao próprio pai que queria vê-lo noutra posição, noutra carreira - para se tornar jesuíta, amadureceu no confronto com a dura realidade do seu tempo.
Tendo recebido toda a sua formação acadêmica aqui, no Colégio dos Jesuítas da Bahia, tornou-se o maior autor de língua portuguesa do século XVII, um dos mais celebrados oradores sacros de todos os tempos.
Para se ter uma idéia do – digamos – magnetismo de sua oratória, vejamos a descrição que faz um de seus biógrafos, o padre André de Barros: “Correu fama e antes de repontar o dia, começou a ocupar-se o largo terreiro adjacente ao Colégio. Via-se das janelas a multidão e prevendo-se as conseqüências dela, celebraram-se as missas a portas fechadas. Mas, logo que se abriram e entrou a imensa turba, viu-se tomado o amplíssimo espaço, impedindo só o respeito o não subirem também aos altares. Chegadas as horas de sair a missa solene para o altar-mor, como era grande a multidão de gente, foi dificultoso o passarem com decência os celebrantes, não sendo menor depois a dificuldade para chegar ao púlpito o esperado orador.”.
Podemos nos perguntar: Qual a relevância da palavra do Pe. Antônio Vieira para os dias de hoje? O que a vida e a obra de um jesuíta que viveu 400 anos atrás pode nos inspirar? Sugiro que escutemos o próprio Antônio Vieira.
Sobre a pretensão de nobreza, de prestígio, da honra vã do mundo, ele diz: “A verdadeira fidalguia é a ação... Cada um é as suas ações, e não outra coisa... Quando vos perguntarem quem sois vós, não vades revolver o nobiliário de vossos avós, ide ver a matrícula de vossas ações... O que fazeis, isso sois, nada mais.”
A igualdade de todos perante Deus é matéria de reflexão de Vieira: “A lei de Cristo é uma lei que se estende a todos, com igualdade, e que obriga a todos sem privilégio: ao grande e ao pequeno: ao alto e ao baixo: ao rico e ao pobre: a todos mede pela mesma medida”, diz o Pe. Vieira no Sermão de Santo Antonio.
Sobre a escravização dos índios, causa que consumiu não poucos anos de sua longa e atribulada vida de missionário, junto com os seus companheiros jesuítas pelos sertões do Brasil, faz a seguinte reflexão: “Não posso, porém, negar que todos nesta parte, e eu em primeiro lugar, somos muito culpados... porque devendo defender os gentios que trazemos a Cristo... acomodando-nos à fraqueza do nosso poder e à força do alheio, cedemos da sua justiça, e faltamos à sua defesa...à força de persuasões e promessas (que se lhes não guardam) os arrancamos das suas terras, trazendo as povoações inteiras a viver ou morrer junto das nossas...não só não lhes defendemos a liberdade, mas pactuamos com eles e por eles, como seus curadores, que sejam meio cativos, obrigando-os a servir alternadamente a metade do ano” (Sermão da Epifania, l662).
A escravidão negra, ferida ainda aberta na nossa consciência de povo brasileiro, foi também tema de suas exortações. Em um dos Sermões do Rosário, compara os escravos negros ao próprio Cristo. Ele diz: “Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado: porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão... Cristo despido, e vós despidos: Cristo sem comer, e vós famintos: Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo.” Falando da crueldade dos senhores de engenho no trato com os escravos: “Eles mandam e vós servis; eles dormem e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos... Não há trabalhos mais doces que o das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como abelhas... as abelhas fabricam o mel, sim; mas não para si.” Em outro texto, Vieira convida a uma reflexão a respeito da dignidade dos negros, filhos de Deus e herdeiros do Cristo: “Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Não há escravo no Brasil, e mais quando vejo os mais miseráveis, que não seja para mim matéria de profunda meditação... Comparo o presente com o futuro, o tempo com a Eternidade, o que vejo com o que creio, e não posso entender que Deus, que criou estes homens tanto à sua imagem e semelhança, como os demais, os predestinasse para doces infernos, um nesta vida, outro na outra.”
Condena o luxo e a riqueza dos abastados de seu tempo, em contraste com o sofrimento dos pobres: “Se as galas, as jóias e as baixelas ... foram adquiridas com tanta injustiça e crueldade, que o ouro e a prata derretidos, e as sedas se se espremeram, haviam de verter sangue; como se há-de ver a fé nessa falsa riqueza? Se as vossas paredes estão vestidas de preciosas tapeçarias, e os miseráveis a quem despistes para as vestir a elas, estão nus e morrendo de frio; como se há-de ver a fé, nem pintadas nas vossas paredes?” (Sermão da Quinta Dominga da Quaresma)
A corrupção dos governantes, mal secular que envergonha nossa civilização, é motivo também da denúncia do jesuíta profeta. No Sermão do Bom ladrão, ele diz: “O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam”.
Sobre o Brasil e a Bahia, e a ganância dos que exploravam as riquezas desta terra, diz Vieira no final do Sermão da Visitação: “quero acabar este sermão com uma profecia alegre...e é que desta vez se há de restaurar o Brasil... Muitos transes... tens padecido, desgraciado Brasil, muitos te desfizeram para se fazerem, muitos edificam palácios com os pedaços de tuas ruínas, muitos comem o seu pão ou o pão não seu com o suor do teu rosto; eles ricos, tu pobre; eles salvos, tu em perigo; eles por ti vivendo em prosperidade, tu por eles a risco de expirar. Mas agora alegra-te, anima-te, torna em ti, e dá graças a Deus, que já por mercê sua estamos em tempo que se concorrermos com o nosso suor, há de ser para a nossa saúde.” ... “Anime-se, pois, a fidelidade e liberalidade deste povo a se socorrer e ajudar nesta causa tão justa e tão sua, estando mui certo e seguro que se der o suor, se der o sangue, não há de ser para que outros vivam e triunfem, senão para que nós vivamos e triunfemos de nossos inimigos. Tudo o que der a Bahia, para a Bahia há de ser; tudo o que se tirar do Brasil, com o Brasil se há de gastar.”
A palavra do Pe. Antônio Vieira, lapidada em meio aos conflitos políticos e religiosos da Colônia e da Metrópole no século XVII, ecoa hoje profética, denunciando os nossos pecados como nação, como Igreja, como povo. E anuncia a redenção dos que preferem trilhar o caminho apontado por Jesus no seu Evangelho: o caminho da caridade, da ética, da solidariedade com os empobrecidos, da promoção da justiça que a própria fé exige. O caminho da retidão do coração, da consciência limpa.
Homens e mulheres do século XXI, se quisermos de fato encarar os males de nosso mundo, de nosso país, de nossa cidade, com o olhar crítico, com a visão limpa e o desejo de escrever a “história do nosso presente e do nosso futuro”, olhemos o exemplo deste homem que nos precedeu no limiar de nossa história enquanto nação.
A palavra – eterna! – de Vieira atravessa os séculos. E hoje é fonte de inspiração a todos nós, que desejamos construir um mundo mais humano, mais bonito, onde o ser humano possa brilhar, como a glória de Deus!
Pe. Miguel de Oliveira Martins Filho sj
Padre jesuíta, assistente da Direção,
Professor e Orientador Espiritual
no Colégio Antônio Vieira.
miguel@jesuitas.org.br
Vieira em Salvador
Dois eventos marcam a abertura das comemorações do IV Centenário em SalvadorMúsica Barroca para celebrar o IV Centenário de Antônio Vieira
O Colégio Antônio Vieira, dos Jesuítas da Província Brasil Nordeste da Companhia de Jesus, abriu as comemorações do IV Centenário de nascimento de seu patrono na capital da Bahia, com um concerto solene de música barroca na Catedral Basílica de Salvador, no domingo, dia 09 de março (na imagem) . Sob a regência do maestro alemão Hans Bönisch, mestre de Capela da Catedral, o Coro e Orquestra Barroco na Bahia apresentou peças de Govanni Baptista Pergolesi (“Stabat Mater”), Antonio Vivaldi (”Beatus Vir”), e Johann Sebastian Bach (“Meinen Jesum Iass ich nicht – BWV 124”), com a participação das solistas Cyrene Paparotti, Anatália Jatobá Neta e Isabelle Aguiar. A Catedral Basílica é a antiga Igreja do Colégio dos jesuítas da Bahia, uma belíssima expressão do barroco jesuítico, palco da vida do Pe. Antônio Vieira no século XVII.
Sessão solene na Câmara Municipal de Salvador
A Câmara Municipal de Salvador promoveu uma sessão solene para marcar o IV Centenário de nascimento do Pe. Antônio Vieira e o aniversário de 97 anos do Colégio que leva seu nome. A sessão especial foi proposta pelo Vereador Silvoney Sales, e contou com a presença de alunos, professores, funcionários e jesuítas do Colégio Antônio Vieira, instituição educativa da Província Brasil Nordeste da Companhia de Jesus, que conta hoje com 4.500 alunos. O Pe. Domingos Mianulli, diretor do Colégio, lembrou no seu discurso as motivações que levaram os jesuítas portugueses a escolherem o nome do Pe. Antônio Vieira como patrono do colégio que fundaram em Salvador no dia 15 de março de 1911, ano do retorno dos jesuítas ao nordeste brasileiro, muitos anos depois da sua expulsão, no final do século XVIII.
Ver no post seguinte a imagem dessa sessão e a intervenção nela proferida
segunda-feira, 17 de março de 2008
Cruzeiro nas rotas de Vieira
Terminou, no início deste mês de Março, a viagem pela rota marítima que o Padre António Vieira traçou, há quatro séculos, e que o Cruzeiro Histórico Identidade e Cidadania (CHIC) percorreu ao longo de aproximadamente um ano. A expedição marítima está integrada no projecto “ICIPAV.2008 – Identidade e Cidadania: Padre António Vieira 2008”, em associação com o Mestrado em Ciências da Educação, ministrado pelo Departamento de Ciências da Educação da Universidade de Aveiro (UA).
A coordenação do projecto, a cargo Abreu Freire, faz parte da programação comemorativa do Ano Vieirino (os 400 anos do nascimento de António Vieira foram assinalados a 6 de Fevereiro). Tal como recorda a UA em comunicado, o CHIC largou, a 17 de Março de 2007, de Aveiro em direcção aos caminhos marítimo percorridos por António Vieira, um dos maiores escritores de língua portuguesa.
Numa primeira fase, com quatro tripulantes a bordo, o CHIC atravessou o Atlântico rumo ao Brasil. A 21 de Março chegou à ilha da Madeira e, a 1 de Abril, a Cabo Verde de onde partiu, a 12, para atravessar a linha do Equador (21 de Abril). A chegada a São Salvador da Bahia deu-se a 30 desse mês, 43 dias depois de abandonar Aveiro.
A segunda fase da jornada reconstituiu o percurso de Vieira no Brasil (Recife, 27 de Julho, Ceará, 18 de Agosto e 16 dias depois, Camocim. A viagem prosseguiu por São Luís do Maranhão e Belém do Pará).A viagem foi registada por dois tripulantes, profissionais do audiovisual, para edição breve em formato de cinema, televisão e multimédia. No blogue do projecto, Abreu Freire descreveu os passos do CHIC, construindo o “Dário de Bordo”.
Em http://www.ua.pt/vieira2008/ pode ler-se “A viagem de regresso começou a 30 de Outubro, fazendo escala em diversas ilhas das Caraíbas. Martinique a 10 de Novembro, Guadeloupe no dia 20, Barbuda e Antígua nos dias seguintes. Em Saint Martin, alguns dias de reparações e largada a 6 de Dezembro. Uma violenta tempestade tropical fez “capotar" o CHIC e obrigou a uma nova paragem forçada em Hamilton nas Bermudas. Depois de escalar nos Açores, chegou a Oeiras, de onde o padre António Vieira partia no seu tempo. Mais uma paragem em Peniche e regressou às águas calmas da Ria de Aveiro, completando quase um ano de viagem pelas rotas de Vieira”.
Apesar de todos os contratempos vividos durante o ano de navegação, o veleiro CHIC espalhou, com êxito, a palavra de António Vieira pelo Atlântico. É desta forma que o mentor do projecto sintetiza a experiência: “Pelo longo roteiro desta viagem encontrámos paisagens deslumbrantes, no mar como na terra, florestas e desertos, (…) grandes cidades e aldeias remotas, e sobretudo seres humanos maravilhosos com quem partilhámos as nossas paixões e o nosso vinho. Valeu a pena percorrer estes espaços de um dos maiores portugueses de sempre, para melhor entendermos a sua mensagem, para dar a conhecer a todos quantos hoje se apaixonam pela nossa língua a grandeza inimitável do seu poder de crítica construtiva, do seu patriotismo, da sua visão optimista de um futuro grandioso para todos os que falam português, o que tarda a acontecer”.
A próxima etapa levará Abreu Freire a cruzar os percursos de Vieira na Europa.
Veja a notícia no CienciaPT.
A coordenação do projecto, a cargo Abreu Freire, faz parte da programação comemorativa do Ano Vieirino (os 400 anos do nascimento de António Vieira foram assinalados a 6 de Fevereiro). Tal como recorda a UA em comunicado, o CHIC largou, a 17 de Março de 2007, de Aveiro em direcção aos caminhos marítimo percorridos por António Vieira, um dos maiores escritores de língua portuguesa.
Numa primeira fase, com quatro tripulantes a bordo, o CHIC atravessou o Atlântico rumo ao Brasil. A 21 de Março chegou à ilha da Madeira e, a 1 de Abril, a Cabo Verde de onde partiu, a 12, para atravessar a linha do Equador (21 de Abril). A chegada a São Salvador da Bahia deu-se a 30 desse mês, 43 dias depois de abandonar Aveiro.
A segunda fase da jornada reconstituiu o percurso de Vieira no Brasil (Recife, 27 de Julho, Ceará, 18 de Agosto e 16 dias depois, Camocim. A viagem prosseguiu por São Luís do Maranhão e Belém do Pará).A viagem foi registada por dois tripulantes, profissionais do audiovisual, para edição breve em formato de cinema, televisão e multimédia. No blogue do projecto, Abreu Freire descreveu os passos do CHIC, construindo o “Dário de Bordo”.
Em http://www.ua.pt/vieira2008/ pode ler-se “A viagem de regresso começou a 30 de Outubro, fazendo escala em diversas ilhas das Caraíbas. Martinique a 10 de Novembro, Guadeloupe no dia 20, Barbuda e Antígua nos dias seguintes. Em Saint Martin, alguns dias de reparações e largada a 6 de Dezembro. Uma violenta tempestade tropical fez “capotar" o CHIC e obrigou a uma nova paragem forçada em Hamilton nas Bermudas. Depois de escalar nos Açores, chegou a Oeiras, de onde o padre António Vieira partia no seu tempo. Mais uma paragem em Peniche e regressou às águas calmas da Ria de Aveiro, completando quase um ano de viagem pelas rotas de Vieira”.
Apesar de todos os contratempos vividos durante o ano de navegação, o veleiro CHIC espalhou, com êxito, a palavra de António Vieira pelo Atlântico. É desta forma que o mentor do projecto sintetiza a experiência: “Pelo longo roteiro desta viagem encontrámos paisagens deslumbrantes, no mar como na terra, florestas e desertos, (…) grandes cidades e aldeias remotas, e sobretudo seres humanos maravilhosos com quem partilhámos as nossas paixões e o nosso vinho. Valeu a pena percorrer estes espaços de um dos maiores portugueses de sempre, para melhor entendermos a sua mensagem, para dar a conhecer a todos quantos hoje se apaixonam pela nossa língua a grandeza inimitável do seu poder de crítica construtiva, do seu patriotismo, da sua visão optimista de um futuro grandioso para todos os que falam português, o que tarda a acontecer”.
A próxima etapa levará Abreu Freire a cruzar os percursos de Vieira na Europa.
Veja a notícia no CienciaPT.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Sermões de Vieira
Em seus cerca de 220 sermões (são peças oratória de cerca de 50 páginas, em média), Vieira abordou temas sacros e profanos, sempre com paixão e eloquência, com objetividade e sapiência, com amor e inteligência, com oportunidade e consciência; e, entre os nove sermões designados de Santo Antônio (de Lisboa, dito de Pádua), o que hoje abordamos é o dos peixes, decerto o mais conhecido, e, indiscutivelmente, entre todos o mais brilhante, até porque inspirado no famosíssimo e homónimo sermão do Santo, também ele brilhantíssimo orador sacro, se bem que, ambos, profundos psicólogos, sensíveis sociólogos, sapientíssimos filósofos, brilhantes estilistas, atributos diuturnamente comprovados, pelo que muitos e profundos ensinamentos transmitem aos leitores. Neste sermão, começa Vieira por declarar: "Nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles". Foi pregado a 13 de junho de 1654 em São Luís do Maranhão, e é como que uma continuação do Sermão das Tentações, também pregado perante os colonos, em defesa da libertação do índios escravos, quando Vieira lhes atirou: Que vós, que vossas mulheres, que vossos filhos e que todos nós nos sustentássemos DOS NOSSOS BRAÇOS; porque melhor é SUSTENTAR do SUOR PRÓPRIO, QUE DO SANGUE ALHEIO"!.
O "Sermão das Tentações" teve certo impacto entre os colonos esclavagistas, mas, com o tempo, tudo foi regressando ao estado anterior, pelo que o nosso EVANGELIZADOR, no ano seguinte, achou por bem voltar à carga, e fê-lo magistralmente com o "Sermão de Santo Antônio", ou dos Peixes, onde usou abundantemente de metáforas e alegorias, no sentido de impressionar e influenciar as "almas" de seus ouvintes, deles conseguindo, assim, algumas regalias para os pobres índios seus protegidos, objecto, meta e razão de ser de seu apostolado. Neste sermão, Antônio Vieira começou por dissertar sobre o tema "
Vós sois o sal da Terra", enquanto elemento inibidor da CORRUPÇÂO - das almas, que também dos corpos - após o que passou ao tema principal (os homens peixes), para, logo depois, apontar a sua bateria de argumentos, exemplos e questionamentos contra as injustiças e violencias dos "grandes" contra os "pequenos", dos poderosos contra os indefesos, dos parasitas contra os que trabalham. Foi então que desferiu esta certeira acertiva:
"A primeira coisa que me desedifica de vós - peixes - É QUE VÓS VOS COMEIS UNS AOS OUTROS. Não só vos comeis uns aos outros, SENÃO QUE OS GRANDES COMEM OS PEQUENOS. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas, como os grandes comem os pequenos, NÃO BASTAM 100 PEQUENOS, nem 1.000, PARA UM SÓ GRANDE, e, para que vejais que estes comidos na terra são os pequenos, e pelos modos que vós vos comeis no mar...OS HOMENS, COM SUAS MÁS E PERVERSAS COBIÇAS, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros...Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é,QUERO QUE O VEJAIS NOS HOMENS. Olhai, peixes, lá do mar para a terra...cuidais que só os tapuias (índios) se comem uns aos outros?. Muito maior açougue é o de cá, MUITO MAIS SE COMEM OS BRANCOS".
Desde então - como agora e sempre, por todos os séculos - vêm os homens de bem (recordemos os Homens Bons, como eram chamados os venerandos vereadores dos municípios de antanho, que nada ganhavam para - com competência e honradez - governar os seus munícipes, e cotejêmo-los com a caterva de hoje) pregando mais para os peixes que para os governantes e poderosos, uns e outros, na maioria dos casos, comendo por si e por muitos, "quando um só dos GRANDES daria para sustentar 100 ou 1.000 dos pequenos"!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!. Como dizia Camões - mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o prazer e a confiança - tudo é feito de mudança...- só neste caso continua a mesma dança!!!, diríamos nós, olhando as misérias deste mundo, face a tanto desperdício, a violência, que atinge principalmente os pacíficos, a maldade, que ataca especialmente os bons, a indignidade, de que são vítimas normalmente os dignos, a miséria em que se encontram os que mais arduamente trabalham e produzem. PENSEM EM TUDO ISTO!!!
(José Verdasca, escritor português)
O "Sermão das Tentações" teve certo impacto entre os colonos esclavagistas, mas, com o tempo, tudo foi regressando ao estado anterior, pelo que o nosso EVANGELIZADOR, no ano seguinte, achou por bem voltar à carga, e fê-lo magistralmente com o "Sermão de Santo Antônio", ou dos Peixes, onde usou abundantemente de metáforas e alegorias, no sentido de impressionar e influenciar as "almas" de seus ouvintes, deles conseguindo, assim, algumas regalias para os pobres índios seus protegidos, objecto, meta e razão de ser de seu apostolado. Neste sermão, Antônio Vieira começou por dissertar sobre o tema "
Vós sois o sal da Terra", enquanto elemento inibidor da CORRUPÇÂO - das almas, que também dos corpos - após o que passou ao tema principal (os homens peixes), para, logo depois, apontar a sua bateria de argumentos, exemplos e questionamentos contra as injustiças e violencias dos "grandes" contra os "pequenos", dos poderosos contra os indefesos, dos parasitas contra os que trabalham. Foi então que desferiu esta certeira acertiva:
"A primeira coisa que me desedifica de vós - peixes - É QUE VÓS VOS COMEIS UNS AOS OUTROS. Não só vos comeis uns aos outros, SENÃO QUE OS GRANDES COMEM OS PEQUENOS. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas, como os grandes comem os pequenos, NÃO BASTAM 100 PEQUENOS, nem 1.000, PARA UM SÓ GRANDE, e, para que vejais que estes comidos na terra são os pequenos, e pelos modos que vós vos comeis no mar...OS HOMENS, COM SUAS MÁS E PERVERSAS COBIÇAS, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros...Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é,QUERO QUE O VEJAIS NOS HOMENS. Olhai, peixes, lá do mar para a terra...cuidais que só os tapuias (índios) se comem uns aos outros?. Muito maior açougue é o de cá, MUITO MAIS SE COMEM OS BRANCOS".
Desde então - como agora e sempre, por todos os séculos - vêm os homens de bem (recordemos os Homens Bons, como eram chamados os venerandos vereadores dos municípios de antanho, que nada ganhavam para - com competência e honradez - governar os seus munícipes, e cotejêmo-los com a caterva de hoje) pregando mais para os peixes que para os governantes e poderosos, uns e outros, na maioria dos casos, comendo por si e por muitos, "quando um só dos GRANDES daria para sustentar 100 ou 1.000 dos pequenos"!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!. Como dizia Camões - mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o prazer e a confiança - tudo é feito de mudança...- só neste caso continua a mesma dança!!!, diríamos nós, olhando as misérias deste mundo, face a tanto desperdício, a violência, que atinge principalmente os pacíficos, a maldade, que ataca especialmente os bons, a indignidade, de que são vítimas normalmente os dignos, a miséria em que se encontram os que mais arduamente trabalham e produzem. PENSEM EM TUDO ISTO!!!
(José Verdasca, escritor português)
Antônio Vieira
Passou quase despercebida a data do quarto centenário de nascimento do Padre Antonio Vieira, um dos mais importantes missionários, oradores, escritores, diplomatas, e defensores da unidade territorial na história colonial luso-brasileira. Exceto o belo e oportuno texto do padre e professor José Carlos B. Aleixo, publicado no Correio Braziliense em 11 de fevereiro, pouco mais foi escrito sobre a magna data.
Natural de Lisboa, nascido em 6 de fevereiro de 1608, era filho de Cristóvão Vieira Ravasco e de Maria de Azevedo, “fidalgos de nobre linhagem”. No final de 1615 transferem-se para o Brasil, indo residir em Salvador, onde o pai fora nomeado escrevente do Tribunal de Relação.
Aos 15 anos contraria os pais e ingressa como noviço no colégio dos jesuítas. Um ano depois, com a cidade sob ameaça de invasão pelos soldados holandeses, fogem padres e seminaristas para se abrigar entre indígenas. Aos 17 anos já se achava encarregado de elaborar, em latim, o relatório anual da congregação aos superiores em Roma. Aos 18 passa a lecionar retórica no seminário de Olinda e, em 1633, profere o primeiro sermão público, intitulado Quarta dominga da quaresma, em que toma como mote o versículo 12 do capítulo 6 do Evangelho de São João, sobre a multiplicação dos pães: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca”. Em 1635, finalmente, recebe as ordens sacerdotais.
Com parte do território colonial dominado pela Holanda, e ante os repetidos fracassos dos nossos soldados e colonos diante de tropas melhor aparelhadas, Vieira, em 1640, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, da cidade de Salvador, prega o sermão “Pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda”, na opinião dos críticos o mais veemente libelo contra o desamparo divino jamais lavrado em língua portuguesa. Empunhando o Salmo 44 como estandarte, depreca: “Acorda, ó Senhor! Por que dormes? Acorda! Não me rejeites para sempre. Por que escondes a tua face, e te esqueces da nossa miséria e da nossa opressão?” Escreve João Viegas, no posfácio de A missão de Ibiapaba, “Vieira chama Deus ao conflito. Irá Ele permitir que o Brasil caia nas mãos de calvinistas?” Por certo não, eis que, logo depois, incapazes de quebrar a resistência dos sitiados, os agressores levantam o cerco e se retiram.
Vieira foi, antes de tudo, o missionário evangelizador que se opôs às violências praticadas contra os nativos, submetidos a trabalho escravo antes da chegada dos negros africanos, atuação que lhe trouxe o ódio de colonizadores e a hostilidade de representantes da Coroa portuguesa.
Sob distintos pontos de vista é insuperável a obra sacra e documental deixada por Vieira. São 15 volumes de sermões e três de cartas, escritos esparsos, alguns extraviados e outros não concluídos, apesar de haver trabalhado doente e quase cego até as vésperas da morte, em 18 de julho de 1697, aos 90 anos de idade. Algumas das obras-primas de Vieira permanecem surpreendentemente atuais, como a Carta de 1654, em que D. João IV pede-lhe que opine sobre haver na capitania do Pará dois capitães-mores ou um só governador. Responde o jesuíta que “menos mal lhe parecia que houvesse um só ladrão do que dois”, e que “mais dificultoso serão de achar dois homens de bem do que um”. Invoca, a seguir, o romano Catão, a quem fora indicada a designação de dois comandantes para provimento de duas praças-fortes. Redargüiu o imperador que nenhum dos dois nomes o satisfaziam, “um porque nada tinha; outro porque nada lhe bastava”. Conclui Vieira, “e eu não sei qual a maior tentação, se a necessidade, se a cobiça”.
Revestido do mesmo ímpeto acusatório é o sermão do Bom Ladrão, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655. Narra Vieira que, tendo D. J oão III solicitado a São Francisco Xavier que o informasse sobre o estado em que se encontravam os interesses portugueses na Índia, respondeu-lhe o santo que ali o verbo rapio (arrebatar, roubar, pilhar, saquear) era conjugado em todos os tempos e modos. Furtava-se no indicativo, imperativo, mandativo, optativo, conjuntivo, potencial, permissivo, infinitivo, “porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lhe deixam raízes em que se vão continuando os furtos”. Acrescentou Vieira: “Não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se houvesse”.
Numa época em que a moralidade pública baixou a níveis críticos, e tanto a política como as confissões religiosas transformaram-se em fontes de súbito e duvidoso enriquecimento, não é de surpreender o silêncio que se fez em torno do quarto centenário de nascimento do extraordinário e santo jesuíta. Padre Vieira, com efeito, caiu no esquecimento.
(Almir Pazzianotto Pinto, in O Imparcial, São Luis do Maranhão)
Natural de Lisboa, nascido em 6 de fevereiro de 1608, era filho de Cristóvão Vieira Ravasco e de Maria de Azevedo, “fidalgos de nobre linhagem”. No final de 1615 transferem-se para o Brasil, indo residir em Salvador, onde o pai fora nomeado escrevente do Tribunal de Relação.
Aos 15 anos contraria os pais e ingressa como noviço no colégio dos jesuítas. Um ano depois, com a cidade sob ameaça de invasão pelos soldados holandeses, fogem padres e seminaristas para se abrigar entre indígenas. Aos 17 anos já se achava encarregado de elaborar, em latim, o relatório anual da congregação aos superiores em Roma. Aos 18 passa a lecionar retórica no seminário de Olinda e, em 1633, profere o primeiro sermão público, intitulado Quarta dominga da quaresma, em que toma como mote o versículo 12 do capítulo 6 do Evangelho de São João, sobre a multiplicação dos pães: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca”. Em 1635, finalmente, recebe as ordens sacerdotais.
Com parte do território colonial dominado pela Holanda, e ante os repetidos fracassos dos nossos soldados e colonos diante de tropas melhor aparelhadas, Vieira, em 1640, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, da cidade de Salvador, prega o sermão “Pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda”, na opinião dos críticos o mais veemente libelo contra o desamparo divino jamais lavrado em língua portuguesa. Empunhando o Salmo 44 como estandarte, depreca: “Acorda, ó Senhor! Por que dormes? Acorda! Não me rejeites para sempre. Por que escondes a tua face, e te esqueces da nossa miséria e da nossa opressão?” Escreve João Viegas, no posfácio de A missão de Ibiapaba, “Vieira chama Deus ao conflito. Irá Ele permitir que o Brasil caia nas mãos de calvinistas?” Por certo não, eis que, logo depois, incapazes de quebrar a resistência dos sitiados, os agressores levantam o cerco e se retiram.
Vieira foi, antes de tudo, o missionário evangelizador que se opôs às violências praticadas contra os nativos, submetidos a trabalho escravo antes da chegada dos negros africanos, atuação que lhe trouxe o ódio de colonizadores e a hostilidade de representantes da Coroa portuguesa.
Sob distintos pontos de vista é insuperável a obra sacra e documental deixada por Vieira. São 15 volumes de sermões e três de cartas, escritos esparsos, alguns extraviados e outros não concluídos, apesar de haver trabalhado doente e quase cego até as vésperas da morte, em 18 de julho de 1697, aos 90 anos de idade. Algumas das obras-primas de Vieira permanecem surpreendentemente atuais, como a Carta de 1654, em que D. João IV pede-lhe que opine sobre haver na capitania do Pará dois capitães-mores ou um só governador. Responde o jesuíta que “menos mal lhe parecia que houvesse um só ladrão do que dois”, e que “mais dificultoso serão de achar dois homens de bem do que um”. Invoca, a seguir, o romano Catão, a quem fora indicada a designação de dois comandantes para provimento de duas praças-fortes. Redargüiu o imperador que nenhum dos dois nomes o satisfaziam, “um porque nada tinha; outro porque nada lhe bastava”. Conclui Vieira, “e eu não sei qual a maior tentação, se a necessidade, se a cobiça”.
Revestido do mesmo ímpeto acusatório é o sermão do Bom Ladrão, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655. Narra Vieira que, tendo D. J oão III solicitado a São Francisco Xavier que o informasse sobre o estado em que se encontravam os interesses portugueses na Índia, respondeu-lhe o santo que ali o verbo rapio (arrebatar, roubar, pilhar, saquear) era conjugado em todos os tempos e modos. Furtava-se no indicativo, imperativo, mandativo, optativo, conjuntivo, potencial, permissivo, infinitivo, “porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lhe deixam raízes em que se vão continuando os furtos”. Acrescentou Vieira: “Não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se houvesse”.
Numa época em que a moralidade pública baixou a níveis críticos, e tanto a política como as confissões religiosas transformaram-se em fontes de súbito e duvidoso enriquecimento, não é de surpreender o silêncio que se fez em torno do quarto centenário de nascimento do extraordinário e santo jesuíta. Padre Vieira, com efeito, caiu no esquecimento.
(Almir Pazzianotto Pinto, in O Imparcial, São Luis do Maranhão)
terça-feira, 11 de março de 2008
Busto de Vieira para o Rio de Janeiro
Segundo a Agência Lusa, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, que esteve no Brasil integrado na comitiva do Presidente da República portuguesa, referiu que a sua Câmara decidiu oferecer à cidade do Rio de Janeiro um busto do padre António Vieira, para ser colocado numa rua da cidade.
segunda-feira, 10 de março de 2008
António Vieira astrónomo
O magistério plural do padre António Vieira não se esgotou na defesa da condição humana ou na diplomacia, de par com prédicas do alto do púlpito tem-se omitido ou subalternizado, ao evocar os créditos do afamado jesuíta, que os céus foram para ele algo mais do que um local piedoso e refrigério das almas; leitor de Johannes Kepler, o grande matemático, Vieira recorreu com frequência aos seus argumentos. Aliás, o elemento celeste esteve, amiúde, em uso na palavra e na escrita modelar do mestre, mormente a pretexto da observação de cometas e consequentes implicações proféticas, ajustadas à causa sebastianista da Restauração portuguesa.
Num relance sobre as notificações astronómicas do pregador jesuíta, vemos que este teorizava sobre a manifestação dos cometas ao jeito de alguns dos seus mais considerados coevos, como o referido Kepler, o matemático suíço Jacques Bernouilli ou o filósofo italiano Tommaso Campanella. Se António Vieira acalentava, sem equívocos, uma figuração ideal dos cometas para uso teológico, como "avisos de Deus", por outro lado, procurou sempre distanciar-se da astrologia "judiciária", prognóstica.
Esta faceta do jesuíta não prejudica a sua feição mista de físico natural e teólogo um breve relance pelas "Cartas" do insigne jesuíta confirmam-nos a sua proficiente catalogação de inúmeros eventos astronómicos a que procedeu, mormente no decurso da sua estada em Coimbra e, mais tarde, em terras brasileiras, na Baía. Nas suas trocas epistolares com D. Rodrigo de Meneses e o Marquês de Gouveia, Vieira denota a sua acuidade face a todos os episódios astronómicos, o cuidado rastreio de toda a espécie de prodígios celestes e atmosféricos que remete invariavelmente para a sua "cometomância" político-messiânica. Típica desta permanente atenção aos céus é uma missiva endereçada ao cónego Francisco Barreto: "Cá apareceu um cometa aos 6 de Dezembro, dia em que foi coroado El-Rei, muito maior que o grandíssimo que lá vimos no ano de oitenta, em figura de palma, que se estendia desde o horizonte até ao zénite e levava o curso para a parte austral tão arrebatado qual nunca se viu em outro".
Textos de António Vieira, como o opúsculo "Voz de Deus ao mundo", ilustram as suas leituras sobre o significado dos cometas, das suas origens e matéria constituinte, do aparecimento de novas estrelas, do posicionamento dos planetas da ordem ptolomaica, e dos vaticínios políticos que ele recolhe das diversas conjugações celestes. No que toca à matéria e essência cometárias, o emérito jesuíta mostra, com clareza, num dos seus sermões, em 1641, a sua fidelidade às concepções de Aristóteles, subscrevendo que "a matéria dos cometas são os vapores ou exalações da terra subidas ao céu". Deve-se a Vieira a primeira descrição mundial do cometa Jacob ( 1695 ), rastreado por ele na Baía aos 87 anos. Então, o pregador retorna a Kepler, confessando dúvidas acerca da explicação aristotélica para a formação daqueles corpos celestes.
De quando em vez, emerge a experiência sensorial do nosso orador sacro, simultaneamente descrente da arquitectura fabulosa dos signos do Zodíaco, projectados no firmamento, conquanto firmemente convicto dos "sinais" que dele deduz. De facto, Vieira assume um cepticismo perceptivo unilateral perante as aparências e "mentiras do céu", impugnando as construções dos matemáticos e dos astrólogos face a "este céu cá de baixo", o "céu da terra", numa amostra de realismo súbito e paradoxal. Percebe-se qual o céu visado pelo pregador o "lá de cima", como diz. De resto, "cuida o vulgo que vê o Céu e engana- -se, porque não chega lá a nossa vista. Isto que chamamos céu é uma mentira azul: e se as mentiras do céu da terra são tão formosas, quais serão as verdades do Céu"?
Adepto do geocentrismo, sinal da impoluta estabilidade da sua cosmovisão, não espanta a divergência de Vieira ante Copérnico, provada nos seus sermões. Todavia, deixa ao livre arbítrio dos seus ouvintes/leitores a escolha do modo como queiram representar a sua relação com o Sol, vincando embora a sua postura. Em defesa dos juízos eclesiásticos, o homem de fé socorre-se de excertos bíblicos para asseverar a imobilidade intransigente do orbe terrestre. Como poderia Copérnico ter lugar nesta centralidade terrestre, insondável e única, na lógica religiosa centrípeta do "mundo" de António Vieira?
(in "Jornal de Notícias", 11.3.08)
Num relance sobre as notificações astronómicas do pregador jesuíta, vemos que este teorizava sobre a manifestação dos cometas ao jeito de alguns dos seus mais considerados coevos, como o referido Kepler, o matemático suíço Jacques Bernouilli ou o filósofo italiano Tommaso Campanella. Se António Vieira acalentava, sem equívocos, uma figuração ideal dos cometas para uso teológico, como "avisos de Deus", por outro lado, procurou sempre distanciar-se da astrologia "judiciária", prognóstica.
Esta faceta do jesuíta não prejudica a sua feição mista de físico natural e teólogo um breve relance pelas "Cartas" do insigne jesuíta confirmam-nos a sua proficiente catalogação de inúmeros eventos astronómicos a que procedeu, mormente no decurso da sua estada em Coimbra e, mais tarde, em terras brasileiras, na Baía. Nas suas trocas epistolares com D. Rodrigo de Meneses e o Marquês de Gouveia, Vieira denota a sua acuidade face a todos os episódios astronómicos, o cuidado rastreio de toda a espécie de prodígios celestes e atmosféricos que remete invariavelmente para a sua "cometomância" político-messiânica. Típica desta permanente atenção aos céus é uma missiva endereçada ao cónego Francisco Barreto: "Cá apareceu um cometa aos 6 de Dezembro, dia em que foi coroado El-Rei, muito maior que o grandíssimo que lá vimos no ano de oitenta, em figura de palma, que se estendia desde o horizonte até ao zénite e levava o curso para a parte austral tão arrebatado qual nunca se viu em outro".
Textos de António Vieira, como o opúsculo "Voz de Deus ao mundo", ilustram as suas leituras sobre o significado dos cometas, das suas origens e matéria constituinte, do aparecimento de novas estrelas, do posicionamento dos planetas da ordem ptolomaica, e dos vaticínios políticos que ele recolhe das diversas conjugações celestes. No que toca à matéria e essência cometárias, o emérito jesuíta mostra, com clareza, num dos seus sermões, em 1641, a sua fidelidade às concepções de Aristóteles, subscrevendo que "a matéria dos cometas são os vapores ou exalações da terra subidas ao céu". Deve-se a Vieira a primeira descrição mundial do cometa Jacob ( 1695 ), rastreado por ele na Baía aos 87 anos. Então, o pregador retorna a Kepler, confessando dúvidas acerca da explicação aristotélica para a formação daqueles corpos celestes.
De quando em vez, emerge a experiência sensorial do nosso orador sacro, simultaneamente descrente da arquitectura fabulosa dos signos do Zodíaco, projectados no firmamento, conquanto firmemente convicto dos "sinais" que dele deduz. De facto, Vieira assume um cepticismo perceptivo unilateral perante as aparências e "mentiras do céu", impugnando as construções dos matemáticos e dos astrólogos face a "este céu cá de baixo", o "céu da terra", numa amostra de realismo súbito e paradoxal. Percebe-se qual o céu visado pelo pregador o "lá de cima", como diz. De resto, "cuida o vulgo que vê o Céu e engana- -se, porque não chega lá a nossa vista. Isto que chamamos céu é uma mentira azul: e se as mentiras do céu da terra são tão formosas, quais serão as verdades do Céu"?
Adepto do geocentrismo, sinal da impoluta estabilidade da sua cosmovisão, não espanta a divergência de Vieira ante Copérnico, provada nos seus sermões. Todavia, deixa ao livre arbítrio dos seus ouvintes/leitores a escolha do modo como queiram representar a sua relação com o Sol, vincando embora a sua postura. Em defesa dos juízos eclesiásticos, o homem de fé socorre-se de excertos bíblicos para asseverar a imobilidade intransigente do orbe terrestre. Como poderia Copérnico ter lugar nesta centralidade terrestre, insondável e única, na lógica religiosa centrípeta do "mundo" de António Vieira?
(in "Jornal de Notícias", 11.3.08)
quarta-feira, 5 de março de 2008
Vieira na Madeira
O Funchal associou-se ontem às iniciativas que, um pouco por todo o mundo, estão a assinalar o 4.º centenário do nascimento do Pe. António Vieira. Foi através de um colóquio promovido pela diocese (Departamento de Educação Cristã para Adultos), na APEL, e trouxe até nós dois notáveis conferencistas.
“Nós somos pigmeus, anões aos ombros de gigantes, dizia o Pe. António Vieira. Cada geração nova coloca-se aos ombros da geração anterior,dos gigantes, e aos ombros deles vemos mais longe. Vieira foi um deles”, considera o Professor José Eduardo Franco.
Do Padre António Vieira nunca se sabe tudo, nem muito. A sua grandeza literária já percorreu quatro séculos da História portuguesa e, no entanto, permanece actual.
A sua memória foi ontem recordada no Funchal, num colóquio com dois especialistas: o Prof. José Eduardo Franco e a Prof.ª Carlota Urbano. Enquanto o historiador da cultura falou do “Pe. António Vieira: A palavra e a utopia”, e ainda “Vieira, crítico social: o combate à Inquisição e à escravatura”; a docente da Universidade de Coimbra desenvolveu o tema da “formação do génio de Vieira” no contexto da Companhia de Jesus de que era membro.
À margem da sua conferência, em declarações ao Jornal da Madeira, Carlota Urbano lamentou que as “Humanidades” não sejam hoje em dia tão consideradas como no passado. A falta de interesse ou a eventual “crise não é provocada pelas novas tecnologias”, explicou, “mas por uma certa cegueira, um certo entusiasmo que nos está a fazer perder os horizontes e não há um empenho em alargar a todos os domínios do saber as ciências humanas, como no tempo de António Vieira. Hoje em dia, realmente, está-se a descurar isso e é uma grande perda para as gerações do futuro porque estamos a cortar as raízes da sua própria identidade e da própria construção do futuro; omitindo essas raízes culturais, sobretudo de índole clássica e cristã, retiramos-lhes a memória e não se sabendo realmente quem é dificilmente se sabe aquilo que quer ser”.
Neste caso, o exemplo vem de fora, pois, grandes países desenvolvidos, “como os EUA e a Ingaterra dão importância, valor, às Humanidades e talvez possamos aprender com isso”. Conclusão, “estamos a ser lentos em perceber que precisamos de manter vivo um valioso património e de o comunicar às gerações seguintes”. A mesma opinião foi partilhada pelo Prof. José Eduardo Franco ao JM:“Precisamos de figuras inspiradoras, espécies de faróis que nos guiem para ousar ir mais longe”.Uma nota final: o colóquio sobre o Pe. António Vieira que, à partida, devia suscitar grande interesse por parte das escolas e universidade foi pouco aproveitado; valeu ao escasso público presente “saborear” a cultura de qualidade que não se encontra facilmente.
(Vera Luza no Jornal da Madeira 2.3.08)
Vera Luza
“Nós somos pigmeus, anões aos ombros de gigantes, dizia o Pe. António Vieira. Cada geração nova coloca-se aos ombros da geração anterior,dos gigantes, e aos ombros deles vemos mais longe. Vieira foi um deles”, considera o Professor José Eduardo Franco.
Do Padre António Vieira nunca se sabe tudo, nem muito. A sua grandeza literária já percorreu quatro séculos da História portuguesa e, no entanto, permanece actual.
A sua memória foi ontem recordada no Funchal, num colóquio com dois especialistas: o Prof. José Eduardo Franco e a Prof.ª Carlota Urbano. Enquanto o historiador da cultura falou do “Pe. António Vieira: A palavra e a utopia”, e ainda “Vieira, crítico social: o combate à Inquisição e à escravatura”; a docente da Universidade de Coimbra desenvolveu o tema da “formação do génio de Vieira” no contexto da Companhia de Jesus de que era membro.
À margem da sua conferência, em declarações ao Jornal da Madeira, Carlota Urbano lamentou que as “Humanidades” não sejam hoje em dia tão consideradas como no passado. A falta de interesse ou a eventual “crise não é provocada pelas novas tecnologias”, explicou, “mas por uma certa cegueira, um certo entusiasmo que nos está a fazer perder os horizontes e não há um empenho em alargar a todos os domínios do saber as ciências humanas, como no tempo de António Vieira. Hoje em dia, realmente, está-se a descurar isso e é uma grande perda para as gerações do futuro porque estamos a cortar as raízes da sua própria identidade e da própria construção do futuro; omitindo essas raízes culturais, sobretudo de índole clássica e cristã, retiramos-lhes a memória e não se sabendo realmente quem é dificilmente se sabe aquilo que quer ser”.
Neste caso, o exemplo vem de fora, pois, grandes países desenvolvidos, “como os EUA e a Ingaterra dão importância, valor, às Humanidades e talvez possamos aprender com isso”. Conclusão, “estamos a ser lentos em perceber que precisamos de manter vivo um valioso património e de o comunicar às gerações seguintes”. A mesma opinião foi partilhada pelo Prof. José Eduardo Franco ao JM:“Precisamos de figuras inspiradoras, espécies de faróis que nos guiem para ousar ir mais longe”.Uma nota final: o colóquio sobre o Pe. António Vieira que, à partida, devia suscitar grande interesse por parte das escolas e universidade foi pouco aproveitado; valeu ao escasso público presente “saborear” a cultura de qualidade que não se encontra facilmente.
(Vera Luza no Jornal da Madeira 2.3.08)
Vera Luza
Carta de um leitor
Do leitor Carlos Maduro, recebemos a seguinte carta, que agradecemos:
Em primeiro lugar os meus parabéns pela ideia da criação deste blog dedicado ao Pe António Vieira.
Ironia do destino, que já mantive algum tempo um site acerca de Vieira, vejo-me presentemente muito afastado da Net por causa do mesmo Padre António Vieira, sempre Vieira.
Um Vieira que me atraiu a curiosidade por um mero acaso de inscrição num mestrado para assinalar o centenário da morte, levado a cabo pela Faculdade de Filosofia de Universidade Católica de Braga, orientado pelo Sr. Professor Doutor Aníbal Pinto de Castro, e agora matriculado na mesma Universidade para defender uma dissertação de Doutoramento intitulada: As cartas de Vieira, Um Paradigma da Retórica Epistolar do Barroco, também orientado pelo mesmo professor, diga-se em abono da verdade, a outra fonte de motivação para levar esta tarefa a bom termo.
Desta experiência de trabalho, que até à data teve como base uma formação teórica sobre a epistolografia em termos retóricos, remetida para segundo plano nos estudos literários em Portugal, tenho vindo a elaborar uma base de dados, que inclui a digitalização dos textos de todas as cartas de modo a aceder, com as possibilidades que a informática dá, a uma série de informações dispersas ao longo de cerca de 750 cartas que tenho catalogadas, tendo como ponto de partida a edição de Lúcio de Azevedo, mas também as várias edições apógrafas e autógrafas que felizmente ainda se encontram em bom estado de conservação na Biblioteca Pública de Évora, Biblioteca Nacional, Torre do Tombo e Casa de Cadaval.
Mas, se este era o projecto inicial, tem sido a leitura minuciosa da epistolgrafia de Vieira que me tem ajudado a descobrir, e lembrando o Presidente Jorge Sampaio, de que há Vieira para além do orador, do político, diplomata e visionário. Vieira homem importa redescobri-lo e ele está nas cartas. Cartas essas que foram sempre um parente pobre dos estudos vieirianos, ou então, quando feitos, ao serviço de estudos já realizados.
É, pois, neste rumo que me disponibilizo para dar a colaboração que entenderem nesta área, nomeadamente inoformações acerca dos destinatários da correspondência de Vieira.
E tratando-se de um Blog da embaixada, lembro a figura de Duarte Ribeiro de Macedo que julgo ocupar o lugar mais importante em toda a correspondência e acerca do qual, quando tiver alguns dados mais organizados, pois ainda me faltam estudar algumas cartas, terei todo o gosto em enviar algumas conclusões.
Com os meus cumprimentos,
Carlos Maduro
Este blogue fica à inteira disposição deste leitor para acolher as contribuições que nos quiser prestar.
Em primeiro lugar os meus parabéns pela ideia da criação deste blog dedicado ao Pe António Vieira.
Ironia do destino, que já mantive algum tempo um site acerca de Vieira, vejo-me presentemente muito afastado da Net por causa do mesmo Padre António Vieira, sempre Vieira.
Um Vieira que me atraiu a curiosidade por um mero acaso de inscrição num mestrado para assinalar o centenário da morte, levado a cabo pela Faculdade de Filosofia de Universidade Católica de Braga, orientado pelo Sr. Professor Doutor Aníbal Pinto de Castro, e agora matriculado na mesma Universidade para defender uma dissertação de Doutoramento intitulada: As cartas de Vieira, Um Paradigma da Retórica Epistolar do Barroco, também orientado pelo mesmo professor, diga-se em abono da verdade, a outra fonte de motivação para levar esta tarefa a bom termo.
Desta experiência de trabalho, que até à data teve como base uma formação teórica sobre a epistolografia em termos retóricos, remetida para segundo plano nos estudos literários em Portugal, tenho vindo a elaborar uma base de dados, que inclui a digitalização dos textos de todas as cartas de modo a aceder, com as possibilidades que a informática dá, a uma série de informações dispersas ao longo de cerca de 750 cartas que tenho catalogadas, tendo como ponto de partida a edição de Lúcio de Azevedo, mas também as várias edições apógrafas e autógrafas que felizmente ainda se encontram em bom estado de conservação na Biblioteca Pública de Évora, Biblioteca Nacional, Torre do Tombo e Casa de Cadaval.
Mas, se este era o projecto inicial, tem sido a leitura minuciosa da epistolgrafia de Vieira que me tem ajudado a descobrir, e lembrando o Presidente Jorge Sampaio, de que há Vieira para além do orador, do político, diplomata e visionário. Vieira homem importa redescobri-lo e ele está nas cartas. Cartas essas que foram sempre um parente pobre dos estudos vieirianos, ou então, quando feitos, ao serviço de estudos já realizados.
É, pois, neste rumo que me disponibilizo para dar a colaboração que entenderem nesta área, nomeadamente inoformações acerca dos destinatários da correspondência de Vieira.
E tratando-se de um Blog da embaixada, lembro a figura de Duarte Ribeiro de Macedo que julgo ocupar o lugar mais importante em toda a correspondência e acerca do qual, quando tiver alguns dados mais organizados, pois ainda me faltam estudar algumas cartas, terei todo o gosto em enviar algumas conclusões.
Com os meus cumprimentos,
Carlos Maduro
Este blogue fica à inteira disposição deste leitor para acolher as contribuições que nos quiser prestar.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Vieira e a Corrupção
O Colégio Padre Antonio Vieira promove o encontro “Comemorativo dos 400 anos do nascimento de Antonio Vieira”, no dia 6 de Março de 2008, às 19 horas, na Rua Humaitá 52, Botafogo, Rio de Janeiro.
Na ocasião o Ministro Marcos Vilaça, até há pouco Presidente da Academia Brasileira de Letras, falará sobre “Vieira e a corrupção”.
Na ocasião o Ministro Marcos Vilaça, até há pouco Presidente da Academia Brasileira de Letras, falará sobre “Vieira e a corrupção”.
sábado, 1 de março de 2008
Vieira em discussão
A vida e a obra do Padre António Vieira, autor do famoso sermão aos peixes, está em debate num colóquio que se realiza hoje no auditório da escola da APEL. Os conferencistas convidados não têm duvidas, o grito de revolta do pregador no século XVII ainda tem efeitos nos tempos modernos.
José Eduardo Franco, professor do Instituto Europeu de Ciências da Cultura, explicou esta manhã que os grandes pensadores utópicos do século XVII, "estão na base das grandes transformações sociais das sociedades democráticas de hoje". Como parte do nosso património imaterial, a obra de Padre António Vieira é fundamental para a constituição da nossa identidade, por isso é, na óptica deste investigador, é fundamental lê-lo.
Para Carlota Urbano, professora da universidade de Coimbra, o Padre António Vieira apenas respondeu aos desafios do seu tempo. Uma época "conturbada de combate ao esclavagismo, de critica às injustiças sociais, à exploração do homem, pelo homem, às grandes discrepâncias numa sociedade muito hierarquizada e muito pouco igualitária", disse José Eduardo Franco, acrescentando que são temas ainda muito actuais.
( Andreia Nóbrega do "Diário de Notícias" do Funchal, 1.3.08)
José Eduardo Franco, professor do Instituto Europeu de Ciências da Cultura, explicou esta manhã que os grandes pensadores utópicos do século XVII, "estão na base das grandes transformações sociais das sociedades democráticas de hoje". Como parte do nosso património imaterial, a obra de Padre António Vieira é fundamental para a constituição da nossa identidade, por isso é, na óptica deste investigador, é fundamental lê-lo.
Para Carlota Urbano, professora da universidade de Coimbra, o Padre António Vieira apenas respondeu aos desafios do seu tempo. Uma época "conturbada de combate ao esclavagismo, de critica às injustiças sociais, à exploração do homem, pelo homem, às grandes discrepâncias numa sociedade muito hierarquizada e muito pouco igualitária", disse José Eduardo Franco, acrescentando que são temas ainda muito actuais.
( Andreia Nóbrega do "Diário de Notícias" do Funchal, 1.3.08)
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Fundação Cultural Luso-Venezuelana evoca Vieira
A Fundação Cultural Luso-Venezuelana Camões promove na quinta-feira um "cine-forum" na cidade de venezuelana de Valência para assinalar os 400 anos do nascimento do padre António Vieira.
Segundo os organizadores, durante o "cine-forum", orientado pelo padre brasileiro Miguel Pan, será exibido o filme "Palavra e Utopia" do realizador português Manoel de Oliveira, sobre a vida do escritor e religioso português.
A apresentação do filme, seguida por um debate sobre a mensagem do padre António Vieira decorre na Igreja de Santo António, Valência, Estado de Carabobo.
A iniciativa conta com o apoio do Instituto Camões (de Lisboa) e o Consulado Geral de Portugal em Valência, além da colaboração do Centro Cultural da Missão Católica Portuguesa e Italiana de Prebo, Valencia.
Escritor e religioso, António Vieira, nasceu em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1608 e faleceu na Baía, Brasil, a 17 de Junho de 1697.
O sacerdote destacou-se, em terras brasileiras, como missioneiro na luta contra a escravidão, na defesa dos judeus e dos direitos humanos dos povos indígenas, que o chamavam "Paiaçu" (grande pai).
Feroz crítico da Inquisição e da posição de alguns sacerdotes, António Vieira escreveu mais de 50 textos, na maioria sermões.
(Site RTP 27.2.08)
Segundo os organizadores, durante o "cine-forum", orientado pelo padre brasileiro Miguel Pan, será exibido o filme "Palavra e Utopia" do realizador português Manoel de Oliveira, sobre a vida do escritor e religioso português.
A apresentação do filme, seguida por um debate sobre a mensagem do padre António Vieira decorre na Igreja de Santo António, Valência, Estado de Carabobo.
A iniciativa conta com o apoio do Instituto Camões (de Lisboa) e o Consulado Geral de Portugal em Valência, além da colaboração do Centro Cultural da Missão Católica Portuguesa e Italiana de Prebo, Valencia.
Escritor e religioso, António Vieira, nasceu em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1608 e faleceu na Baía, Brasil, a 17 de Junho de 1697.
O sacerdote destacou-se, em terras brasileiras, como missioneiro na luta contra a escravidão, na defesa dos judeus e dos direitos humanos dos povos indígenas, que o chamavam "Paiaçu" (grande pai).
Feroz crítico da Inquisição e da posição de alguns sacerdotes, António Vieira escreveu mais de 50 textos, na maioria sermões.
(Site RTP 27.2.08)
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
O poder da palavra em Padre António Vieira
A diocese do Funchal recorda os 400 anos do nascimento do Pe. António Vieira. Nos próximos dias 29 de Fevereiro e 1 de Março realizar-se-á naquela cidade madeirense um colóquio sobre «Padre António Vieira: o poder da palavra».
José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes, proferirá duas conferências sobre o jesuíta. Uma organização do Departamento de Formação Cristã de Adultos e Escola Teológica do Funchal.
Programa
Dia 29 de Fevereiro
Conferência de Abertura: «Vieira: trajectos e contextos de uma vida inquieta» por José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes, na Igreja do Colégio.
Dia 1 de Março
9.30h - Sessão de abertura
9.45h- Conferência: «Padre António Vieira: A palavra enquanto utopia» por José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.
11.00 -11.30h - intervalo para café
11.30h – Conferência: «O Padre António Vieira e a Companhia de Jesus: A formação de um génio» por Carlota Urbano, da Universidade de Coimbra
12.30-14.30 - almoço
14.30 - Workshops
«O código retórico clássico e a palavra de Vieira» por Carlota Urbano, da Universidade de Coimbra.
«Vieira, crítico social: o combate à Inquisição e à escravatura» por José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.
16.00 - Intervalo
16.30 - Apresentação dos trabalhos
17.30 - Encerramento.
18.00 – Recital: Ensemble de Flautas do Conservatório – Escola de Artes Eng. Peter Clode
As conferências do segundo dia são na Escola da APEL
( Agência Ecclesia 26/02/2008)
121 Diocese do Funchal
José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes, proferirá duas conferências sobre o jesuíta. Uma organização do Departamento de Formação Cristã de Adultos e Escola Teológica do Funchal.
Programa
Dia 29 de Fevereiro
Conferência de Abertura: «Vieira: trajectos e contextos de uma vida inquieta» por José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes, na Igreja do Colégio.
Dia 1 de Março
9.30h - Sessão de abertura
9.45h- Conferência: «Padre António Vieira: A palavra enquanto utopia» por José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.
11.00 -11.30h - intervalo para café
11.30h – Conferência: «O Padre António Vieira e a Companhia de Jesus: A formação de um génio» por Carlota Urbano, da Universidade de Coimbra
12.30-14.30 - almoço
14.30 - Workshops
«O código retórico clássico e a palavra de Vieira» por Carlota Urbano, da Universidade de Coimbra.
«Vieira, crítico social: o combate à Inquisição e à escravatura» por José Eduardo Franco, do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.
16.00 - Intervalo
16.30 - Apresentação dos trabalhos
17.30 - Encerramento.
18.00 – Recital: Ensemble de Flautas do Conservatório – Escola de Artes Eng. Peter Clode
As conferências do segundo dia são na Escola da APEL
( Agência Ecclesia 26/02/2008)
121 Diocese do Funchal
Humor e Ironia em Vieira
Teve lugar no Porto, em 7 de Fevereiro, uma conferência proferida pelo Dr. Manuel Correia Fernandes, intitulada “ O humor e a ironia em alguns sermões do Padre António Vieira”. O conferencista, um estudioso da obra do Pe. Vieira, é responsável pela organização do livro “Antologia e Aforismos de Vieira”(Telos Editora, 1997), cuja divulgação o Ministério da Educação promoveu nas escolas portuguesas.
O Dr. Manuel Correia Fernandes publicou, recentemente, dois textos no Semanário da Diocese do Porto, Voz Portucalense, de que é Director (“Em louvor do Padre António Vieira” e “Celebrações do Centenário do Padre António Vieira” nas edições de 6 e 13 de Fevereiro, respectivamente) e que podem ser lidos na edição on line do jornal.
O Dr. Manuel Correia Fernandes publicou, recentemente, dois textos no Semanário da Diocese do Porto, Voz Portucalense, de que é Director (“Em louvor do Padre António Vieira” e “Celebrações do Centenário do Padre António Vieira” nas edições de 6 e 13 de Fevereiro, respectivamente) e que podem ser lidos na edição on line do jornal.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Evento celebrou os 400 anos de Vieira
O 34º Encontro dos Descobrimentos teve lugar na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Para celebrar o 400º aniversário do Padre António Vieira - religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus, que defendeu os direitos humanos dos povos indígenas e os negros combatendo a sua exploração e escravização -, foi promovido um evento no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), no dia 23 de fevereiro. O 34º Encontro dos Descobrimentos foi da responsabilidade das comunidades portuguesa e japonesa, que formaram a cultura brasileira, e realizado pela Comissão Municipal de Direitos Humanos (CMDH), presidida pelo Dr. José Gregori e pelo IHGSP.
Na icasião, houve palestras de José Gregori, Nelly Martins Ferreira Candeias, presidente do IHGSP e do advogado, Nelson Faria de Oliveira.
O evento contou com o apoio da ONG Resgatando Valores, da Embaixada do Brasil em Portugal, de Hélio Matsuda e da firma Faria de Oliveira Advogados.
Para celebrar o 400º aniversário do Padre António Vieira - religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus, que defendeu os direitos humanos dos povos indígenas e os negros combatendo a sua exploração e escravização -, foi promovido um evento no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), no dia 23 de fevereiro. O 34º Encontro dos Descobrimentos foi da responsabilidade das comunidades portuguesa e japonesa, que formaram a cultura brasileira, e realizado pela Comissão Municipal de Direitos Humanos (CMDH), presidida pelo Dr. José Gregori e pelo IHGSP.
Na icasião, houve palestras de José Gregori, Nelly Martins Ferreira Candeias, presidente do IHGSP e do advogado, Nelson Faria de Oliveira.
O evento contou com o apoio da ONG Resgatando Valores, da Embaixada do Brasil em Portugal, de Hélio Matsuda e da firma Faria de Oliveira Advogados.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Gigante da Oratória Sacra
Maior autor de língua portuguesa do século XVII e um dos mais celebrados oradores sacros de todos os tempos, o Padre Antônio Vieira atingiu tal nível de erudição e prestígio, que deslumbrou o mundo culto de seu tempo, com seus vibrantes, oportunos e vigorosos sermões, proferidos perante reis e príncipes da Igreja, crentes e homens de cultura, e mesmo modestos e agnósticos cidadãos, que antecipadamente lotavam os templos onde sabiam que Vieira se iria apresentar. Tendo recebido toda a sua instrução nos Colégios Jesuitas do Salvador da Baía e de Olinda, Vieira só atingiu as culminâncias do saber e da erudição, mercê de sua insaciável curiosidade intelectual, servida por um talento oratório talvez único, que colocou a serviço de seu sábio e brilhante ecletismo, produzindo sermões de conteúdo profundo e forma irretocável, que a todos encantavam, convenciam e convertiam.
Na realidade, a oratória e a obra de Vieira impunham-se e impõem-se pela elevação e beleza de sua estilística, pela clareza e firmeza de suas construções retóricas e pelo humanismo e oportunidade de suas intervenções político-sociais, moralistas e moralizantes, em que tanto atacava a corrupção como defendia os oprimidos; nas quais ora pregava em favor dos índios ora contra os abusos dos senhores que os escravizavam; onde frequentemente condenava o luxo e a opulência dos poderosos para cotejá-los com a miséria e penúria dos miseráveis que produziam a sua riqueza, entre os quais frequentemente vivia, ensinava e pregava, com eles se identificando - não fosse ele próprio neto de uma escrava africana - e ainda com eles se comunicando em suas próprias línguas, pois falava 7 (sete) dialetos indígenas, nos quais redigia os catecismos de que se utilizava para a conversão e alfabetização de seus protegidos.
Quando iniciamos o estudo da vasta obra do Padre Antônio Vieira, logo sobressaem as múltiplas facetas deste brilhante e ainda mal conhecido português do Brasil, onde avulta e brilha o halo do pregador sacro sem igual, o texto do primoroso escritor, o sentimento do humanista e homem de ação sem paralelo, a um tempo defensor de índios e de negros, apologista da justiça e da liberdade, a par de uma firme postura contra os abusos da Inquisição, sem que nos possamos esquecer do "cientista social" e político desassombrado e atuante, ou do diplomata de grandes e nobres causas e batalhas, que nas cortes da Europa defendia com garra e brilho os interesses de sua e nossa Pátria. E, depois de tanto se ter servido do Verbo, da Dialética e da Retórica, não é de estranhar que a moderna língua portuguesa - saída do gênio e da pena de Luís de Camões - tivesse sido lapidada e consolidada pela fala, pela escrita - enfim pela voz - de Antônio Vieira, que, desse modo, conseguiu elevar a prosa em língua portuguesa à sua mais pura, elevada e brilhante expressão, à semelhança do que um século antes Camões tinha feito por meio de sua poética.
Estudar Vieira é ter que abordar os mais complexos problemas da Vida, para o que necessário se torna mergulhar fundo na Existência e na Essência do Ser Humano, em busca da Alma, do Espírito e dos mistérios que o Misticismo vem perseguindo ao longo dos milênios; na realidade, quando tentamos analisar criticamente a profundidade de temas e conceitos expressos em seus sermões, constatamos que - através deles - Vieira nos coloca em contato com os mais sérios problemas e fenômenos pessoais, sociais e existenciais de todos os seres, tempos e lugares, pois são de ontem, de hoje e de sempre tanto a justiça quanto a liberdade, tanto a ética como a fraternidade, tanto a paz como a igauldade perante a lei, tanto os desequilíbrios da Alma quanto os mistérios do Espírito, que devem constituir o objetyivo primeiro e último de todo o estudo sério e profundo, e a preocupação maior de todo o estudante, qualquer que seja a sua especialização acadêmica, a sua ideologia política ou até mesmo a sua crença religiosa. Essa talvez tenha sido a grande lição de Mestre Vieira, que nos deixou uma riquíssima obra literária do mais puro vernáculo, profunda e eclética, de grande beleza estética e de inigualável centelha ética, cujo estudo forma e engrandece, educa e esclarece, instrui e enobrece, eleva e enriquece, ao mesmo tempo que a sua leitura interessada e atenta encanta e delicia o estudante e o iniciado, o leigo e o formado, o sábio e o erudito.
Antônio Vieira - O Grande - foi realmente um intelectual eclético e um homem de ação polivalente, porquanto encarnou várias e ricas personagens no decorrer de sua atribulada e longa existência, tendo protagonizado, na vida real e com perfeição, as variadas e complexas funções de professor e pregador, de escritor e missionário, de diplomata e conselheiro real, de negociador e filósofo, tendo a todas elas emprestado o brilho de sua inteligência, o vigor de sua palavra, a integridade de seu carácter, o rigor de sua argumentação, a retidão de sua personalidade e o gênio de sua intuição, augustos atributos que - de tão raros em um só homem - o tornaram alvo dos mais repulsivos sentimentos de todos quantos, por inveja, despeito ou interesses feridos, se sentiam ameaçados, prejudicados e ou humilhados pela excelência de suas virtudes, pela grandeza de sua Alma ou pelo nobreza de seu proceder.
Muito naturalmente, o penetrante, eficaz, permanente e convincente instrumento de ação e comunicação de Vieira foi a linguagem falada - mais que a escrita - sempre apaixonada e eloquente, enérgica e convincente, inteligível e abrangente, certeira e inteligente, oportuna e comovente, com a qual cumpriu um longo e brilhante apostolado, sempre exercido desinteressadamente, quer se tratasse dos índios da Baía ou do Grão Pará e Maranhão, dos colonos de São Luís ou dos defensores da cidade do Salvador, da nobreza lisboeta ou dos bispos e cardeais romanos, da corte de D. João IV ou da cúpula do Vaticano. E nem mesmo se furtou a um brilhante tête à tête com o prelado Jerônimo Cataneo, quando, no palácio romano da Raínha Cristina da Suécia e na sua presença, foi desafiado a defender Heráclito, que sempre chorava, em contraposição a Cataneo, defendendo Demôcrito, que sempre ria. E de tal defesa nasceu a mais brilhante pequena-grande obra prima do nosso Príncipe dos Oradores Sacros, conhecida como "O Pranto e o Riso".
Senhor de insuperável gênio verbal, servido por um raciocínio dedutivo de lógica irretocável, a que devemos acrescentar uma dialética demolidora e construções retóricas empolgantes e convincentes, o talentoso Vieira manipulava a riqueza vocabular da nossa língua portuguesa com insuperável maestria, o que lhe permitiu atingir e exercer a sua inigualável expressão oral sem jamais sequer macular a pureza vernacular do idioma de Camões. Dele, dizia Fidelino de Figueiredo: "Vieira é um modelo de expressão, de relevo enérgico e de eloquência. Maravilha-nos que ele conseguisse tais efeitos, com um léxico tão reduzido, e uma sintaxe tão correntia...um inimitável mestre na arte de combinar valores comuns com efeitos novos e relevantes. Esse dom nasceu com ele e com ele morreu". Assim como Camões foi o grande artista que, à superior beleza estética de sua poética adicionou uma linguagem vibrante e arrebatadora, que tornaram "Os Lusíadas" um marco na história da poesia épica mundial, também - um século mais tarde - aos sermões de Vieira se ficou devendo a consagração definitiva do idioma luso, mercê da sua "lapidação" pela arte de bem arquitetar, e melhor falar e dizer do nosso talentoso jesuita.
Em Vieira encanta, comove e embriaga a beleza estética de sua parenática - enquanto arte de pregar ou eloquência oratória sacra - porquanto, nenhum outro pregador da Idade Moderna tão belos sermões pregou e disse, tão brilhante e convincente foi, tanto ousou e ou tão longe chegou na beleza sermonária, mas, acima de tudo, tantas paixões extravasou e despertou, como o amado Paiaçu (Padre ou Pai Grande) dos índios do Grão Pará e Maranhão, aos quais também muito amou, e ainda mais defendeu e protegeu contra os abusos, injustiças e violências dos esclavagistas da época, os quais - tudo tentando e nada podendo fazer contra a força de sua palavra - acabaram por expulsá-lo e expatriá-lo para Portugal, bem como aos seus auxiliares diretos. E foi só recorrendo a esse ato de força e violência, que os senhores de São Luís do Maranhão conseguiram ver-se livres do defensor da liberdade dos índios seus escravos, da moralidade da sociedade local, das injustiças do Poder.
Da grandiosa, vasta, rica e erudita obra de Antônio Vieira, sobressaem naturalmente "Os Sermões", os quais - por serem empolgantes e comoventes peças de oratória acentuadamente barrocas - resplandecem como brilhantes, entre todas quantas conhecemos do século XVII. Neles - onde metáforas e alegorias são muitas vezes magistralmente incluídas, de modo a enriquecer e ilustrar imagens e conceitos - tais artifícios de linguagem oratorial, de incisivo e elegante estilo, causavam imediato e profundo impacto no auditório, revelando-se de clarividente oportunidade, obra de aguda sensibilidade, e prova da enciclopédica erudição de Vieira, a que o esfuziante brilho da sua palavra dava o toque final de arrebatamento que a todos os seus ouvintes envolvia. Para tanto, servia-se o nosso orador das passagens e revelações dos Sagrados Livros, devidamente embasados em exemplos ilustrativos de seu dia-a-dia, a tornar mais concretas as suas prédicas, mais realistas as suas imagens, mais convincentes os seus relatos.
Entre os cerca de 220 (duzentos e vinte) sermões que proferiu e nos deixou, contam-se 30 alusivos ao Rosário, 25 relativos à Quaresma, 18 sobre São Francisco Xavier (o grande jesuita apóstolo das Índias), 14 acerca da Eucaristia, 9 invocando o nosso Santo Antônio de Lisboa, oito abordando o lava-pés, 7 reportando o Advento, 4 referenciando São Roque, e 3 descrevendo a Quarta Feira de Cinzas, além de outros sobre a Páscoa, o Espírito Santo, o Santíssimo Sacramento, o Pentecostes, Ação de Graças, e Misericórdias, uns mais outros menos conhecidos, mas todos belas, magistrais e eloquentes peças da mais fina oratória de todos os tempos. E, para não passarmos em brancas núvens por tantas e tão instrutivas peças, transcrevemos uma passagem de elevada concepção artística, onde Vieira arquiteta - de forma sublime - a ideia da obra missionária, cotejando-a com a arte do estatuário, em seu sermão ao Espírito Santo:
" Vêde o que faz em uma pedra a arte. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas - tosca, bruta, dura, informe - e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homemj, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá recama, e fica um homem perfeito, talvez um santo que se pode pôr no altar. O mesmo será se, à vossa industria, não faltar a graça Divina.".
Já aqui fizemos referência à "pequena-grande obra prima" do Padre Antônio Vieira que é "O Pranto e o Riso", apresentada na Academia sediada no palácio da Rainha Cristina da Suécia, que então residia em Roma, em 1674, quando o insigne jesuita aceitou defender o pranto ou choro de Heráclito (que sempre chorava), contra o riso de Demócrito (que sempre ria). Eis algumas passagens daquele que será o menor, mas, talvez um dos mais brilhantes pronunciamentos do nosso pregador: "...Entrando, pois, na questão de se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri - como ria Demócrito - ou quem chora - como chorava Heráclito - eu, para defender a parte do pranto, como sou obrigado, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a primeira propriedade do racional é o risível; e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o pranto é o uso da razão.
"Demócrito ria sempre; logo nunca ria; Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo...segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso...não pode haver riso que se não origine de causa que agrade...
"Heráclito chorava, mas por outro modo; há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso; chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de dor maior; e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva; a dor moderada solta as lágrimas, a grande as enxuga, as congela, as seca; dor que pode sair pelos olhos não é grande dor, por isso não chorava Demócrito; e como era pequena demonstração da sua dor não só chorar com lágrimas, mas ainda sem elas, para declarar-se com o sinal maior, sempre ria...".
Nasceu António Vieira em Lisboa, a 6 de fevereiro de 1608, sendo filho de Maria d`Azevedo e Christovam Vieira Ravasco, tendo sido batizado a 15 do mesmo mês na Catedral da Sé; no final de 1615 seguiu para a Baía com sua família, tendo-se salvo de um quase naufrágio nos baixios da Paraíba em 20 de Janeiro de 1616. Uma vez na capital, logo iniciou os estudos no colégio jesuita de São Salvador (que depois deu o nome à cidade), até que - em março de 1623, aos 15 anos de idade - quando ouvia um sermão do padre Manoel do Carmo, parece ter sentifo forte apelo ou inclinaação para a vida religiosa, que seguiu, apesar da oposição de seus pais. Saiu de casa, entrou no colégio (na época sinônimo de estudos superiores), fez dois anos de noviciado e, finalmente, professou em 6 de Maio de 1625. Foi nessa altura que - apenas com 17 anos de idade, foi encarregado de redigir a carta annua ou relatório em latim, enviado anualmente a Roma, para a sede da Companhia de Jesus, fundada um século antes por Santo Ignacio de Loyola. Logo no ano seguinte seguiu para o Colégio de Olinda como professor de retórica. Ordenado em 1635, logo iniciou suas pregações, que revelariam um dos maiores gênios da oratória de todos os tempos, como Santo Antônio de Lisboa fora 4 séculos antes. E, depois de uma atribulada existência - que várias vezes o levou a Portugal, de onde partiu a cumprir missões diplomáticas por vários países da Europa - faleceu na Baía a18 de Julho de 1697, com quase 90 anos de idade.
PS-Os trabalhos do Prof. Antônio Abreu Freire - que no comando de um veleiro está percorrendo os caminhos de Vieira - inserem-se nas comemorações do 4º Centenário de nascimento do Padre Antônio Vieira.
(por José Verdasca, escritor português)
Na realidade, a oratória e a obra de Vieira impunham-se e impõem-se pela elevação e beleza de sua estilística, pela clareza e firmeza de suas construções retóricas e pelo humanismo e oportunidade de suas intervenções político-sociais, moralistas e moralizantes, em que tanto atacava a corrupção como defendia os oprimidos; nas quais ora pregava em favor dos índios ora contra os abusos dos senhores que os escravizavam; onde frequentemente condenava o luxo e a opulência dos poderosos para cotejá-los com a miséria e penúria dos miseráveis que produziam a sua riqueza, entre os quais frequentemente vivia, ensinava e pregava, com eles se identificando - não fosse ele próprio neto de uma escrava africana - e ainda com eles se comunicando em suas próprias línguas, pois falava 7 (sete) dialetos indígenas, nos quais redigia os catecismos de que se utilizava para a conversão e alfabetização de seus protegidos.
Quando iniciamos o estudo da vasta obra do Padre Antônio Vieira, logo sobressaem as múltiplas facetas deste brilhante e ainda mal conhecido português do Brasil, onde avulta e brilha o halo do pregador sacro sem igual, o texto do primoroso escritor, o sentimento do humanista e homem de ação sem paralelo, a um tempo defensor de índios e de negros, apologista da justiça e da liberdade, a par de uma firme postura contra os abusos da Inquisição, sem que nos possamos esquecer do "cientista social" e político desassombrado e atuante, ou do diplomata de grandes e nobres causas e batalhas, que nas cortes da Europa defendia com garra e brilho os interesses de sua e nossa Pátria. E, depois de tanto se ter servido do Verbo, da Dialética e da Retórica, não é de estranhar que a moderna língua portuguesa - saída do gênio e da pena de Luís de Camões - tivesse sido lapidada e consolidada pela fala, pela escrita - enfim pela voz - de Antônio Vieira, que, desse modo, conseguiu elevar a prosa em língua portuguesa à sua mais pura, elevada e brilhante expressão, à semelhança do que um século antes Camões tinha feito por meio de sua poética.
Estudar Vieira é ter que abordar os mais complexos problemas da Vida, para o que necessário se torna mergulhar fundo na Existência e na Essência do Ser Humano, em busca da Alma, do Espírito e dos mistérios que o Misticismo vem perseguindo ao longo dos milênios; na realidade, quando tentamos analisar criticamente a profundidade de temas e conceitos expressos em seus sermões, constatamos que - através deles - Vieira nos coloca em contato com os mais sérios problemas e fenômenos pessoais, sociais e existenciais de todos os seres, tempos e lugares, pois são de ontem, de hoje e de sempre tanto a justiça quanto a liberdade, tanto a ética como a fraternidade, tanto a paz como a igauldade perante a lei, tanto os desequilíbrios da Alma quanto os mistérios do Espírito, que devem constituir o objetyivo primeiro e último de todo o estudo sério e profundo, e a preocupação maior de todo o estudante, qualquer que seja a sua especialização acadêmica, a sua ideologia política ou até mesmo a sua crença religiosa. Essa talvez tenha sido a grande lição de Mestre Vieira, que nos deixou uma riquíssima obra literária do mais puro vernáculo, profunda e eclética, de grande beleza estética e de inigualável centelha ética, cujo estudo forma e engrandece, educa e esclarece, instrui e enobrece, eleva e enriquece, ao mesmo tempo que a sua leitura interessada e atenta encanta e delicia o estudante e o iniciado, o leigo e o formado, o sábio e o erudito.
Antônio Vieira - O Grande - foi realmente um intelectual eclético e um homem de ação polivalente, porquanto encarnou várias e ricas personagens no decorrer de sua atribulada e longa existência, tendo protagonizado, na vida real e com perfeição, as variadas e complexas funções de professor e pregador, de escritor e missionário, de diplomata e conselheiro real, de negociador e filósofo, tendo a todas elas emprestado o brilho de sua inteligência, o vigor de sua palavra, a integridade de seu carácter, o rigor de sua argumentação, a retidão de sua personalidade e o gênio de sua intuição, augustos atributos que - de tão raros em um só homem - o tornaram alvo dos mais repulsivos sentimentos de todos quantos, por inveja, despeito ou interesses feridos, se sentiam ameaçados, prejudicados e ou humilhados pela excelência de suas virtudes, pela grandeza de sua Alma ou pelo nobreza de seu proceder.
Muito naturalmente, o penetrante, eficaz, permanente e convincente instrumento de ação e comunicação de Vieira foi a linguagem falada - mais que a escrita - sempre apaixonada e eloquente, enérgica e convincente, inteligível e abrangente, certeira e inteligente, oportuna e comovente, com a qual cumpriu um longo e brilhante apostolado, sempre exercido desinteressadamente, quer se tratasse dos índios da Baía ou do Grão Pará e Maranhão, dos colonos de São Luís ou dos defensores da cidade do Salvador, da nobreza lisboeta ou dos bispos e cardeais romanos, da corte de D. João IV ou da cúpula do Vaticano. E nem mesmo se furtou a um brilhante tête à tête com o prelado Jerônimo Cataneo, quando, no palácio romano da Raínha Cristina da Suécia e na sua presença, foi desafiado a defender Heráclito, que sempre chorava, em contraposição a Cataneo, defendendo Demôcrito, que sempre ria. E de tal defesa nasceu a mais brilhante pequena-grande obra prima do nosso Príncipe dos Oradores Sacros, conhecida como "O Pranto e o Riso".
Senhor de insuperável gênio verbal, servido por um raciocínio dedutivo de lógica irretocável, a que devemos acrescentar uma dialética demolidora e construções retóricas empolgantes e convincentes, o talentoso Vieira manipulava a riqueza vocabular da nossa língua portuguesa com insuperável maestria, o que lhe permitiu atingir e exercer a sua inigualável expressão oral sem jamais sequer macular a pureza vernacular do idioma de Camões. Dele, dizia Fidelino de Figueiredo: "Vieira é um modelo de expressão, de relevo enérgico e de eloquência. Maravilha-nos que ele conseguisse tais efeitos, com um léxico tão reduzido, e uma sintaxe tão correntia...um inimitável mestre na arte de combinar valores comuns com efeitos novos e relevantes. Esse dom nasceu com ele e com ele morreu". Assim como Camões foi o grande artista que, à superior beleza estética de sua poética adicionou uma linguagem vibrante e arrebatadora, que tornaram "Os Lusíadas" um marco na história da poesia épica mundial, também - um século mais tarde - aos sermões de Vieira se ficou devendo a consagração definitiva do idioma luso, mercê da sua "lapidação" pela arte de bem arquitetar, e melhor falar e dizer do nosso talentoso jesuita.
Em Vieira encanta, comove e embriaga a beleza estética de sua parenática - enquanto arte de pregar ou eloquência oratória sacra - porquanto, nenhum outro pregador da Idade Moderna tão belos sermões pregou e disse, tão brilhante e convincente foi, tanto ousou e ou tão longe chegou na beleza sermonária, mas, acima de tudo, tantas paixões extravasou e despertou, como o amado Paiaçu (Padre ou Pai Grande) dos índios do Grão Pará e Maranhão, aos quais também muito amou, e ainda mais defendeu e protegeu contra os abusos, injustiças e violências dos esclavagistas da época, os quais - tudo tentando e nada podendo fazer contra a força de sua palavra - acabaram por expulsá-lo e expatriá-lo para Portugal, bem como aos seus auxiliares diretos. E foi só recorrendo a esse ato de força e violência, que os senhores de São Luís do Maranhão conseguiram ver-se livres do defensor da liberdade dos índios seus escravos, da moralidade da sociedade local, das injustiças do Poder.
Da grandiosa, vasta, rica e erudita obra de Antônio Vieira, sobressaem naturalmente "Os Sermões", os quais - por serem empolgantes e comoventes peças de oratória acentuadamente barrocas - resplandecem como brilhantes, entre todas quantas conhecemos do século XVII. Neles - onde metáforas e alegorias são muitas vezes magistralmente incluídas, de modo a enriquecer e ilustrar imagens e conceitos - tais artifícios de linguagem oratorial, de incisivo e elegante estilo, causavam imediato e profundo impacto no auditório, revelando-se de clarividente oportunidade, obra de aguda sensibilidade, e prova da enciclopédica erudição de Vieira, a que o esfuziante brilho da sua palavra dava o toque final de arrebatamento que a todos os seus ouvintes envolvia. Para tanto, servia-se o nosso orador das passagens e revelações dos Sagrados Livros, devidamente embasados em exemplos ilustrativos de seu dia-a-dia, a tornar mais concretas as suas prédicas, mais realistas as suas imagens, mais convincentes os seus relatos.
Entre os cerca de 220 (duzentos e vinte) sermões que proferiu e nos deixou, contam-se 30 alusivos ao Rosário, 25 relativos à Quaresma, 18 sobre São Francisco Xavier (o grande jesuita apóstolo das Índias), 14 acerca da Eucaristia, 9 invocando o nosso Santo Antônio de Lisboa, oito abordando o lava-pés, 7 reportando o Advento, 4 referenciando São Roque, e 3 descrevendo a Quarta Feira de Cinzas, além de outros sobre a Páscoa, o Espírito Santo, o Santíssimo Sacramento, o Pentecostes, Ação de Graças, e Misericórdias, uns mais outros menos conhecidos, mas todos belas, magistrais e eloquentes peças da mais fina oratória de todos os tempos. E, para não passarmos em brancas núvens por tantas e tão instrutivas peças, transcrevemos uma passagem de elevada concepção artística, onde Vieira arquiteta - de forma sublime - a ideia da obra missionária, cotejando-a com a arte do estatuário, em seu sermão ao Espírito Santo:
" Vêde o que faz em uma pedra a arte. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas - tosca, bruta, dura, informe - e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homemj, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá recama, e fica um homem perfeito, talvez um santo que se pode pôr no altar. O mesmo será se, à vossa industria, não faltar a graça Divina.".
Já aqui fizemos referência à "pequena-grande obra prima" do Padre Antônio Vieira que é "O Pranto e o Riso", apresentada na Academia sediada no palácio da Rainha Cristina da Suécia, que então residia em Roma, em 1674, quando o insigne jesuita aceitou defender o pranto ou choro de Heráclito (que sempre chorava), contra o riso de Demócrito (que sempre ria). Eis algumas passagens daquele que será o menor, mas, talvez um dos mais brilhantes pronunciamentos do nosso pregador: "...Entrando, pois, na questão de se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri - como ria Demócrito - ou quem chora - como chorava Heráclito - eu, para defender a parte do pranto, como sou obrigado, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a primeira propriedade do racional é o risível; e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o pranto é o uso da razão.
"Demócrito ria sempre; logo nunca ria; Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo...segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso...não pode haver riso que se não origine de causa que agrade...
"Heráclito chorava, mas por outro modo; há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso; chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de dor maior; e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva; a dor moderada solta as lágrimas, a grande as enxuga, as congela, as seca; dor que pode sair pelos olhos não é grande dor, por isso não chorava Demócrito; e como era pequena demonstração da sua dor não só chorar com lágrimas, mas ainda sem elas, para declarar-se com o sinal maior, sempre ria...".
Nasceu António Vieira em Lisboa, a 6 de fevereiro de 1608, sendo filho de Maria d`Azevedo e Christovam Vieira Ravasco, tendo sido batizado a 15 do mesmo mês na Catedral da Sé; no final de 1615 seguiu para a Baía com sua família, tendo-se salvo de um quase naufrágio nos baixios da Paraíba em 20 de Janeiro de 1616. Uma vez na capital, logo iniciou os estudos no colégio jesuita de São Salvador (que depois deu o nome à cidade), até que - em março de 1623, aos 15 anos de idade - quando ouvia um sermão do padre Manoel do Carmo, parece ter sentifo forte apelo ou inclinaação para a vida religiosa, que seguiu, apesar da oposição de seus pais. Saiu de casa, entrou no colégio (na época sinônimo de estudos superiores), fez dois anos de noviciado e, finalmente, professou em 6 de Maio de 1625. Foi nessa altura que - apenas com 17 anos de idade, foi encarregado de redigir a carta annua ou relatório em latim, enviado anualmente a Roma, para a sede da Companhia de Jesus, fundada um século antes por Santo Ignacio de Loyola. Logo no ano seguinte seguiu para o Colégio de Olinda como professor de retórica. Ordenado em 1635, logo iniciou suas pregações, que revelariam um dos maiores gênios da oratória de todos os tempos, como Santo Antônio de Lisboa fora 4 séculos antes. E, depois de uma atribulada existência - que várias vezes o levou a Portugal, de onde partiu a cumprir missões diplomáticas por vários países da Europa - faleceu na Baía a18 de Julho de 1697, com quase 90 anos de idade.
PS-Os trabalhos do Prof. Antônio Abreu Freire - que no comando de um veleiro está percorrendo os caminhos de Vieira - inserem-se nas comemorações do 4º Centenário de nascimento do Padre Antônio Vieira.
(por José Verdasca, escritor português)
Vieira - vida, época, filosofia e obras
Um texto de Rubem Queiroz Cobra, Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia
Vida
Examinemos a vida e obra do Padre Antônio Vieira, figura síntese de sua época, sob os seguintes aspectos: sua formação escolástica; sua fidelidade ao absolutismo; seu envolvimento com o problema da perseguição aos judeus e cristãos novos e da escravidão tanto dos africanos, na Bahia, como dos índios, no Maranhão; sua fé romântica típica do sebastianismo; seu problema pessoal com a Inquisição, e seu pensamento filosófico. Missionário jesuíta, orador, diplomata, mestre da prosa portuguesa clássica, teve papel importante em ambas a história portuguesa e brasileira; seus sermões, cartas e papeis oficiais constituem um valioso índice do clima das opiniões no século 17 no mundo luso-brasileiro.
Primeiros anos
Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, e faleceu em Salvador, em 1697. Era filho de Cristóvão Vieira Ravasco, mulato, e de D. Maria de Azevedo. Estava Portugal sob domínio espanhol. Em 1578 o rei D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, na África, onde os mouros derrotaram os portugueses. Não tendo herdeiros, o trono passou para seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que, já velho, morreu em 1580. Filipe II, rei da Espanha, por ser neto de D. Manuel o Venturoso pelo lado materno (Era filho de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano, e de Isabel de Portugal, filha de D. Manuel), assumiu o trono português. O Império Espanhol passou então a incluir Portugal e as possessões portuguesas, até a revolução que restaurou o trono português em 1640.
O pai de Antônio Vieira fora empregado em casa de D. Fernão Telles de Menezes, conde de Unhão, o qual foi tomado para seu padrinho. Em casa dos condes de Unhão havia trabalhado também o avó paterno de Vieira, Baltazar Vieira Ravasco. Esse avô era branco, natural da vila de Moura, mas, quando empregado em casa dos Condes, enamorou-se de uma serviçal mulata da mesma casa, que foi a avó paterna de Vieira. Dizem os biógrafos que o romance motivou que ambos fossem despedidos. Perguntado na Inquisição sobre seus antepassados, mais tarde, com 55 anos, Vieira disse nada saber dessa sua avó paterna.
O avô pelo lado da mãe, Dona Maria de Azevedo, era pessoa influente, Brás Fernandes de Azevedo, cristão velho. Este conseguiu para o genro nomeação para escrivão dos agravos da Relação da Bahia, logo que esse tribunal foi instituído. Isto motivou a vinda do pai de Vieira para o Brasil em 1609. Deixou em Portugal a mulher e o filho, para busca-los três anos depois, em 1614, estando Vieira com seis anos.
Vieira teve um irmão e duas irmãs: Bernardo Vieira Ravasco, que ele declarou, quando inquirido no Tribunal da Inquisição, ser alcaide-mor da cidade de Cabo Frio do estado do Brasil, e secretário de estado e guerra do mesmo Brasil, solteiro.Nasceu e faleceu na Bahia (1617-1697), foi Comendador da Ordem de Cristo e teve vasta influência na Colônia; Dona Leonarda de Azevedo casada com o Doutor Simão Alves de Lapenha desembargador dos agravos de Sua Majestade e Cavaleiro do hábito de Cristo. Essa irmã morreu com o marido e os filhos em um naufrágio quando viajavam para Portugal -, e Dona Maria de Azevedo que ele declarou solteira, mas que casou depois com Jerônimo Sodré Pereira. Esses irmãos eram brasileiros, naturais e moradores da cidade da Bahia.
Teve mais as irmãs Catarina Ravasco de Azevedo, mulher do Sargento-mor Rui Carvalho Pereira, falecida sem descendência, e Inácia de Azevedo Ravasco que foi casada com Fernão Vaz da Costa Dória
Vieira foi educado no Colégio Jesuíta da Bahia. O ensino tradicional jesuítico compreendia retórica, filosofia e teologia. Para aguçar em cada aluno o poder de argumentação os jesuítas estimulavam debates sobre temas os mais extravagantes: O que Deus fazia antes da criação do mundo, se poderia criar outros mundos mais perfeitos que o nosso, se as almas das plantas e animais são divisíveis, qual era a estatura da Virgem Maria, etc. Este tom argumentativo, dialético, permeia os sermões de Vieira como um sestro que ficou dos tempos de estudante. Seu professor de filosofia foi o Padre Paulo da Costa.
Manifestando seu desejo de entrar para a ordem jesuítica, Vieira teve a franca oposição dos pais. Fugiu de casa à noite para o colégio, onde o reitor o acolheu sem hesitação, por saber o que sua inteligência prometia. No dia seguinte, ano de 1623, iniciou seu noviciado, contando então quinze anos. Levaram-no para a aldeia do Espírito Santo onde os padres doutrinavam os indígenas, a sete léguas da cidade, para distanciá-lo da família inconformada.
Juventude na Bahia
Vieira ainda era um noviço quando, em 1624, ocorreu a invasão da Bahia pelos holandeses.
Em 1581 a Holanda havia proclamado sua independência, libertando-se do domínio da Espanha. Em represália, Filipe II fechou todos os portos portugueses e espanhóis aos navios holandeses. Essa medida constituiu um violento golpe na economia holandesa, que controlava o transporte, o refino e a distribuição do açúcar brasileiro na Europa. Para superarem esse obstáculo, os poderosos comerciantes holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais para a conquista dos mercados produtores, no caso o Nordeste Brasileiro (Bahia e Pernambuco).
Quando a armada da Companhia das Índias Ocidentais chegou em maio a Salvador o povo fugiu para os matos, grande parte dos habitantes de Salvador se dispersou pelas aldeias dos índios, sob a direção dos padres jesuítas. O governador geral Diogo de Mendonça Furtado foi preso e embarcado para a Holanda. Assumiu interinamente o governo D. Marcos Teixeira, quinto bispo do Brasil, que adotou a forma de guerrilha para combater o invasor.
Essa tática terminou por dar resultado e no ano seguinte, 1625, chegou a esquadra espanhola e retomou a cidade. Os holandeses se renderam e quando, pouco depois, chegou uma esquadra holandesa para reforço, nada mais pode fazer. Todas as propriedades holandesas (navios, ouro, etc.) foram confiscadas e receberam navios e mantimentos apenas suficiente para partirem de volta para a Holanda.
Vieira contava apenas 16 anos, e já conhecia latim tão admiravelmente que os padres o encarregaram de relatar o acontecido na *Carta anua para o Geral da Companhia em 1626, a primeira escrita após a interrupção de dois anos ocorrida naqueles tempos anormais. Relembrando a noite da invasão, diz o jovem noviço: "Mas quem poderá explicar os trabalhos e lástimas desta noite? Não se ouviam por entre as matas senão ais sentidos e gemidos lastimosos das mulheres que iam fugindo; as crianças choravam pelas mães, e elas pelos maridos, e todos, segundo a fortuna de cada um, lamentavam sua sorte miserável".
Encerrados os dois anos do noviciado vividos no período da invasão, Vieira fez os votos simples de pobreza, obediência e castidade e passou de imediato ao treinamento pedagógico a que os candidatos às ordens sacras estavam obrigados na Companhia de Jesus. Em 1627 está em Olinda, lecionando retórica no colégio jesuíta. Mas logo é chamado de volta à Bahia, com certeza pela falta sentida de seus préstimos. Somente em 1634 seria ordenado padre, e diz seu biógrafo J. Lúcio de Azevedo que nada se sabe do período que precedeu à sua ordenação.
Ordenado padre, as ocupações Vieira são o magistério no colégio e nas aldeias indígenas, e a pregação. Seu primeiro sermão foi pronunciado na Quaresma de 1633, antes de receber as ordens. Em 1635 escreveu o seyu livro "Curso Filosófico" adotado no Colégio todo o século XVIII. Cedo apareceu como erudito e como orador eloqüente. Alguns de seus sermões mais enérgicos sobre a guerra holandesa e situação dos escravos foram feitos na Bahia. Em 1638 os holandeses, vindo de Pernambuco, tentaram tomar Salvador pela segunda vez, mas não conseguiram. Com o invasor às portas, em número de 3.400 soldados comandados por Maurício de Nassau, Vieira usou, para o sermão na igreja de Santo Antônio, no dia do santo, o versículo do Livro dos Reis: "Porque eu defenderei esta cidade, para salva-la, por mim próprio por meu servo David".
O irmão de Vieira foi ferido nas lutas pela recuperação de Itaparica. Após um sítio de 40 dias que logrou impor à cidade, a tropa assaltante teve de retirar-se.
Vieira trabalhou entre os escravos índios e negros até 1641, quando foi incumbido de levar congratulações ao Rei D. João IV em sua ascensão ao trono.
A primeira viagem à Europa
D. João IV (reinou 1640-1656), nascido em 1604, era duque de Bragança. Subiu ao trono na revolução vitoriosa contra os espanhóis em 1640. Pertencia à casa de Avis que reinara antes dos 60 anos de domínio espanhol, fundando assim a dinastia dos Bragança.
O vice-rei do Brasil, tendo de enviar seu filho D. Fernando à Metrópole, a levar a adesão da Colônia a D. João IV, fá-lo acompanhar de dois jesuítas, o Padre Vieira e outro religioso também ilustre, o padre Simão de Vasconcelos, que seria depois afamado cronista da Ordem.
A luta dos portugueses contra o domínio espanhol, - esclarece Lúcio de Azevedo -, fora sustentada por um civismo místico, com fundamento em profecias de Bandarra, um sapateiro inspirado, que desde 1540, em um livro de trovas, consignara os destinos de Portugal. Dos solares dos fidalgos às escolas onde as crianças rudes do povo aprendiam, o Bandarra era o livro de leitura e a bíblia do patriotismo. Nada contribuiu tanto para manter vívida a esperança na redenção do estrangeiro. Suas profecias de grandeza esperava-se que se concretizariam com a volta de D. Sebastião, que se supunha ainda vivo, pois ninguém o vira morrer na batalha em África. Porém, torcidas, reinterpretadas, falseadas onde foi necessário, aplicaram-se aos fatos da restauração. O Encoberto, o rei desconhecido de que falavam os vaticínios, podia muito bem ser D. João, o Duque de Bragança.
Assim se preparou o ambiente em que brotou a revolução pela restauração da monarquia portuguesa. Restaurado o trono, ao Bandarra tributaram-se grandes honras. O próprio D. João IV aceitava a designação de "O Encoberto", como sagração de sua realeza pela intenção divina.
A essa crença aderiu também Vieira. Seu companheiro de viagem, o Padre João de Vasconcelos, compunha a "Restauração de Portugal", apologia mística do rei aclamado, coligindo ali as maravilhas e profecias que justificavam o ato revolucionário e foram a principal razão dele. Nas suas pegadas, Vieira escreverá *Quinto Império do Mundo e *História do Futuro.
Conselheiro do Rei
Ao cabo de aventurosa viagem com destino a Lisboa, o jovem fidalgo e os dois religiosos foram obrigados a desembarcar em Peniche devido a uma tempestade que desarvorou a nau, e ali um mal entendido os levou à prisão, tomados por contra-revolucionários aderentes do governo espanhol. No dia seguinte, desfeitos os equívocos, partiram para Lisboa.
Recebidos pelo Rei, no mesmo instante Vieira conquistou a simpatia do monarca que, com certeza, percebeu logo o quanto Vieira lhe poderia ser útil. Tinha Vieira não apenas conhecimento dos assuntos do Brasil, como sabia muito da psicologia do inimigo holandês.
Vieira está em Lisboa com 33 anos de idade. Sua fama no Brasil já alcançara Portugal. Começa a pregar na Igreja do seu Instituto - S. Roque. Lisboa invadia a igreja para ouvi-lo. Convidado a pregar para o Rei, Vieira pregou pela primeira vez na Capela Real no dia do Ano Bom de 1642. O Rei tornou-se admirador da personalidade magnética e segura de Vieira e passou a olhar o jesuíta alto, magro e dinâmico como "o maior homem do mundo".
Cada vez mais íntimo da família real, estimado pela conversação inteligente e manifestamente clara compreensão dos negócios do Estado, em pouco tempo Vieira dava o voto mais autorizado e decisivo em importantes negócios de Estado. A essa ajuda na qualidade de conselheiro, juntava-se outra ainda mais preciosa. Era tão aflitiva a situação do reino que nos sermões cabia alertar o povo sobre tudo que fosse interesse da pátria, pois não havia meios de comunicação senão as prédicas e o que se noticiava de boca em boca.
Vieira pelo concurso de ouvintes e influência da sua palavra, colocava-se inteiramente a serviço do rei e até a favor dos impostos chama à responsabilidade os cidadãos. Fazia sua exortação ao patriotismo paralelamente com a exortação moral em que os negócios mais graves do Estado saiam a lume, e através de alegorias da Bíblia analisava atos do governo e a conduta dos homens públicos. Quando necessário, nem o próprio soberano, figura sagrada para o povo, escapava às admoestações e à censura. "Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos ha de pedir estreita conta do que fizestes."
Completados os 35 anos, Vieira ainda não era jesuíta professo. Faltava-lhe fazer o quarto e último voto, o de obediência ao Papa, que, segundo Lúcio de Azevedo, professou em 26 de maio de 1644.
Missões e empenho pelos cristãos novos
Entre 1646 e 1650 Vieira esteve engajado em missões diplomáticas na Holanda, França e Itália, com os mais variados misteres. A mais relevante foi com certeza a do acordo entre Portugal e Holanda. A Holanda queria uma indenização por ter perdido Pernambuco, mas que intentava reconquistar. Preparou uma nova frota para ir ao Brasil a qual, para felicidade de Portugal, se desmantelou no Atlântico devido a forte tempestade. O ponto dificultoso das negociações era a fiança que haveriam os holandeses de pedir pela mora, até se realizar cinco ou seis anos mais tarde o pagamento final.
Aqui se oferece a Vieira ensejo de renovar seu empenho em favor da gente hebraica. Ele havia apresentado em 1643 uma exposição de motivos ao Rei, na qual argumentava que o reino estava em estado miserável depois do domínio espanhol (que não defendera as colônias de Portugal permitindo que a Holanda se apoderasse de boa parte delas) e que era um contra-senso a perseguição aos judeus. Dizia "Por estes reinos e províncias da Europa está espalhado grande número de mercadores portugueses, homens de grandíssimos cabedais, que trazem em suas mãos a maior parte do comércio e riquezas do mundo. Todos estão desejosos de poder tornar para o Reino...Se Vossa Majestade for servido de os favorecer e chamar, será Lisboa o maior império de riquezas..." Dizia mais que todos os países viam a miséria de Portugal. Nenhum país colocara embaixada no Reino restaurado e que o desprezo era tanto que o Papa não recebeu o embaixador português.
A volta dos judeus, além de enriquecer Portugal, haveria de enfraquecer o inimigo que deles se valiam com grande vantagem, porque na Espanha, judeus portugueses estavam cuidando da administração da fazenda real e emprestando ao monarca espanhol muitos milhões enquanto não chegavam as frotas com o ouro da América. "E o mesmo sucederá na Holanda, cujas companhias, que nos tem tomado quase toda a índia, África e Brasil, vivem em boa parte à custa da finança judaica portuguesa". E lembra ainda os exemplos da França e da própria Roma, "onde se permite a existência de sinagogas com seu culto". E porque se permitia no reino de Portugal comerciantes protestantes de várias nacionalidades e não se permitiam comerciantes judeus?
A Companhia de Jesus considerava imprudente e comprometedor o empenho de Vieira. O Rei, escreveu uma carta (1644) ao Provincial da Companhia recomendando que não fosse maltratado Vieira por motivo de suas idéias.
Seu plano no negócio com a Holanda, como um desdobramento da representação antes feita, era que dos cristãos novos poderiam vir a dar a fiança necessária ao acordo.
De volta de Paris onde fora tentar o apoio do governo francês para as negociações com a Holanda, Vieira deteve-se em Ruão para consultar os cristãos novos portugueses ali residentes. Além da questão dos créditos que buscava para o reino, Vieira empenhou-se com os judeus sobre o projeto de os restituir à pátria. Naquela cidade florescia então, com o consentimento tácito das autoridades, o judaísmo, e era ela, quase tanto como Holanda, refúgio dos hebreus portugueses.
Uma vez na Holanda entrevistou-se também com os judeus de Amsterdã e lhes fez promessas como aos de Ruão, no sentido de trabalhar para que fossem favorecidos com mercês régias os cristãos novos.
Homem preocupado com todos os assuntos que dissessem respeito a Portugal, Vieira, estava também empenhado em que Portugal reformasse os velhos galeões e adquirisse navios modernos para a sua frota. Aconselhara o rei a comprar quinze fragatas armadas, que em Holanda se ofereciam ao preço de vinte mil cruzados cada uma. Alguns desses navios foram adquiridos por intermédio do embaixador em França e ele próprio levou encargo para outros, quando no ano seguinte voltou à Holanda, para o que obteve de dois importantes negociantes cristãos novos os recursos necessários.
Sentindo o apoio firme de D. João IV, tomou Vieira a iniciativa de defender os judeus contra a Inquisição que lhes confiscava os bens antes mesmo de encontrar-lhes culpa formada..
D. João IV não podia desfazer as penas impostas ao crime de heresia pelo direito canônico, nem intervir na jurisdição do Santo Ofício. Com certeza por inspiração de Vieira, assinou um alvará que solucionava a questão, ou seja, que os cristãos novos não perdessem os seus bens quando detidos pelo Tribunal por culpas inventadas por inimigos seus. D. João se comprometia a devolver aos cristãos novos aquilo que lhes fosse confiscado, pois embora a condenação fosse feita pela Igreja, os bens confiscados destinavam-se ao Estado, deduzido pela Inquisição o necessário para sustento da sua máquina e liturgia.
O Santo Ofício protestou contra tal abolição perante o Rei e recorreu ao Papa. Os inquisidores obtiveram do Papa um breve pontifício restabelecendo o confisco. Quando apresentaram o documento a D. João IV, este argumentou que, como quem ia ficar com os bens confiscados era ele, o monarca, ele podia perfeitamente, como proprietário, devolve-los aos seus donos. Assim conseguiu manter a resolução.
Ao mesmo tempo foi criada uma companhia portuguesa para exploração das colônias com liberdade para participação de capital judeu. Inscreveram-se os cristãos novos mais ricos. Duarte da Silva, que dera o crédito para os navios de Holanda, e que em seguida fora preso pela Inquisição, estava agora com os bens desembaraçados em virtude da nova lei, reuniu-se a muitos outros, juntando-se enorme capital.
A Inquisição: primeira investigação
A inquisição, como era natural, revoltou-se, e Vieira estava publicamente comprometido com a o projeto. O caso produziu escândalo em toda a parte no país. Os amigos da Inquisição, que eram os inimigos dos cristãos novos, juntos aos inimigos de Vieira, que eram muitos, não cessavam de publicar a sua indignação. Pode-se afirmar que foi nesse tempo Antônio Vieira o homem mais aborrecido em Portugal. Uns o apodavam de traidor, por que sugeriu ao rei entregar Pernambuco aos holandeses em troca da paz, quando a questão dos fiadores parecera sem solução. Outros o infamavam de herético, por tentar restabelecer as sinagogas no reino.
Ora, o quanto acabrunhado devia andar Vieira é fácil de imaginar. Afinal, era de se esperar que Holanda fosse um país amigo de Portugal, porque também havia lutado contra a Espanha para firmar sua soberania Se havia atacado e montado um enclave no Brasil, o fizera exatamente porque era um ato hostil à Espanha herdeira do reino e das colônias portuguesas no processo de sucessão de D. Sebastião. Valia muitíssimo a pena ter novamente Holanda por aliada contra a Espanha, garantindo assim a paz e segurança de todo o império português que se desejava restaurar e fortalecer. Que isto custasse deixar os Holandeses em paz no Pernambuco, havia parecido ao estadista, a certa altura dos acontecimentos, um preço muito razoável. Quanto aos judeus, Vieira estava tão certo que, ainda hoje, não se compreende como pôde Portugal agir com tanta insensatez, expulsado de seu território justamente aqueles que haviam desenvolvido o seu comércio e haviam feito de Lisboa o mais importante porto comercial do Atlântico.
Os Inquisidores então passaram a reunir "denuncias" contra Vieira: uso de livros proibidos trazidos do estrangeiro; proposições como a da conveniência de consentir em Lisboa, como se consentia em Roma, o funcionamento de sinagogas, e várias repetições, pelos denunciantes, de afirmações muito conhecidas de Vieira a respeito de que se desse tratamento diferentemente a judeus e a judaizantes. Apesar de serem posturas conhecidas, ganhavam com a denuncia o caráter de novidade indispensável para criar assombro e escândalo tardio. Nada foi apurado que realmente fundamentasse um processo, mas as investigações estimularam entre os jesuítas àqueles que não compreendiam Vieira ou o hostilizavam gratuitamente.
Seus adversários em sua própria Ordem acusaram-no de hábitos mundanos, adquiridos nas missões diplomáticas, do vestuário secular que usou em lugar da batina, e de ter a seu serviço um criado que Vieira pagava para lhe facilitar a vida apertada de compromissos por toda a parte. Denuncias e queixas repetiram-se em Roma, e tantas foram que o Geral determinou fosse Vieira expulso da ordem. O Geral porem voltou atrás, quando o Provincial em Portugal informou que o rei, determinara que nada se fizesse, pois afastaria Vieira da Corte concedendo-lhe uma diocese. Mais surpreendente ainda a resposta de Vieira ao soberano, dizendo que não trocaria sua batina de missionário nem por todas as dioceses de Portugal.
Apesar de ocupado com os negócios em que era chamado a opinar ou de que era incumbido por em marcha, Vieira não abandona o púlpito nem suas obrigações religiosas, nem deixa a morada com os companheiros jesuítas. Sem dúvida lhe custava tempo a preparação de seus apreciados sermões cujas citações a filósofos, à mitologia, etc., lhe custavam estudos. Diz Lúcio de Azevedo que ante a submissão do acusado, e a atitude de franca proteção que adotara o soberano, a sanha dos acusadores afrouxou. A pena foi suspensa e depois definitivamente anulada.
Exausto talvez de tantos esforços em maquinar meios de garantir a sobrevivência da monarquia portuguesa, - mesmo que fosse às custas de casar o herdeiro português com a princesa espanhola, com a condição de que a capital do reino fosse Lisboa, e dentro da perspectiva de que esse casamento faria o príncipe português herdeiro dos dois tronos -, decide que é o momento de voltar ao Brasil.
Não que lhe faltasse a amizade do rei e do príncipe herdeiro D. Teodósio. Recebe ainda uma missão de acompanhar à Inglaterra o novo embaixador português, porém a recusa. Na data de seu embarque para o Brasil, depois de despedir-se do Rei, este tentou sustar sua viagem mandando ordem ao capitão do navio para não admitir Vieira a bordo. Pelo que diz o seu biografo sobre os pormenores de seu embarque, esse gesto do Rei possivelmente o lançou em dúvida quanto a realmente seguir para o Maranhão. Mas decidiu-se de vez e embarcou na primeira oportunidade, dois meses depois. Em janeiro de 1653, desembarcou Vieira em São Luís do Maranhão como superior dos missionários jesuítas.
Volta ao Brasil: Missão no Norte
Na caravela em que não embarcara Vieira, haviam chegado antes dele ao Maranhão não apenas os padres dos quais ele seria o provincial, mas também um novo capitão mor que trazia carta do rei alforriando todos os índios da província. Por falta de escravos pretos, eram os índios os escravizados para os trabalho nas fazendas e na cidade. Aguardou-se a chegada de Vieira para a publicação da lei. Quando o porteiro saiu a apregoar a determinação real ao som do tambor, o povo afluiu à Câmara em protesto. A libertação dos índios causaria a perda econômica que seria fatal para a província. Atribuíram aos jesuítas haverem conseguido aquela lei dada pelo monarca e se indignaram contra os padres, clamando expulsão e mesmo morte, para Vieira e seus companheiros.
Vieira habilmente encontrou a solução que apaziguou momentaneamente os ânimos. Propôs que aqueles índios que eram legalmente escravos fossem assim mantidos, mas aqueles mantidos ilegalmente em cativeiro fossem daí por diante pagos como trabalhadores livres. Como os colonos não tinham propósito algum de pagar, aceitaram satisfeitos a solução e voltaram com seus índios para suas fazendas onde a situação dos silvícolas continuou a mesma.
Desde a chegada desejou Vieira que as aldeias fossem, como na Bahia, entregues à direção dos missionários, e pôs logo seu cuidado em visita-las. Tarefa penosa, pelos descômodos e fadigas que impunha; as milhares de picadas de mosquito dia e noite, o que, porém, ele aceitava de bom grado, pelos frutos que esperava de tantos trabalhos e privações. Seu zelo levou-o até o Pará onde, com alguns padres, navegou em canoas com extraordinário risco para avaliar a potencialidade da província a seu cargo para o ministério jesuítico.
A questão dos índios não chegava por nenhum dos lados a solução aceitável: nem os colonos desistiam do sistema de escravidão que tinham instituído; nem os jesuítas deixavam o propósito de lhes subtrair, ou pelo menos limitar, o domínio sobre os silvícolas cristianizados.
Achando-se os jesuítas acuados e limitados pelo poder dos fazendeiros, decidiu Vieira com seus companheiros que iria ele a Portugal tratar as questões com o rei.
A segunda viagem a Portugal. Em breve visita a Portugal de 1654 a 1655 ele obteve decretos protegendo os índios da escravidão e um monopólio para os jesuítas na proteção dos índios.
Viagem atribulada, o barco enfrentou uma tempestade quando já próximo aos Açores, chegando a virar sobre um dos bordos, salvando-se por reconhecido milagre a tripulação e passageiros. Um pirata holandês os encontrou, confiscando a carga de açúcar que levavam, mas deixando-os em segurança no porto da Graciosa. Com o dinheiro que havia manejado esconder, Vieira comprou roupas e comestíveis para todos e meios para continuarem para Lisboa. Ficou nas ilhas por mais de dois meses até partir para Lisboa em um navio inglês.
Em Lisboa voltou a pregar na Capela Real, com outros pregadores reais. Seu tema era principalmente a corrupção dos políticos, de cujos efeitos acabava de sofrer no Brasil. O rei que andara doente à época da chegada de Vieira, em nada se sentiu atingido pelo cáustico moralista, e atendeu plenamente às reivindicações que lhe apresentou Vieira. Foi instituída administração conjunta do Pará e Maranhão, o que deveria minorar os problemas enfrentados pelos jesuítas e, mais ainda para satisfação de Vieira, caberia a André Vidal de Negreiros, herói pernambucano na luta pela libertação de Pernambuco, e que já estava nomeado para o governo do Maranhão, governar conjuntamente as duas províncias.
Reunidos o futuro governador, Antônio Vieira e altos funcionários, assentou-se o regime definitivo dos índios livres, em um estatuto próprio que fixava o quando deveriam receber como salário mínimo pelo seu trabalho, e outras disposições solicitadas pelos jesuítas no sentido de proteger os silvícolas. André Vidal partiu em 1654 e Antônio Vieira algum tempo mais tarde. O rei o proibiu de embarcar mas, tendo Vieira lhe proposto que ouvissem a opinião dos jesuítas sobre ficar ele em Lisboa ou retornar ao Brasil, e tendo esses decidido, por maioria, que seria melhor para a Ordem que retornasse ao Brasil, o soberano aquiesceu em autorizar sua partida.
Sedição do Maranhão
No norte, as lides de Vieira voltaram a ser as viagens visitando as aldeias, ensinando e pregando, algum tempo lhe estava ainda para o devaneio.
Em janeiro de 1661, no Pará, a Câmara representou aos missionários pedindo com urgência que se pudesse com urgência arregimentar índios no mato, para o trabalho escravo, Rebateu Vieira dizendo que as causas dos problemas econômicos eram bem diversos
Entretanto surgiu novo conflito, suscitado por uma imprudência de Vieira, do qual tiraram seus opositores grande partido. Foi o caso do chefe da aldeia de Maracaná, a cargo dos jesuítas, no Pará. O índio vivia em concubinato com uma cunhada, um mal exemplo que os padres queriam suprimir. Vieira escreveu-lhe uma carta amável, solicitando que viesse ao colégio onde, chegando, foi desarmado e preso em ferros em uma cela, passando depois ao calabouço do forte de Gurupá. Ao protesto dos índios seguiu-se o da câmara, associando-se a ele as ordens monásticas. O escândalo uniu os padres de outras ordens aos colonos e no inquérito a que se procedeu pelo Ouvidor Geral, em São Luís, os prelados do Carmo, S. Antônio e Mercês, que chegavam do Pará, depuseram em concordância com a representação dos índios.
Ao declarar-se a sedição no Maranhão, Antônio Vieira fazia caminho de Belém a S. Luís. Já próximo da cidade, recebeu carta do governador colocando-o a par da revolta e recomendando que não entrasse em São Luís. Pôs se de volta a Belém onde pretendia acalmar os índios para que não fugissem para os matos, assustados com as notícias que se espalhavam .
Menos de um mes passado, também no Pará rebentou a comoção contra os padres. Como em São Luiz, também em Belém o povo assaltou o colégio e pôs em custódia os jesuítas. Antônio Vieira ficou apartado dos companheiros em uma pequena igreja . Uma índia, Mariana Pinto, que depois foi irmã, conseguia passar a Vieira alguma ligeira refeição, até que entre homens armados o embarcaram para São Luís. Da canoa foi transposto para a caravela que, em 1661 levou todos os padres para a Europa. Vieira não descansava nunca; nesta viagem compôs e proferiu um dos seus mais belos sermões, o do Rosário, que fez ouvir, no domingo 9 de outubro, a seus companheiros na aventura marítima, gente de bordo e passageiros.
Terceira viagem à Europa
Em 1661, Vieira foi expulso para Portugal. Deteve uma situação a ele favorável na Corte, mas que depois reverteu-se inteiramente em contrário. Falecido D. João IV em 1656, e porque falecera também D. Teodósio, primeiro na ordem da sucessão, sucedeu ao pai D. Afonso VI, com 13 anos de idade, sob regência de sua mãe, Da. Luiza de Gusmão (1656-1683). A rainha regente era contrária a entregar o reino a esse filho por sua notória incapacidade para governar; era a favor de que fosse aclamado o irmão mais moço, D. Pedro.
Vieira encontra seu lugar na corte, como em épocas passadas, mais ainda quando a regente, no embate das intrigas e paixões em que a corte refervia, tanto necessitava do conselho e auxílio de homem tão experimentado como o missionário recém chegado do Maranhão. Vieira que muito bem conhecia a vida desregrada do jovem príncipe, pois que toda preparação para reinar havia sido dada a D. Teodósio, coloca-se ao lado da rainha.
Porém já no ano seguinte, em 1662, alguns nobres amigos do herdeiro se puseram a seu lado e o levaram a estabelecer seu governo em Alcântara. Diante desse golpe, não teve outra alternativa a rainha senão passar a D. Afonso os selos do Estado. Os partidários de D. Pedro foram punidos, e Vieira que foi desterrado para o Porto.
Nesse mesmo ano a princesa Catarina de Bragança, irmã de D. Afonso, casou com Carlos II da Inglaterra. Em troca de um rico dote, e de favoritismo comercial, a Inglaterra forneceu armas e soldados para a guerra contra a Espanha. As defesas portuguesas foram então organizadas por um militar alemão, Friedrich Hermann von Schönberg.
Afonso VI era considerado débil mental, e o país governado por Luiz de Vasconcelos e Souza, conde de Castelo Melhor até 1667. Em seu reinado os portugueses, sob o comando de Shönberg, obtiveram várias vitórias contra a Espanha, que em 1668 reconheceu a independência de Portugal. Foi casado com Maria Elizabeth Francesca de Sabóia (princesa francesa) que conspirou com seu irmão Pedro para afastar Castelo Melhor e anular o casamento com Afonso VI. Ela casou com Pedro em 1668, e Afonso VI foi persuadido a passar o trono para seu irmão que poderia ter um herdeiro e foi declarado regente. Desde então o rei foi mantido prisioneiro em Sintra, onde morreu.
No Brasil Vieira havia assentado as bases do que pretendia seria sua grande obra sobre a interpretação dos profetas, que na verdade nunca chegou a publicar. No desterro do Porto retoma seu trabalho intelectual. Faz a revisão de dezesseis volumes de Sermões para dar ao prelo e continua a rascunhar o Clavis prophetarum. Era Vieira bem vigiado pelos partidários de D. Afonso aos quais deixá-lo no Porto pareceu inconveniente. Cogitaram de desterrá-lo para Angola, mas se concluiu por deixá-lo preso no Colégio da Companhia em Coimbra.
Processo na Inquisição
Por falta de amigos na corte, foi aprisionado pela Inquisição que vinha preparando um processo contra ele havia algum tempo. As investigações sobre Vieira arquivadas no Santo Ofício foram reabertas. O decreto do Conselho Geral ordenou ao Tribunal de Coimbra mandasse ir à mesa o jesuíta e o interrogasse sobre o seu escrito *As Esperanças de Portugal em que anunciava a ressurreição de D. João IV, e por seu exagerado interesse em favor dos judeus e cristãos novos. Não pode ser ouvido porque estava doente, do impaludismo contraído no sertão amazônico, cujas crises freqüentemente o prostravam. Ultimamente os incômodos se agravaram de complicações bronquiais, com hemoptises que faziam temer ao doente a tuberculose, doença vulgar na Companhia, devido às macerações e canseiras da vida missionária, e cujo contágio era facilitado pela vida em comunidade. Em maio os médicos aconselhavam a mudança de ares.
Determinaram os superiores fosse o doente para residência do Canal, junto a Buarcos.
Respondeu Vieira que era certo haver feito um papel, em que anunciava a ressurreição de D. João IV, o qual mandara para ser apresentado e servir de consolo à Rainha viúva. Baseava seus dizeres no Gonsalianes Bandarra, a quem todos tinham por profeta, se não em sentido canônico, mas no sentido que era o terem se cumprido as coisas profetizadas. E esclareceu o seu interesse meramente em favor da economia do reino, na questão hebraica.
Apesar de não encontrar nele falta grave, e mesmo antes de ser julgado, determinou a Inquisição sua prisão no cárcere do Santo Ofício, onde ficou por 26 meses até a véspera do natal de 1667. Continuou preso no Colégio da companhia em Coimbra, e mais tarde, por pedido seu, foi autorizado transferir-se para o noviciado em Lisboa. Pouco depois o Provincial da companhia requereu lhe fossem as penas perdoadas, e isto foi atendido ficando em vigor unicamente a obrigação de não tratar o réu das proposições suspeitas.
Sua vida se recompôs. Do palácio lhe veio o aviso de que haveria de pregar na Capela real por ocasião do aniversário da Rainha. Não pregou dessa vez, mas fez vários sermões nos meses seguintes. Magoado, disse em um sermão na Capela Real uma frase que ficou conhecida: "Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma; mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia?"
Vida em Roma
Vieira estava porém decido a alcançar em Roma a revisão do seu processo na Inquisição. Pronunciou seu último sermão em Lisboa na festa de Santo Inácio, na matriz de Santo Antão, um extraordinário triunfo oratório. O povo, sabendo que ia pregar naquele dia, logo ao alvorecer e antes que se abrisse a igreja já se achava o largo fronteiro pejado de curiosos. Abertas as portas, num instante ficou lotada a igreja.
A fim de lhe facilitar instalar-se em Roma, recebeu da Companhia de Jesus o encargo de tratar assunto de interesse da Companhia, que era o de tratar da canonização de quarenta padres da companhia, trucidados por piratas calvinistas em 1570 quando iam para o Brasil.
Chegando a Roma, alguns padres foram em carros encontrá-lo no caminho, e a esta homenagem se somou a recepção que o Geral e mais padres lhe fizeram. Sua chegada, no entanto, coincidiu com o falecimento do papa Clemente IX e eleição do papa Clemente X, e isto o obrigaria a adiar seu trabalho junto à Cúria.
Os padres da companhia insistiram com Vieira que pregasse. O Geral João Paulo Oliva manifestou seu desejo que aprendesse o italiano e se dispusesse a pregar ante os cardeais e nobreza romana, o mais culto auditório do mundo. Relutante talvez por cansaço, Vieira não teve escolha quando o Geral impôs-lhe obediência no assunto. Pregou pela primeira vez em italiano em Outubro de 1672 na festa de São Francisco de Assis. Concorreram pessoas notáveis da nobreza romana, alguns prelados e seis cardeais. Seguiram-se vários outros sempre concorridos. Tanto era o interesse em ouvi-lo que, diz Lúcio de Azevedo, tornou-se necessário colocar soldados às portas dos templos onde ia pregar, para impedir que se apossasse o público dos lugares, antes de chegarem as dignidades eclesiásticas e pessoas de representação. Ao sermão, na igreja de S. Lourenço em Damaso, no ano seguinte de 1673, estiveram presentes dezenove cardeais.
Residia em Roma uma outra celebridade, a rainha Cristina da Suécia, que havia renunciado ao trono de seu país. Admirada pelo desenvolvimento industrial e comercial que promoveu, sua renúncia súbita do trono sueco causou surpresa em toda a Europa. Patronisa das artes e da ciência, convidou importantes intelectuais estrangeiros para visitar seu país, inclusive René Descartes, que lhe deu lições de filosofia e morreu na sua corte, em Estocolmo. Renunciou por dois motivos: porque não desejava casar para dar um herdeiro ao reino da Suécia e também porque havia se convertido secretamente ao catolicismo, religião proibida na Suécia.
Em dezembro de 1655 fixou-se em Roma, acolhida pelo Papa Alexandre VII. Tornou-se sensação em Roma, onde comprou um palácio. Depois de ausentar-se em uma conspiração armada em Paris, em que, com a ajuda dos franceses, pretendia sair rainha do reino de Nápoles, precisou de um perdão papal para voltar a viver em Roma.
Foi amiga do cardeal Décio Azzolino, um líder político dos cardeais em Roma, de quem fez seu herdeiro. Ligou-se aos papas, recebeu uma pensão que ajudou-a a manter-se com os recursos que recebia da produção de suas terras na Suécia. Em seu palácio em Roma tinha coleções de pintores famosos, esculturas e o local tornou-se ponto de encontro dos intelectuais e músicos famosos da época. Sua biblioteca hoje faz parte da Biblioteca do Vaticano e seu túmulo (faleceu em 1689) está na Basílica de São Pedro.
Vieira pregou especialmente para a Rainha na quaresma do mesmo ano em que chegou a Roma, e por insistência dela junto ao Geral, - que novamente exigiu de Vieira um ato de obediência -, tornou- se pregador de sua corte. Estreou com uma série de sermões intitulados "As cinco pedras de David". Incluído em seu círculo, a que chamava Academia da Arcádia para filosofia e literatura, o Padre Vieira travou um debate filosófico que lhe valeu aplausos. Nessa Academia os grandes letrados discutiam os problemas mais diversos e faziam conferências para um círculo seleto da nobreza romana.
Através de farta correspondência, trocada inclusive com D. Pedro, Vieira acompanhava de Roma os acontecimentos em Lisboa. Repercutiu em Roma o novo recrudescimento da perseguição aos cristãos em Portugal, no ano de 1672.
Numa manhã de junho apareceu violado o sacrário da igreja do mosteiro de Odivelas. Crer que fosse a ação de herege, e mais particularmente hebreu, era conseqüência natural. Exaltaram-se os ânimos na capital e em todo o país. A 25 de agosto foi ordenada a expulsão de todos os indivíduos penitenciados pelo Santo Ofício desde o último perdão geral, isto é de 1605, pena que abrangia os filhos daqueles que, com veementes suspeitas de heresia, abjuraram, e os filhos e netos dos que tinham confessado, portanto vários milhares de pessoas. Vieira escreve a D. Rodrigo de Meneses, seu amigo, externando sua desaprovação ao decreto de expulsão e informando que a opinião comum era também contrária em Roma e toda a Europa.
Um protesto sem assinatura encaminhado a D. Pedro, e no qual em toda a extensão se enumeravam os inconvenientes da resolução foi logo atribuído a Vieira, e hoje está incluído em suas obras. Apontava a liberdade de crença e, separados os judeus que o quisessem ser, aqueles que permanecessem católicos não se lhes podia por em dúvida a sinceridade, nem de se unirem a cristãos velhos resultaria dano à fé.
Através de cartas, Vieira instigava o príncipe regente a proceder segundo o exemplo de D. João IV que em 1649 concedera aos cristãos novos licença igual a que agora solicitavam para recorrerem ao Pontífice. Todo seu empenho era que a contenda se transferisse para Roma, onde os recorrentes tinham modo de captar os votos e ele meio de cooperar nas diligências.
Afinal, em julho, decidiu-se conceder o que, - a troco de apreciáveis vantagens na formação de uma Companhia que daria apoio a Portugal na Índia -, os homens de negócio pediam: a licença para requerem em Roma a reforma da Inquisição. Vieira deveria escrever ao Pontífice, a recomendar a súplica, e apontando como providencia complementar necessária o perdão geral.
Porém, soando então que tinha o Regente acedido as reclamações dos hebreus, que ia haver sinagoga pública em Lisboa, e que entre os proponentes do negócio da Índia se achavam judeus declarados, vindos de Roma por comissão do Padre Antônio Vieira, os inimigos dos cristãos novos romperam em protestos ruidosos. Alegava-se nos círculos da Inquisição em Lisboa que só das confiscações de bens relativas aos réus então nos cárceres prometia 500 mil cruzados, e para o futuro quantias superiores, para que pois a condenável transação com os hereges?
Recrudesceu em Portugal a perseguição aos cristãos novos pelo Santo Oficio. Choviam as delações e acumulavam-se os presos nos cárceres. Nos últimos dias de julho de 1672 foram recolhidos à inquisição em Lisboa alguns dos mais graduados comerciantes da cidade.
Já com 65 anos, Vieira sofria recidivas de seus achaques do tempo dos interrogatórios da Inquisição. Ausentou-se de Roma para se recuperar, em Albano, dos ferimentos sofridos em uma queda na escada de pedra da residência. O clima em Roma definitivamente o prejudicava na sua saúde.
Uma delegação portuguesa chegada a Roma para tratar assuntos da Igreja e particularmente da Inquisição deu a conhecer a Vieira que o rei D. Pedro (Regente de 1668-1683, Rei 1683-1706) desejava que retornasse a Portugal. Vieira hesita. A insistência do Rei termina por convencê-lo a partir, embora receasse muito o que lhe poderia acontecer no seu retorno, por parte da Inquisição portuguesa, e por achar que nada poderia ajudar mais a seu país.
Em Roma, insistiam em que ficasse. O Geral, que havia antes dissuadido Vieira de recorrer ao Papa contra a Inquisição portuguesa, por temer os estremecimentos que daí poderiam resultar, agora, cioso dos perigos que correria Vieira retornando a Portugal, quando foi decidido que regressaria, cuidou de lhe alcançar a imunidade contra o tribunal português.
Em sua defesa Vieira apontava os defeitos do processo e os defeitos da sentença, esta lançada de modo a exagerar as aparências de culpa e relevar pouco o que poderia recomendar sua absolvição. Arrolou os maltratos que padecera: treze meses de detenção antes de ser pela primeira vez interrogado; não se lhe consentir em dizer missa, o que muitas vezes pedira, nem confessar-se e comungar, senão uma vez pela quaresma; extorquirem-lhe os papeis em que preparava a defesa, e recusarem-lhe livros inclusive a Bíblia.
Sobre as culpas que lhe apontaram os Inquisidores citou o memorial a favor dos cristãos novos de 1643; a criação, a esforços seus, da Companhia de comércio, de que resultou ser depois da morte excomungado D. João IV e todos aqueles que tomaram parte no conselho onde se resolveu a instituição, por Breve obtido sub-repticiamente do Santo Padre sem a declaração das pessoas atingidas; e a defesa da Companhia de Jesus no conflito com a Inquisição ocorrido em Évora, por ter dito na ocasião que "Os inquisidores viviam da fé e os jesuítas morriam por ela" . E dizia mais que haviam tomado como pretexto também a carta em que afirmava a crença na ressurreição de D. João IV e nos vaticínios do Bandarra demonstrando, quanto a esse último item, que a crença em Bandarra era quase geral e forte no seio da Igreja, porque muitas de suas previsões haviam se confirmado, e cita o memorial oferecido pelo Bispo do Porto, Nicolau Monteiro, ao Papa Urbano VIII no qual as profecias do Bandarra são invocadas como argumento.
Assim, por Breve de 17 de Abril de 1675, foi isento Vieira para sempre da jurisdição dos Inquisidores de Portugal e seus representantes, e sujeito unicamente à Congregação do Santo Ofício de Roma; conjuntamente absolvido de quaisquer censuras, interdito ou penas eclesiásticas em que se achasse incurso até então.
Retorno a Portugal e à Bahia. Em maio Vieira deixou a capital romana onde fora durante seis anos admirado e prestigiado. No caminho foi hospede do Grão Duque em Florença; de lá se passou a Gênova e embarcou para Marselha de onde seguiu por terra para Toulouse e lá embarcou pelo rio Garona até Bordéus. A rainha da Inglaterra, a portuguesa Dona Catarina, o convidara para dali seguir para Londres, mas Vieira, por cansaço ou por pressa de chegar a Portugal, não atendeu ao convite, desembarcando em Lisboa em Agosto.
Vieira permaneceu no reino por mais de cinco anos depois que, chamado pelo Príncipe, tornara a Lisboa. Em todo esse período somente uma vez pudera intervir de modo efetivo em negócios públicos, quando convocado em 1680 a participar na junta de Conselheiros do Estado e Ultramarino.
Com a idade avançada, pensa em retornar a sua província no Brasil. Recebeu ainda um chamado da rainha Cristina, encaminhado pelo Geral da companhia, para que retornasse a sua corte em Roma, que recusou, alegando idade e as doenças. Hesitava entre retornar ao Maranhão ou à Bahia. Partiu a 27 de janeiro de 1681 na companhia de outros missionários que iam para a Bahia.
Das primeiras notícias que recebeu de Portugal, chegado definitivamente ao Brasil, foi de uma troça de estudantes em Coimbra, simulando um auto de fé e que os estudantes e a ralé da cidade o queimaram em esfinge aos gritos de "Padre Vieira, vendido aos judeus".
Não parece ter sido de tédio a vida de Vieira, após retornar ao Brasil. Logo que chegou, foi intenção sua viver retirado na quinta do Tanque, de propriedade dos Jesuítas nas vizinhanças da cidade. Seu propósito consagrar-se à ascese e à conclusão dos sermões, que ia reconstruindo de fragmentos e notas e da memória, e concluir outros trabalhos literários. Mas esse retiro não foi possível. Não podia desaparecer sem que a curiosidade o seguisse. Eram duques, marqueses, arcebispos, a solicitar aos irmãos jesuítas notícias de Vieira.
Logo está a trocar assiduamente cartas com amigos na Europa, enquanto trabalha na revisão dos seus sermões. É também involuntariamente envolvido num incidente político desagradável, relativo a seu irmão que vivia na Bahia, Bernardo Vieira Ravasco, e um dos filhos deste, Gonçalo Ravasco. Foi o assassinato do Alcaide, tocaiado à luz do dia e morto perto do Colégio por oito mascarados que em seguida ao crime refugiaram-se na casa dos jesuítas. Lá estava escondido também o referido sobrinho de Vieira, Gonçalo Ravasco, por uma briga que tivera com um meirinho. Daqui nasceu dizer-se que o homicídio do alcaide fora planejado no interior da residência, em conciliábulo a que tinham assistido o filho e o irmão de Antônio Vieira, versão logo aceita pelos inimigos dos jesuítas.
Vieira tinha a intenção de reunir seus sermões em 12 volumes, e já publicara 7. O trabalho exigia grande aplicação porque a maior parte das prédicas estava em notas algo desordenadas. A coleção consta de sermões pregados em diferentes épocas, remontando a antes de 1640 na Bahia.
Com as rendas de seus sermões publicados Vieira se mantinha e também a um secretário, e o restante empregava em socorrer as necessidades dos índios nas missões.
O livro que Vieira pensava seria sua grande obra, nunca saiu a lume: De regno Christi in terris consummato, ou por outro nome, Clavis prophetarum, em quatro livros. Era uma publicação aguardada com interesse. Meditada nos caminhos e rios da Amazônia, começada ao sair da Inquisição, continuada em Roma e Lisboa, era a ocupação em que mais tinha gosto. Por mais de trinta anos ele tinha burilado o texto, e continuava ainda a aprimorá-lo. Agora, perto de nonagenário, fisicamente inválido, possuía ainda clareza das idéias, a agudeza do verbo para concluí-la. Esta obra sumiu-se quase por completo, ficando apenas algumas copias mutiladas. Supõe-se que foi roubada por ocasião de sua morte.
Tendo a rainha Dona Maria Francisca Isabel de Sabóia falecido, houve grandes homenagens na Bahia. Obedecendo a determinação ao Marques das Minas, o Padre Antonio Vieira fez um sermão, apesar da "falta de dentes e de voz e todos os outros achaques da velhice...", contou ele em carga de agosto de 1684 ao marquês de Gouveia.
D. Pedro II, que ainda não tinha herdeiros, casou-se novamente, em dezembro de 1686, com Dona Maria Sofia Isabel de Neuburgo, filha do Eleitor Palatino Filipe Guilherme de Neuburgo, que lhe deu cinco filhos. Mais tarde, além dos sermões antigos, de que ia sucessivamente mandando os volumes para publicação em Lisboa, preparou Vieira entre 1691 e 1693 um tomo de sermões de São Francisco Xavier, por encargo da nova Rainha, particularmente devota do apóstolo a Índia.
Adoentado, em 1969 Vieira suspendeu sua correspondência com seus admiradores. Repetir-se-ia o acidente de 1673 em Roma: aos 85 anos, já trôpego, caiu de noite por um lance de escada de pedra. Além de ficar molestado em todos os membros, por muito tempo não pode segurar a pena.
Dois anos depois saia da imprensa o undécimo volume de sua coleção dos Sermões, oferecido à rainha Dona Catarina. O último volume, o duodécimo, foi acabado no ano de sua morte, em 1697, A mesma nau em que viajou o manuscrito trouxe a Lisboa a nova de ter falecido o autor.
Pensamento
Vieira considerava-se filósofo, não só "filósofo natural", mas "filósofo cristão". Professor de retórica, compôs para seu uso um curso de filosofia. Seus conhecimentos de história e filosofia transparecem em milhares de comparações e metáforas nos seus sermões. Toda uma monografia seria pequena para considerar o que nos sermões de Vieira há de assuntos filosóficos.
O pensamento de Vieira é genuinamente moderno, apesar de viver na época em que, não só em Portugal como em boa parte da Europa, ainda domina o aristotelismo e a filosofia escolástica ensinada pelos jesuítas, e apesar de ser ele mesmo um padre jesuíta. Para comentar suas idéias vamos utilizar os mesmos trechos selecionados por Ivan Lins como os mais significativos da sua obra.
Contra a lógica e a autoridade Aristotélicas. Rejeitava Vieira o princípio de autoridade própria da escolástica, sancionada pela Igreja e reforçada pelo poder real, para, em substituição, valorizar a experiência como caminho da certeza. No seu Primeiro Sermão da Terceira Dominga do Advento que demonstra claramente sua postura filosófica moderna, realçando o valor da experiência contra o vazio da especulação filosófica aristotélica dedutiva. Diz Vieira: "Nenhuma coisa houve mais assentada na Antigüidade, que ser inabitada a zona tórrida; e as razões com que os filósofos o provaram, eram ao parecer tão evidentes, que ninguém havia que o negasse." As viagens dos descobrimentos provaram ser errada a lógica dos aristotélicos, porque existiam de fato terras habitadas nos trópicos. A verdade foi provada pela experiência de buscar e de ver: "Descobriram, finalmente, os pilotos e marinheiros portugueses as costas da África e da América, e souberam mais e filosofaram melhor sobre um dia de vista que todos os sábios e filósofos do mundo em cinco mil anos de especulação".
A propósito de sua postura filosófica, e para não deixar em ninguém qualquer dúvida de que Vieira se alinha com o pensamento dos filósofos modernos, basta ver a carga de acusações que lhe faz a Inquisição portuguesa, entre elas a de fazer uso de livros proibidos trazidos do estrangeiro. Ora, os livros proibidos em Portugal são principalmente os livros dos filósofos empiristas ingleses e de seus aderentes e comentaristas franceses.
Inclusive em seus erros Vieira está emparelhado aos filósofos de seu tempo, pois é uma característica do início da idade moderna a crença em certas forças ocultas, nas quais esses filósofos acreditavam e para cuja explicação queriam encontrar um caminho filosófico próprio, diferente tanto da superstição quanto de sua qualificação religiosa como forças demoníacas. Assim foi com Giordano Bruno, Campanella, e outros, não faltando sinais de propensões esotéricas no próprio Bacon e em Locke. Vieira parece tocado pelas profecias de Bandarra e as utilizou para o fim de inflamar o nacionalismo dos portugueses, e terá que explicar essa atitude aos seus inquisidores, no seu martírio perante o Santo Ofício. Sua crença nos malefícios dos cometas é a mesma que têm os grandes filósofos e matemáticos da época moderna.
A respeito escreveu o opúsculo: Voz de Deus ao Mundo, a Portugal e à Bahia: Juízo do cometa que nela foi visto em 27 de outubro de l695 e continua até hoje, 9 de novembro do mesmo ano.
Finalmente, a perseguição pela Inquisição é outro elemento identificador do filósofo moderno, pois o Santo Ofício está precisamente atento e contrário à filosofia moderna quanto a seus métodos, idéias e descobertas.
O desassombro de Vieira em defender a ordem prática, a liberdade de culto, o repatriamento dos judeus portugueses, tudo representa uma inimaginável revolução e um rompimento com o pensamento medieval que vai acontecer de fato somente mais de um século depois, e ainda assim apenas parcialmente, no governo de Pombal. Até lá a idéia de padroado e o absolutismo monárquico, o ensino jesuítico e a Inquisição manterão ao largo a ciência e a liberdade de pensamento, em Portugal e no Brasil. E Vieira já dizia, no Sermão da Sexta-feira da Quaresma, de 1662, em plena Capela Real:, numa velada crítica a São Tomás, o Doutor Angélico: "porque até entre os anjos pode haver variedade de opiniões, sem menoscabo de sua sabedoria, nem de sua santidade; e para que acabe de entender o mundo, que ainda que algumas opiniões sejam angélicas, nem por isso são menos angélicas as contrárias". Este Sermão é todo vazado em termos de aprovação da verdade, e contrário ao culto da autoridade, não importando quem fala, mas a verdade do que é dito. E no Sermão de São Pedro, de 1644, adverte: "Ora, desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores".
Vieira é um dos primeiros a assinalar com entusiasmo o valor das invenções modernas. Em seu História do Futuro admira-se do poder que a pólvora trouxe para a arte da guerra, e a bússola para a arte de navegar, e louva a invenção da imprensa, pela qual "a doutrina (a religião) e a ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares...".
Está, sem dúvida muito a par do que escreve seu contemporâneo Descartes, um autor proibido, e com ele concorda aderindo claramente à posição dualista revolucionária daquele filósofo, inteiramente contrária à concepção tomista de unidade substancial do homem ao afirmar, no Sermão 27º. do Rosário", que o homem "é feito de duas peças, alma e corpo". Seu comentarista Ivan Lins também dá como inquestionável que Vieira tenha lido "Os Meteoros", de Descartes, o qual havia realizado experiências para reproduzir o arco-íris e descobrira que era apenas refração da luz e não milagre celeste em cada aparição nos céus. Vieira diz: "na Íris ou Arco celeste, todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedade de cores: e contudo ensina a verdadeira Filosofia que naquele Arco não há cores, senão luz e água".
Psicologia
A quantos ilustres filósofos e psicólogos não se antecipa Vieira ao afirmar, como faria pouco depois Pascal, que a razão tem razões que não lhe são próprias, mas que partem do coração? É o que ele diz no Sermão da Quinta Quarta-feira da Quaresma, de 1669: "E os erros dos homens não provêem apenas da ignorância, mas principalmente, da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras. Os olhos vêm pelo coração, e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores, de que estão, bem ou mal, afetos os corações". Um século depois Pascal teria falado assim, não fosse sua irresistível fascinação, tipicamente francesa, por cunhar frases de efeito, donde seu dito: "O coração tem razões que a própria razão desconhece"...
Na psicologia de Vieira encontramos também uma teoria sobre os sonhos em que os dá como realização dos desejos do indivíduo, deixando para Freud apenas acrescentar sua teoria dos símbolos oníricos. É verdade que Vieira inicia com a teoria inventada por Aristóteles, em que este se vale de analogia tipicamente desprovida de base experimental. Mas Vieira corrige seu curso terminando por afirmar, nos Sermões de São Francisco Xavier Dormindo: "Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas ações, dos seus propósitos e dos seus desejos." E prossegue com grande riqueza de exemplos.
História
Em sua História do Futuro advoga Vieira uma ciência da história, para que os historiadores se afastem os erros que cometem por culpa da paixão. "Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas, leia a mesma história por diferentes escritores, e verá como se encontram, se contradizem e se implicam no mesmo sucesso, sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz". No Discurso apologético - Palavra do Pregador empenhada e defendida, Vieira define a história como "aquele espelho em que olhando para o passado, se antevêem os futuros"
Raças
A tão aplaudida afirmação de Buffon, um século depois de Vieira, de que o clima influi nas raças determinando-lhes a cor da pele não representava nenhum risco para aquele cientista, ao contrário do perigo que representou para Vieira, um século antes, afirmar a mesma tese, contrária à tradição bíblica da maldição de Noé contra Cam e seus descendentes. Diz Vieira, em outro trecho do Sermão da Epifania pregado na Capela Real em 1662: "a causa da cor é o sol. As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol". E Vieira sabia de experiência, porque andou por onde Buffon nunca esteve.
Vieira era também um defensor dos direitos humanos e pregou contra a exploração do negro e do índio, para grande aborrecimento dos colonos brancos no Brasil. Vários de seus discursos versam sobre a situação dos escravos africanos. Não se pode, é claro, saber quais sentimentos teria Vieira, colocando-se ao lado dos judeus e cristãos novos portugueses, porque tudo que lhe era permitido alegar, e ainda assim com grande risco para si como ficou provado, era um motivo patriótico. É verdade que seu envolvimento nos negócios do Estado abriram seus olhos para o vulto dos recursos exigidos para a restauração do reino, e os judeus representavam riqueza. No entanto, ele busca favorecer os judeus além do que os interesses econômicos requeriam que fizesse. Mostra nas reivindicações pelos judeus igual pertinácia e igual risco quanto teve na defesa dos índios do Maranhão.
O sistema solar
Na ambigüidade do seu Sermão da Primeira Dominga do Advento, pregado em 1652 na Capela Real, podemos ver o Vieira dividido entre aquilo que estava obrigado a dizer e aquilo em que realmente acreditava a respeito do Universo. Primeiro, negando, ele diz: "Copérnico, insigne matemático do próximo século, inventou um novo sistema do mundo, em que demonstrou ou quis demonstrar (posto que erradamente), que não era o sol o que se movia e rodeava o mundo, senão que esta mesma terra em que vivemos, sem nós o sentirmos, é a que se move, e anda sempre à roda. De sorte que, quando a terra dá meia volta, então descobre o sol, e dizemos que nasce, e quando acaba de dar a outra meia volta, então lhe desaparece o sol, e dizemos que se põe." E continua, agora com fé: "E a maravilha deste novo invento, é que na suposição dele corre todo o governo do universo, e as proporções dos astros e medidas dos tempos, com a mesma pontualidade e certeza com que até agora se tinham observado e estabelecido na suposição contrária."
Neste campo Vieira também conhece a dúvida que surge na primeira metade da idade moderna com respeito ao que existe entre os objetos e a mente, ou o que existe no espaço entre os astros, dado que, se o vácuo existe, então seria forçoso admitir que todas as forças e impressões se dão por um poder de influência à distância, sem nada a permear entre os objetos e os sentidos. Esta questão, ainda hoje mal resolvida, tem uma alusão no Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma, pregado na Capela Real em 1670, onde Vieira diz: "Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo, e que em todo o universo não haja lugar vazio".
Disputatio
Ser um filósofo moderno não erradicou do vocabulário de Vieira os jargões da escolástica nem o tirou-lhe o gosto pelas disputas com que os professores jesuítas buscavam aguçar a inteligência dos jovens discípulos. No Sermão do Rosário Vieira é o velho racionalista, e se propõe um questão daquelas insolúveis, tão a propósito para os jogos dialéticos: "Perguntam os filósofos se Deus pode fazer tudo quanto pode? Uns negam, outros afirmam, e uns e outros se implicam. Porque depois de Deus fazer tudo o que pode, ou pode fazer mais alguma coisa ou não? Se não pode, deixou de ser Deus, porque não há Deus sem onipotência. E se pode, segue-se que aquilo que fez, não era tudo", não e perfeito.
Outra manifestação desse gosto pelas disputas é a citada participação sua no torneio filosófico havido nos salões do palácio da Rainha Cristina, em Roma. No desafio, o Padre Jesuíta Jerônimo Cataneo defendeu a posição de Demócrito com respeito à avaliação da vida, enquanto Vieira defendeu a posição de Heráclito. Demócrito ria sempre e Heráclito, chorava. Diz, mais ou menos, "Se no paraíso estava ociosa a potência do chorar, na miséria de hoje está ociosa a potência do rir". Considerando a maldade do homem diz que ao certo o homem deveria chorar a respeito de sua própria maldade, mas então dá-se um paradoxo: Se não chora, mostra que não é racional: e se ri da sua própria maldade, é uma fera, mostra que também os irracionais, as feras, riem. (Sermões, Porto, 1909, vol. XV, p. 399)
(Rubem Queiroz Cobra , Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia, Site original:www.cobra.pages.nom.br)
Vida
Examinemos a vida e obra do Padre Antônio Vieira, figura síntese de sua época, sob os seguintes aspectos: sua formação escolástica; sua fidelidade ao absolutismo; seu envolvimento com o problema da perseguição aos judeus e cristãos novos e da escravidão tanto dos africanos, na Bahia, como dos índios, no Maranhão; sua fé romântica típica do sebastianismo; seu problema pessoal com a Inquisição, e seu pensamento filosófico. Missionário jesuíta, orador, diplomata, mestre da prosa portuguesa clássica, teve papel importante em ambas a história portuguesa e brasileira; seus sermões, cartas e papeis oficiais constituem um valioso índice do clima das opiniões no século 17 no mundo luso-brasileiro.
Primeiros anos
Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, e faleceu em Salvador, em 1697. Era filho de Cristóvão Vieira Ravasco, mulato, e de D. Maria de Azevedo. Estava Portugal sob domínio espanhol. Em 1578 o rei D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, na África, onde os mouros derrotaram os portugueses. Não tendo herdeiros, o trono passou para seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que, já velho, morreu em 1580. Filipe II, rei da Espanha, por ser neto de D. Manuel o Venturoso pelo lado materno (Era filho de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano, e de Isabel de Portugal, filha de D. Manuel), assumiu o trono português. O Império Espanhol passou então a incluir Portugal e as possessões portuguesas, até a revolução que restaurou o trono português em 1640.
O pai de Antônio Vieira fora empregado em casa de D. Fernão Telles de Menezes, conde de Unhão, o qual foi tomado para seu padrinho. Em casa dos condes de Unhão havia trabalhado também o avó paterno de Vieira, Baltazar Vieira Ravasco. Esse avô era branco, natural da vila de Moura, mas, quando empregado em casa dos Condes, enamorou-se de uma serviçal mulata da mesma casa, que foi a avó paterna de Vieira. Dizem os biógrafos que o romance motivou que ambos fossem despedidos. Perguntado na Inquisição sobre seus antepassados, mais tarde, com 55 anos, Vieira disse nada saber dessa sua avó paterna.
O avô pelo lado da mãe, Dona Maria de Azevedo, era pessoa influente, Brás Fernandes de Azevedo, cristão velho. Este conseguiu para o genro nomeação para escrivão dos agravos da Relação da Bahia, logo que esse tribunal foi instituído. Isto motivou a vinda do pai de Vieira para o Brasil em 1609. Deixou em Portugal a mulher e o filho, para busca-los três anos depois, em 1614, estando Vieira com seis anos.
Vieira teve um irmão e duas irmãs: Bernardo Vieira Ravasco, que ele declarou, quando inquirido no Tribunal da Inquisição, ser alcaide-mor da cidade de Cabo Frio do estado do Brasil, e secretário de estado e guerra do mesmo Brasil, solteiro.Nasceu e faleceu na Bahia (1617-1697), foi Comendador da Ordem de Cristo e teve vasta influência na Colônia; Dona Leonarda de Azevedo casada com o Doutor Simão Alves de Lapenha desembargador dos agravos de Sua Majestade e Cavaleiro do hábito de Cristo. Essa irmã morreu com o marido e os filhos em um naufrágio quando viajavam para Portugal -, e Dona Maria de Azevedo que ele declarou solteira, mas que casou depois com Jerônimo Sodré Pereira. Esses irmãos eram brasileiros, naturais e moradores da cidade da Bahia.
Teve mais as irmãs Catarina Ravasco de Azevedo, mulher do Sargento-mor Rui Carvalho Pereira, falecida sem descendência, e Inácia de Azevedo Ravasco que foi casada com Fernão Vaz da Costa Dória
Vieira foi educado no Colégio Jesuíta da Bahia. O ensino tradicional jesuítico compreendia retórica, filosofia e teologia. Para aguçar em cada aluno o poder de argumentação os jesuítas estimulavam debates sobre temas os mais extravagantes: O que Deus fazia antes da criação do mundo, se poderia criar outros mundos mais perfeitos que o nosso, se as almas das plantas e animais são divisíveis, qual era a estatura da Virgem Maria, etc. Este tom argumentativo, dialético, permeia os sermões de Vieira como um sestro que ficou dos tempos de estudante. Seu professor de filosofia foi o Padre Paulo da Costa.
Manifestando seu desejo de entrar para a ordem jesuítica, Vieira teve a franca oposição dos pais. Fugiu de casa à noite para o colégio, onde o reitor o acolheu sem hesitação, por saber o que sua inteligência prometia. No dia seguinte, ano de 1623, iniciou seu noviciado, contando então quinze anos. Levaram-no para a aldeia do Espírito Santo onde os padres doutrinavam os indígenas, a sete léguas da cidade, para distanciá-lo da família inconformada.
Juventude na Bahia
Vieira ainda era um noviço quando, em 1624, ocorreu a invasão da Bahia pelos holandeses.
Em 1581 a Holanda havia proclamado sua independência, libertando-se do domínio da Espanha. Em represália, Filipe II fechou todos os portos portugueses e espanhóis aos navios holandeses. Essa medida constituiu um violento golpe na economia holandesa, que controlava o transporte, o refino e a distribuição do açúcar brasileiro na Europa. Para superarem esse obstáculo, os poderosos comerciantes holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais para a conquista dos mercados produtores, no caso o Nordeste Brasileiro (Bahia e Pernambuco).
Quando a armada da Companhia das Índias Ocidentais chegou em maio a Salvador o povo fugiu para os matos, grande parte dos habitantes de Salvador se dispersou pelas aldeias dos índios, sob a direção dos padres jesuítas. O governador geral Diogo de Mendonça Furtado foi preso e embarcado para a Holanda. Assumiu interinamente o governo D. Marcos Teixeira, quinto bispo do Brasil, que adotou a forma de guerrilha para combater o invasor.
Essa tática terminou por dar resultado e no ano seguinte, 1625, chegou a esquadra espanhola e retomou a cidade. Os holandeses se renderam e quando, pouco depois, chegou uma esquadra holandesa para reforço, nada mais pode fazer. Todas as propriedades holandesas (navios, ouro, etc.) foram confiscadas e receberam navios e mantimentos apenas suficiente para partirem de volta para a Holanda.
Vieira contava apenas 16 anos, e já conhecia latim tão admiravelmente que os padres o encarregaram de relatar o acontecido na *Carta anua para o Geral da Companhia em 1626, a primeira escrita após a interrupção de dois anos ocorrida naqueles tempos anormais. Relembrando a noite da invasão, diz o jovem noviço: "Mas quem poderá explicar os trabalhos e lástimas desta noite? Não se ouviam por entre as matas senão ais sentidos e gemidos lastimosos das mulheres que iam fugindo; as crianças choravam pelas mães, e elas pelos maridos, e todos, segundo a fortuna de cada um, lamentavam sua sorte miserável".
Encerrados os dois anos do noviciado vividos no período da invasão, Vieira fez os votos simples de pobreza, obediência e castidade e passou de imediato ao treinamento pedagógico a que os candidatos às ordens sacras estavam obrigados na Companhia de Jesus. Em 1627 está em Olinda, lecionando retórica no colégio jesuíta. Mas logo é chamado de volta à Bahia, com certeza pela falta sentida de seus préstimos. Somente em 1634 seria ordenado padre, e diz seu biógrafo J. Lúcio de Azevedo que nada se sabe do período que precedeu à sua ordenação.
Ordenado padre, as ocupações Vieira são o magistério no colégio e nas aldeias indígenas, e a pregação. Seu primeiro sermão foi pronunciado na Quaresma de 1633, antes de receber as ordens. Em 1635 escreveu o seyu livro "Curso Filosófico" adotado no Colégio todo o século XVIII. Cedo apareceu como erudito e como orador eloqüente. Alguns de seus sermões mais enérgicos sobre a guerra holandesa e situação dos escravos foram feitos na Bahia. Em 1638 os holandeses, vindo de Pernambuco, tentaram tomar Salvador pela segunda vez, mas não conseguiram. Com o invasor às portas, em número de 3.400 soldados comandados por Maurício de Nassau, Vieira usou, para o sermão na igreja de Santo Antônio, no dia do santo, o versículo do Livro dos Reis: "Porque eu defenderei esta cidade, para salva-la, por mim próprio por meu servo David".
O irmão de Vieira foi ferido nas lutas pela recuperação de Itaparica. Após um sítio de 40 dias que logrou impor à cidade, a tropa assaltante teve de retirar-se.
Vieira trabalhou entre os escravos índios e negros até 1641, quando foi incumbido de levar congratulações ao Rei D. João IV em sua ascensão ao trono.
A primeira viagem à Europa
D. João IV (reinou 1640-1656), nascido em 1604, era duque de Bragança. Subiu ao trono na revolução vitoriosa contra os espanhóis em 1640. Pertencia à casa de Avis que reinara antes dos 60 anos de domínio espanhol, fundando assim a dinastia dos Bragança.
O vice-rei do Brasil, tendo de enviar seu filho D. Fernando à Metrópole, a levar a adesão da Colônia a D. João IV, fá-lo acompanhar de dois jesuítas, o Padre Vieira e outro religioso também ilustre, o padre Simão de Vasconcelos, que seria depois afamado cronista da Ordem.
A luta dos portugueses contra o domínio espanhol, - esclarece Lúcio de Azevedo -, fora sustentada por um civismo místico, com fundamento em profecias de Bandarra, um sapateiro inspirado, que desde 1540, em um livro de trovas, consignara os destinos de Portugal. Dos solares dos fidalgos às escolas onde as crianças rudes do povo aprendiam, o Bandarra era o livro de leitura e a bíblia do patriotismo. Nada contribuiu tanto para manter vívida a esperança na redenção do estrangeiro. Suas profecias de grandeza esperava-se que se concretizariam com a volta de D. Sebastião, que se supunha ainda vivo, pois ninguém o vira morrer na batalha em África. Porém, torcidas, reinterpretadas, falseadas onde foi necessário, aplicaram-se aos fatos da restauração. O Encoberto, o rei desconhecido de que falavam os vaticínios, podia muito bem ser D. João, o Duque de Bragança.
Assim se preparou o ambiente em que brotou a revolução pela restauração da monarquia portuguesa. Restaurado o trono, ao Bandarra tributaram-se grandes honras. O próprio D. João IV aceitava a designação de "O Encoberto", como sagração de sua realeza pela intenção divina.
A essa crença aderiu também Vieira. Seu companheiro de viagem, o Padre João de Vasconcelos, compunha a "Restauração de Portugal", apologia mística do rei aclamado, coligindo ali as maravilhas e profecias que justificavam o ato revolucionário e foram a principal razão dele. Nas suas pegadas, Vieira escreverá *Quinto Império do Mundo e *História do Futuro.
Conselheiro do Rei
Ao cabo de aventurosa viagem com destino a Lisboa, o jovem fidalgo e os dois religiosos foram obrigados a desembarcar em Peniche devido a uma tempestade que desarvorou a nau, e ali um mal entendido os levou à prisão, tomados por contra-revolucionários aderentes do governo espanhol. No dia seguinte, desfeitos os equívocos, partiram para Lisboa.
Recebidos pelo Rei, no mesmo instante Vieira conquistou a simpatia do monarca que, com certeza, percebeu logo o quanto Vieira lhe poderia ser útil. Tinha Vieira não apenas conhecimento dos assuntos do Brasil, como sabia muito da psicologia do inimigo holandês.
Vieira está em Lisboa com 33 anos de idade. Sua fama no Brasil já alcançara Portugal. Começa a pregar na Igreja do seu Instituto - S. Roque. Lisboa invadia a igreja para ouvi-lo. Convidado a pregar para o Rei, Vieira pregou pela primeira vez na Capela Real no dia do Ano Bom de 1642. O Rei tornou-se admirador da personalidade magnética e segura de Vieira e passou a olhar o jesuíta alto, magro e dinâmico como "o maior homem do mundo".
Cada vez mais íntimo da família real, estimado pela conversação inteligente e manifestamente clara compreensão dos negócios do Estado, em pouco tempo Vieira dava o voto mais autorizado e decisivo em importantes negócios de Estado. A essa ajuda na qualidade de conselheiro, juntava-se outra ainda mais preciosa. Era tão aflitiva a situação do reino que nos sermões cabia alertar o povo sobre tudo que fosse interesse da pátria, pois não havia meios de comunicação senão as prédicas e o que se noticiava de boca em boca.
Vieira pelo concurso de ouvintes e influência da sua palavra, colocava-se inteiramente a serviço do rei e até a favor dos impostos chama à responsabilidade os cidadãos. Fazia sua exortação ao patriotismo paralelamente com a exortação moral em que os negócios mais graves do Estado saiam a lume, e através de alegorias da Bíblia analisava atos do governo e a conduta dos homens públicos. Quando necessário, nem o próprio soberano, figura sagrada para o povo, escapava às admoestações e à censura. "Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos ha de pedir estreita conta do que fizestes."
Completados os 35 anos, Vieira ainda não era jesuíta professo. Faltava-lhe fazer o quarto e último voto, o de obediência ao Papa, que, segundo Lúcio de Azevedo, professou em 26 de maio de 1644.
Missões e empenho pelos cristãos novos
Entre 1646 e 1650 Vieira esteve engajado em missões diplomáticas na Holanda, França e Itália, com os mais variados misteres. A mais relevante foi com certeza a do acordo entre Portugal e Holanda. A Holanda queria uma indenização por ter perdido Pernambuco, mas que intentava reconquistar. Preparou uma nova frota para ir ao Brasil a qual, para felicidade de Portugal, se desmantelou no Atlântico devido a forte tempestade. O ponto dificultoso das negociações era a fiança que haveriam os holandeses de pedir pela mora, até se realizar cinco ou seis anos mais tarde o pagamento final.
Aqui se oferece a Vieira ensejo de renovar seu empenho em favor da gente hebraica. Ele havia apresentado em 1643 uma exposição de motivos ao Rei, na qual argumentava que o reino estava em estado miserável depois do domínio espanhol (que não defendera as colônias de Portugal permitindo que a Holanda se apoderasse de boa parte delas) e que era um contra-senso a perseguição aos judeus. Dizia "Por estes reinos e províncias da Europa está espalhado grande número de mercadores portugueses, homens de grandíssimos cabedais, que trazem em suas mãos a maior parte do comércio e riquezas do mundo. Todos estão desejosos de poder tornar para o Reino...Se Vossa Majestade for servido de os favorecer e chamar, será Lisboa o maior império de riquezas..." Dizia mais que todos os países viam a miséria de Portugal. Nenhum país colocara embaixada no Reino restaurado e que o desprezo era tanto que o Papa não recebeu o embaixador português.
A volta dos judeus, além de enriquecer Portugal, haveria de enfraquecer o inimigo que deles se valiam com grande vantagem, porque na Espanha, judeus portugueses estavam cuidando da administração da fazenda real e emprestando ao monarca espanhol muitos milhões enquanto não chegavam as frotas com o ouro da América. "E o mesmo sucederá na Holanda, cujas companhias, que nos tem tomado quase toda a índia, África e Brasil, vivem em boa parte à custa da finança judaica portuguesa". E lembra ainda os exemplos da França e da própria Roma, "onde se permite a existência de sinagogas com seu culto". E porque se permitia no reino de Portugal comerciantes protestantes de várias nacionalidades e não se permitiam comerciantes judeus?
A Companhia de Jesus considerava imprudente e comprometedor o empenho de Vieira. O Rei, escreveu uma carta (1644) ao Provincial da Companhia recomendando que não fosse maltratado Vieira por motivo de suas idéias.
Seu plano no negócio com a Holanda, como um desdobramento da representação antes feita, era que dos cristãos novos poderiam vir a dar a fiança necessária ao acordo.
De volta de Paris onde fora tentar o apoio do governo francês para as negociações com a Holanda, Vieira deteve-se em Ruão para consultar os cristãos novos portugueses ali residentes. Além da questão dos créditos que buscava para o reino, Vieira empenhou-se com os judeus sobre o projeto de os restituir à pátria. Naquela cidade florescia então, com o consentimento tácito das autoridades, o judaísmo, e era ela, quase tanto como Holanda, refúgio dos hebreus portugueses.
Uma vez na Holanda entrevistou-se também com os judeus de Amsterdã e lhes fez promessas como aos de Ruão, no sentido de trabalhar para que fossem favorecidos com mercês régias os cristãos novos.
Homem preocupado com todos os assuntos que dissessem respeito a Portugal, Vieira, estava também empenhado em que Portugal reformasse os velhos galeões e adquirisse navios modernos para a sua frota. Aconselhara o rei a comprar quinze fragatas armadas, que em Holanda se ofereciam ao preço de vinte mil cruzados cada uma. Alguns desses navios foram adquiridos por intermédio do embaixador em França e ele próprio levou encargo para outros, quando no ano seguinte voltou à Holanda, para o que obteve de dois importantes negociantes cristãos novos os recursos necessários.
Sentindo o apoio firme de D. João IV, tomou Vieira a iniciativa de defender os judeus contra a Inquisição que lhes confiscava os bens antes mesmo de encontrar-lhes culpa formada..
D. João IV não podia desfazer as penas impostas ao crime de heresia pelo direito canônico, nem intervir na jurisdição do Santo Ofício. Com certeza por inspiração de Vieira, assinou um alvará que solucionava a questão, ou seja, que os cristãos novos não perdessem os seus bens quando detidos pelo Tribunal por culpas inventadas por inimigos seus. D. João se comprometia a devolver aos cristãos novos aquilo que lhes fosse confiscado, pois embora a condenação fosse feita pela Igreja, os bens confiscados destinavam-se ao Estado, deduzido pela Inquisição o necessário para sustento da sua máquina e liturgia.
O Santo Ofício protestou contra tal abolição perante o Rei e recorreu ao Papa. Os inquisidores obtiveram do Papa um breve pontifício restabelecendo o confisco. Quando apresentaram o documento a D. João IV, este argumentou que, como quem ia ficar com os bens confiscados era ele, o monarca, ele podia perfeitamente, como proprietário, devolve-los aos seus donos. Assim conseguiu manter a resolução.
Ao mesmo tempo foi criada uma companhia portuguesa para exploração das colônias com liberdade para participação de capital judeu. Inscreveram-se os cristãos novos mais ricos. Duarte da Silva, que dera o crédito para os navios de Holanda, e que em seguida fora preso pela Inquisição, estava agora com os bens desembaraçados em virtude da nova lei, reuniu-se a muitos outros, juntando-se enorme capital.
A Inquisição: primeira investigação
A inquisição, como era natural, revoltou-se, e Vieira estava publicamente comprometido com a o projeto. O caso produziu escândalo em toda a parte no país. Os amigos da Inquisição, que eram os inimigos dos cristãos novos, juntos aos inimigos de Vieira, que eram muitos, não cessavam de publicar a sua indignação. Pode-se afirmar que foi nesse tempo Antônio Vieira o homem mais aborrecido em Portugal. Uns o apodavam de traidor, por que sugeriu ao rei entregar Pernambuco aos holandeses em troca da paz, quando a questão dos fiadores parecera sem solução. Outros o infamavam de herético, por tentar restabelecer as sinagogas no reino.
Ora, o quanto acabrunhado devia andar Vieira é fácil de imaginar. Afinal, era de se esperar que Holanda fosse um país amigo de Portugal, porque também havia lutado contra a Espanha para firmar sua soberania Se havia atacado e montado um enclave no Brasil, o fizera exatamente porque era um ato hostil à Espanha herdeira do reino e das colônias portuguesas no processo de sucessão de D. Sebastião. Valia muitíssimo a pena ter novamente Holanda por aliada contra a Espanha, garantindo assim a paz e segurança de todo o império português que se desejava restaurar e fortalecer. Que isto custasse deixar os Holandeses em paz no Pernambuco, havia parecido ao estadista, a certa altura dos acontecimentos, um preço muito razoável. Quanto aos judeus, Vieira estava tão certo que, ainda hoje, não se compreende como pôde Portugal agir com tanta insensatez, expulsado de seu território justamente aqueles que haviam desenvolvido o seu comércio e haviam feito de Lisboa o mais importante porto comercial do Atlântico.
Os Inquisidores então passaram a reunir "denuncias" contra Vieira: uso de livros proibidos trazidos do estrangeiro; proposições como a da conveniência de consentir em Lisboa, como se consentia em Roma, o funcionamento de sinagogas, e várias repetições, pelos denunciantes, de afirmações muito conhecidas de Vieira a respeito de que se desse tratamento diferentemente a judeus e a judaizantes. Apesar de serem posturas conhecidas, ganhavam com a denuncia o caráter de novidade indispensável para criar assombro e escândalo tardio. Nada foi apurado que realmente fundamentasse um processo, mas as investigações estimularam entre os jesuítas àqueles que não compreendiam Vieira ou o hostilizavam gratuitamente.
Seus adversários em sua própria Ordem acusaram-no de hábitos mundanos, adquiridos nas missões diplomáticas, do vestuário secular que usou em lugar da batina, e de ter a seu serviço um criado que Vieira pagava para lhe facilitar a vida apertada de compromissos por toda a parte. Denuncias e queixas repetiram-se em Roma, e tantas foram que o Geral determinou fosse Vieira expulso da ordem. O Geral porem voltou atrás, quando o Provincial em Portugal informou que o rei, determinara que nada se fizesse, pois afastaria Vieira da Corte concedendo-lhe uma diocese. Mais surpreendente ainda a resposta de Vieira ao soberano, dizendo que não trocaria sua batina de missionário nem por todas as dioceses de Portugal.
Apesar de ocupado com os negócios em que era chamado a opinar ou de que era incumbido por em marcha, Vieira não abandona o púlpito nem suas obrigações religiosas, nem deixa a morada com os companheiros jesuítas. Sem dúvida lhe custava tempo a preparação de seus apreciados sermões cujas citações a filósofos, à mitologia, etc., lhe custavam estudos. Diz Lúcio de Azevedo que ante a submissão do acusado, e a atitude de franca proteção que adotara o soberano, a sanha dos acusadores afrouxou. A pena foi suspensa e depois definitivamente anulada.
Exausto talvez de tantos esforços em maquinar meios de garantir a sobrevivência da monarquia portuguesa, - mesmo que fosse às custas de casar o herdeiro português com a princesa espanhola, com a condição de que a capital do reino fosse Lisboa, e dentro da perspectiva de que esse casamento faria o príncipe português herdeiro dos dois tronos -, decide que é o momento de voltar ao Brasil.
Não que lhe faltasse a amizade do rei e do príncipe herdeiro D. Teodósio. Recebe ainda uma missão de acompanhar à Inglaterra o novo embaixador português, porém a recusa. Na data de seu embarque para o Brasil, depois de despedir-se do Rei, este tentou sustar sua viagem mandando ordem ao capitão do navio para não admitir Vieira a bordo. Pelo que diz o seu biografo sobre os pormenores de seu embarque, esse gesto do Rei possivelmente o lançou em dúvida quanto a realmente seguir para o Maranhão. Mas decidiu-se de vez e embarcou na primeira oportunidade, dois meses depois. Em janeiro de 1653, desembarcou Vieira em São Luís do Maranhão como superior dos missionários jesuítas.
Volta ao Brasil: Missão no Norte
Na caravela em que não embarcara Vieira, haviam chegado antes dele ao Maranhão não apenas os padres dos quais ele seria o provincial, mas também um novo capitão mor que trazia carta do rei alforriando todos os índios da província. Por falta de escravos pretos, eram os índios os escravizados para os trabalho nas fazendas e na cidade. Aguardou-se a chegada de Vieira para a publicação da lei. Quando o porteiro saiu a apregoar a determinação real ao som do tambor, o povo afluiu à Câmara em protesto. A libertação dos índios causaria a perda econômica que seria fatal para a província. Atribuíram aos jesuítas haverem conseguido aquela lei dada pelo monarca e se indignaram contra os padres, clamando expulsão e mesmo morte, para Vieira e seus companheiros.
Vieira habilmente encontrou a solução que apaziguou momentaneamente os ânimos. Propôs que aqueles índios que eram legalmente escravos fossem assim mantidos, mas aqueles mantidos ilegalmente em cativeiro fossem daí por diante pagos como trabalhadores livres. Como os colonos não tinham propósito algum de pagar, aceitaram satisfeitos a solução e voltaram com seus índios para suas fazendas onde a situação dos silvícolas continuou a mesma.
Desde a chegada desejou Vieira que as aldeias fossem, como na Bahia, entregues à direção dos missionários, e pôs logo seu cuidado em visita-las. Tarefa penosa, pelos descômodos e fadigas que impunha; as milhares de picadas de mosquito dia e noite, o que, porém, ele aceitava de bom grado, pelos frutos que esperava de tantos trabalhos e privações. Seu zelo levou-o até o Pará onde, com alguns padres, navegou em canoas com extraordinário risco para avaliar a potencialidade da província a seu cargo para o ministério jesuítico.
A questão dos índios não chegava por nenhum dos lados a solução aceitável: nem os colonos desistiam do sistema de escravidão que tinham instituído; nem os jesuítas deixavam o propósito de lhes subtrair, ou pelo menos limitar, o domínio sobre os silvícolas cristianizados.
Achando-se os jesuítas acuados e limitados pelo poder dos fazendeiros, decidiu Vieira com seus companheiros que iria ele a Portugal tratar as questões com o rei.
A segunda viagem a Portugal. Em breve visita a Portugal de 1654 a 1655 ele obteve decretos protegendo os índios da escravidão e um monopólio para os jesuítas na proteção dos índios.
Viagem atribulada, o barco enfrentou uma tempestade quando já próximo aos Açores, chegando a virar sobre um dos bordos, salvando-se por reconhecido milagre a tripulação e passageiros. Um pirata holandês os encontrou, confiscando a carga de açúcar que levavam, mas deixando-os em segurança no porto da Graciosa. Com o dinheiro que havia manejado esconder, Vieira comprou roupas e comestíveis para todos e meios para continuarem para Lisboa. Ficou nas ilhas por mais de dois meses até partir para Lisboa em um navio inglês.
Em Lisboa voltou a pregar na Capela Real, com outros pregadores reais. Seu tema era principalmente a corrupção dos políticos, de cujos efeitos acabava de sofrer no Brasil. O rei que andara doente à época da chegada de Vieira, em nada se sentiu atingido pelo cáustico moralista, e atendeu plenamente às reivindicações que lhe apresentou Vieira. Foi instituída administração conjunta do Pará e Maranhão, o que deveria minorar os problemas enfrentados pelos jesuítas e, mais ainda para satisfação de Vieira, caberia a André Vidal de Negreiros, herói pernambucano na luta pela libertação de Pernambuco, e que já estava nomeado para o governo do Maranhão, governar conjuntamente as duas províncias.
Reunidos o futuro governador, Antônio Vieira e altos funcionários, assentou-se o regime definitivo dos índios livres, em um estatuto próprio que fixava o quando deveriam receber como salário mínimo pelo seu trabalho, e outras disposições solicitadas pelos jesuítas no sentido de proteger os silvícolas. André Vidal partiu em 1654 e Antônio Vieira algum tempo mais tarde. O rei o proibiu de embarcar mas, tendo Vieira lhe proposto que ouvissem a opinião dos jesuítas sobre ficar ele em Lisboa ou retornar ao Brasil, e tendo esses decidido, por maioria, que seria melhor para a Ordem que retornasse ao Brasil, o soberano aquiesceu em autorizar sua partida.
Sedição do Maranhão
No norte, as lides de Vieira voltaram a ser as viagens visitando as aldeias, ensinando e pregando, algum tempo lhe estava ainda para o devaneio.
Em janeiro de 1661, no Pará, a Câmara representou aos missionários pedindo com urgência que se pudesse com urgência arregimentar índios no mato, para o trabalho escravo, Rebateu Vieira dizendo que as causas dos problemas econômicos eram bem diversos
Entretanto surgiu novo conflito, suscitado por uma imprudência de Vieira, do qual tiraram seus opositores grande partido. Foi o caso do chefe da aldeia de Maracaná, a cargo dos jesuítas, no Pará. O índio vivia em concubinato com uma cunhada, um mal exemplo que os padres queriam suprimir. Vieira escreveu-lhe uma carta amável, solicitando que viesse ao colégio onde, chegando, foi desarmado e preso em ferros em uma cela, passando depois ao calabouço do forte de Gurupá. Ao protesto dos índios seguiu-se o da câmara, associando-se a ele as ordens monásticas. O escândalo uniu os padres de outras ordens aos colonos e no inquérito a que se procedeu pelo Ouvidor Geral, em São Luís, os prelados do Carmo, S. Antônio e Mercês, que chegavam do Pará, depuseram em concordância com a representação dos índios.
Ao declarar-se a sedição no Maranhão, Antônio Vieira fazia caminho de Belém a S. Luís. Já próximo da cidade, recebeu carta do governador colocando-o a par da revolta e recomendando que não entrasse em São Luís. Pôs se de volta a Belém onde pretendia acalmar os índios para que não fugissem para os matos, assustados com as notícias que se espalhavam .
Menos de um mes passado, também no Pará rebentou a comoção contra os padres. Como em São Luiz, também em Belém o povo assaltou o colégio e pôs em custódia os jesuítas. Antônio Vieira ficou apartado dos companheiros em uma pequena igreja . Uma índia, Mariana Pinto, que depois foi irmã, conseguia passar a Vieira alguma ligeira refeição, até que entre homens armados o embarcaram para São Luís. Da canoa foi transposto para a caravela que, em 1661 levou todos os padres para a Europa. Vieira não descansava nunca; nesta viagem compôs e proferiu um dos seus mais belos sermões, o do Rosário, que fez ouvir, no domingo 9 de outubro, a seus companheiros na aventura marítima, gente de bordo e passageiros.
Terceira viagem à Europa
Em 1661, Vieira foi expulso para Portugal. Deteve uma situação a ele favorável na Corte, mas que depois reverteu-se inteiramente em contrário. Falecido D. João IV em 1656, e porque falecera também D. Teodósio, primeiro na ordem da sucessão, sucedeu ao pai D. Afonso VI, com 13 anos de idade, sob regência de sua mãe, Da. Luiza de Gusmão (1656-1683). A rainha regente era contrária a entregar o reino a esse filho por sua notória incapacidade para governar; era a favor de que fosse aclamado o irmão mais moço, D. Pedro.
Vieira encontra seu lugar na corte, como em épocas passadas, mais ainda quando a regente, no embate das intrigas e paixões em que a corte refervia, tanto necessitava do conselho e auxílio de homem tão experimentado como o missionário recém chegado do Maranhão. Vieira que muito bem conhecia a vida desregrada do jovem príncipe, pois que toda preparação para reinar havia sido dada a D. Teodósio, coloca-se ao lado da rainha.
Porém já no ano seguinte, em 1662, alguns nobres amigos do herdeiro se puseram a seu lado e o levaram a estabelecer seu governo em Alcântara. Diante desse golpe, não teve outra alternativa a rainha senão passar a D. Afonso os selos do Estado. Os partidários de D. Pedro foram punidos, e Vieira que foi desterrado para o Porto.
Nesse mesmo ano a princesa Catarina de Bragança, irmã de D. Afonso, casou com Carlos II da Inglaterra. Em troca de um rico dote, e de favoritismo comercial, a Inglaterra forneceu armas e soldados para a guerra contra a Espanha. As defesas portuguesas foram então organizadas por um militar alemão, Friedrich Hermann von Schönberg.
Afonso VI era considerado débil mental, e o país governado por Luiz de Vasconcelos e Souza, conde de Castelo Melhor até 1667. Em seu reinado os portugueses, sob o comando de Shönberg, obtiveram várias vitórias contra a Espanha, que em 1668 reconheceu a independência de Portugal. Foi casado com Maria Elizabeth Francesca de Sabóia (princesa francesa) que conspirou com seu irmão Pedro para afastar Castelo Melhor e anular o casamento com Afonso VI. Ela casou com Pedro em 1668, e Afonso VI foi persuadido a passar o trono para seu irmão que poderia ter um herdeiro e foi declarado regente. Desde então o rei foi mantido prisioneiro em Sintra, onde morreu.
No Brasil Vieira havia assentado as bases do que pretendia seria sua grande obra sobre a interpretação dos profetas, que na verdade nunca chegou a publicar. No desterro do Porto retoma seu trabalho intelectual. Faz a revisão de dezesseis volumes de Sermões para dar ao prelo e continua a rascunhar o Clavis prophetarum. Era Vieira bem vigiado pelos partidários de D. Afonso aos quais deixá-lo no Porto pareceu inconveniente. Cogitaram de desterrá-lo para Angola, mas se concluiu por deixá-lo preso no Colégio da Companhia em Coimbra.
Processo na Inquisição
Por falta de amigos na corte, foi aprisionado pela Inquisição que vinha preparando um processo contra ele havia algum tempo. As investigações sobre Vieira arquivadas no Santo Ofício foram reabertas. O decreto do Conselho Geral ordenou ao Tribunal de Coimbra mandasse ir à mesa o jesuíta e o interrogasse sobre o seu escrito *As Esperanças de Portugal em que anunciava a ressurreição de D. João IV, e por seu exagerado interesse em favor dos judeus e cristãos novos. Não pode ser ouvido porque estava doente, do impaludismo contraído no sertão amazônico, cujas crises freqüentemente o prostravam. Ultimamente os incômodos se agravaram de complicações bronquiais, com hemoptises que faziam temer ao doente a tuberculose, doença vulgar na Companhia, devido às macerações e canseiras da vida missionária, e cujo contágio era facilitado pela vida em comunidade. Em maio os médicos aconselhavam a mudança de ares.
Determinaram os superiores fosse o doente para residência do Canal, junto a Buarcos.
Respondeu Vieira que era certo haver feito um papel, em que anunciava a ressurreição de D. João IV, o qual mandara para ser apresentado e servir de consolo à Rainha viúva. Baseava seus dizeres no Gonsalianes Bandarra, a quem todos tinham por profeta, se não em sentido canônico, mas no sentido que era o terem se cumprido as coisas profetizadas. E esclareceu o seu interesse meramente em favor da economia do reino, na questão hebraica.
Apesar de não encontrar nele falta grave, e mesmo antes de ser julgado, determinou a Inquisição sua prisão no cárcere do Santo Ofício, onde ficou por 26 meses até a véspera do natal de 1667. Continuou preso no Colégio da companhia em Coimbra, e mais tarde, por pedido seu, foi autorizado transferir-se para o noviciado em Lisboa. Pouco depois o Provincial da companhia requereu lhe fossem as penas perdoadas, e isto foi atendido ficando em vigor unicamente a obrigação de não tratar o réu das proposições suspeitas.
Sua vida se recompôs. Do palácio lhe veio o aviso de que haveria de pregar na Capela real por ocasião do aniversário da Rainha. Não pregou dessa vez, mas fez vários sermões nos meses seguintes. Magoado, disse em um sermão na Capela Real uma frase que ficou conhecida: "Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma; mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia?"
Vida em Roma
Vieira estava porém decido a alcançar em Roma a revisão do seu processo na Inquisição. Pronunciou seu último sermão em Lisboa na festa de Santo Inácio, na matriz de Santo Antão, um extraordinário triunfo oratório. O povo, sabendo que ia pregar naquele dia, logo ao alvorecer e antes que se abrisse a igreja já se achava o largo fronteiro pejado de curiosos. Abertas as portas, num instante ficou lotada a igreja.
A fim de lhe facilitar instalar-se em Roma, recebeu da Companhia de Jesus o encargo de tratar assunto de interesse da Companhia, que era o de tratar da canonização de quarenta padres da companhia, trucidados por piratas calvinistas em 1570 quando iam para o Brasil.
Chegando a Roma, alguns padres foram em carros encontrá-lo no caminho, e a esta homenagem se somou a recepção que o Geral e mais padres lhe fizeram. Sua chegada, no entanto, coincidiu com o falecimento do papa Clemente IX e eleição do papa Clemente X, e isto o obrigaria a adiar seu trabalho junto à Cúria.
Os padres da companhia insistiram com Vieira que pregasse. O Geral João Paulo Oliva manifestou seu desejo que aprendesse o italiano e se dispusesse a pregar ante os cardeais e nobreza romana, o mais culto auditório do mundo. Relutante talvez por cansaço, Vieira não teve escolha quando o Geral impôs-lhe obediência no assunto. Pregou pela primeira vez em italiano em Outubro de 1672 na festa de São Francisco de Assis. Concorreram pessoas notáveis da nobreza romana, alguns prelados e seis cardeais. Seguiram-se vários outros sempre concorridos. Tanto era o interesse em ouvi-lo que, diz Lúcio de Azevedo, tornou-se necessário colocar soldados às portas dos templos onde ia pregar, para impedir que se apossasse o público dos lugares, antes de chegarem as dignidades eclesiásticas e pessoas de representação. Ao sermão, na igreja de S. Lourenço em Damaso, no ano seguinte de 1673, estiveram presentes dezenove cardeais.
Residia em Roma uma outra celebridade, a rainha Cristina da Suécia, que havia renunciado ao trono de seu país. Admirada pelo desenvolvimento industrial e comercial que promoveu, sua renúncia súbita do trono sueco causou surpresa em toda a Europa. Patronisa das artes e da ciência, convidou importantes intelectuais estrangeiros para visitar seu país, inclusive René Descartes, que lhe deu lições de filosofia e morreu na sua corte, em Estocolmo. Renunciou por dois motivos: porque não desejava casar para dar um herdeiro ao reino da Suécia e também porque havia se convertido secretamente ao catolicismo, religião proibida na Suécia.
Em dezembro de 1655 fixou-se em Roma, acolhida pelo Papa Alexandre VII. Tornou-se sensação em Roma, onde comprou um palácio. Depois de ausentar-se em uma conspiração armada em Paris, em que, com a ajuda dos franceses, pretendia sair rainha do reino de Nápoles, precisou de um perdão papal para voltar a viver em Roma.
Foi amiga do cardeal Décio Azzolino, um líder político dos cardeais em Roma, de quem fez seu herdeiro. Ligou-se aos papas, recebeu uma pensão que ajudou-a a manter-se com os recursos que recebia da produção de suas terras na Suécia. Em seu palácio em Roma tinha coleções de pintores famosos, esculturas e o local tornou-se ponto de encontro dos intelectuais e músicos famosos da época. Sua biblioteca hoje faz parte da Biblioteca do Vaticano e seu túmulo (faleceu em 1689) está na Basílica de São Pedro.
Vieira pregou especialmente para a Rainha na quaresma do mesmo ano em que chegou a Roma, e por insistência dela junto ao Geral, - que novamente exigiu de Vieira um ato de obediência -, tornou- se pregador de sua corte. Estreou com uma série de sermões intitulados "As cinco pedras de David". Incluído em seu círculo, a que chamava Academia da Arcádia para filosofia e literatura, o Padre Vieira travou um debate filosófico que lhe valeu aplausos. Nessa Academia os grandes letrados discutiam os problemas mais diversos e faziam conferências para um círculo seleto da nobreza romana.
Através de farta correspondência, trocada inclusive com D. Pedro, Vieira acompanhava de Roma os acontecimentos em Lisboa. Repercutiu em Roma o novo recrudescimento da perseguição aos cristãos em Portugal, no ano de 1672.
Numa manhã de junho apareceu violado o sacrário da igreja do mosteiro de Odivelas. Crer que fosse a ação de herege, e mais particularmente hebreu, era conseqüência natural. Exaltaram-se os ânimos na capital e em todo o país. A 25 de agosto foi ordenada a expulsão de todos os indivíduos penitenciados pelo Santo Ofício desde o último perdão geral, isto é de 1605, pena que abrangia os filhos daqueles que, com veementes suspeitas de heresia, abjuraram, e os filhos e netos dos que tinham confessado, portanto vários milhares de pessoas. Vieira escreve a D. Rodrigo de Meneses, seu amigo, externando sua desaprovação ao decreto de expulsão e informando que a opinião comum era também contrária em Roma e toda a Europa.
Um protesto sem assinatura encaminhado a D. Pedro, e no qual em toda a extensão se enumeravam os inconvenientes da resolução foi logo atribuído a Vieira, e hoje está incluído em suas obras. Apontava a liberdade de crença e, separados os judeus que o quisessem ser, aqueles que permanecessem católicos não se lhes podia por em dúvida a sinceridade, nem de se unirem a cristãos velhos resultaria dano à fé.
Através de cartas, Vieira instigava o príncipe regente a proceder segundo o exemplo de D. João IV que em 1649 concedera aos cristãos novos licença igual a que agora solicitavam para recorrerem ao Pontífice. Todo seu empenho era que a contenda se transferisse para Roma, onde os recorrentes tinham modo de captar os votos e ele meio de cooperar nas diligências.
Afinal, em julho, decidiu-se conceder o que, - a troco de apreciáveis vantagens na formação de uma Companhia que daria apoio a Portugal na Índia -, os homens de negócio pediam: a licença para requerem em Roma a reforma da Inquisição. Vieira deveria escrever ao Pontífice, a recomendar a súplica, e apontando como providencia complementar necessária o perdão geral.
Porém, soando então que tinha o Regente acedido as reclamações dos hebreus, que ia haver sinagoga pública em Lisboa, e que entre os proponentes do negócio da Índia se achavam judeus declarados, vindos de Roma por comissão do Padre Antônio Vieira, os inimigos dos cristãos novos romperam em protestos ruidosos. Alegava-se nos círculos da Inquisição em Lisboa que só das confiscações de bens relativas aos réus então nos cárceres prometia 500 mil cruzados, e para o futuro quantias superiores, para que pois a condenável transação com os hereges?
Recrudesceu em Portugal a perseguição aos cristãos novos pelo Santo Oficio. Choviam as delações e acumulavam-se os presos nos cárceres. Nos últimos dias de julho de 1672 foram recolhidos à inquisição em Lisboa alguns dos mais graduados comerciantes da cidade.
Já com 65 anos, Vieira sofria recidivas de seus achaques do tempo dos interrogatórios da Inquisição. Ausentou-se de Roma para se recuperar, em Albano, dos ferimentos sofridos em uma queda na escada de pedra da residência. O clima em Roma definitivamente o prejudicava na sua saúde.
Uma delegação portuguesa chegada a Roma para tratar assuntos da Igreja e particularmente da Inquisição deu a conhecer a Vieira que o rei D. Pedro (Regente de 1668-1683, Rei 1683-1706) desejava que retornasse a Portugal. Vieira hesita. A insistência do Rei termina por convencê-lo a partir, embora receasse muito o que lhe poderia acontecer no seu retorno, por parte da Inquisição portuguesa, e por achar que nada poderia ajudar mais a seu país.
Em Roma, insistiam em que ficasse. O Geral, que havia antes dissuadido Vieira de recorrer ao Papa contra a Inquisição portuguesa, por temer os estremecimentos que daí poderiam resultar, agora, cioso dos perigos que correria Vieira retornando a Portugal, quando foi decidido que regressaria, cuidou de lhe alcançar a imunidade contra o tribunal português.
Em sua defesa Vieira apontava os defeitos do processo e os defeitos da sentença, esta lançada de modo a exagerar as aparências de culpa e relevar pouco o que poderia recomendar sua absolvição. Arrolou os maltratos que padecera: treze meses de detenção antes de ser pela primeira vez interrogado; não se lhe consentir em dizer missa, o que muitas vezes pedira, nem confessar-se e comungar, senão uma vez pela quaresma; extorquirem-lhe os papeis em que preparava a defesa, e recusarem-lhe livros inclusive a Bíblia.
Sobre as culpas que lhe apontaram os Inquisidores citou o memorial a favor dos cristãos novos de 1643; a criação, a esforços seus, da Companhia de comércio, de que resultou ser depois da morte excomungado D. João IV e todos aqueles que tomaram parte no conselho onde se resolveu a instituição, por Breve obtido sub-repticiamente do Santo Padre sem a declaração das pessoas atingidas; e a defesa da Companhia de Jesus no conflito com a Inquisição ocorrido em Évora, por ter dito na ocasião que "Os inquisidores viviam da fé e os jesuítas morriam por ela" . E dizia mais que haviam tomado como pretexto também a carta em que afirmava a crença na ressurreição de D. João IV e nos vaticínios do Bandarra demonstrando, quanto a esse último item, que a crença em Bandarra era quase geral e forte no seio da Igreja, porque muitas de suas previsões haviam se confirmado, e cita o memorial oferecido pelo Bispo do Porto, Nicolau Monteiro, ao Papa Urbano VIII no qual as profecias do Bandarra são invocadas como argumento.
Assim, por Breve de 17 de Abril de 1675, foi isento Vieira para sempre da jurisdição dos Inquisidores de Portugal e seus representantes, e sujeito unicamente à Congregação do Santo Ofício de Roma; conjuntamente absolvido de quaisquer censuras, interdito ou penas eclesiásticas em que se achasse incurso até então.
Retorno a Portugal e à Bahia. Em maio Vieira deixou a capital romana onde fora durante seis anos admirado e prestigiado. No caminho foi hospede do Grão Duque em Florença; de lá se passou a Gênova e embarcou para Marselha de onde seguiu por terra para Toulouse e lá embarcou pelo rio Garona até Bordéus. A rainha da Inglaterra, a portuguesa Dona Catarina, o convidara para dali seguir para Londres, mas Vieira, por cansaço ou por pressa de chegar a Portugal, não atendeu ao convite, desembarcando em Lisboa em Agosto.
Vieira permaneceu no reino por mais de cinco anos depois que, chamado pelo Príncipe, tornara a Lisboa. Em todo esse período somente uma vez pudera intervir de modo efetivo em negócios públicos, quando convocado em 1680 a participar na junta de Conselheiros do Estado e Ultramarino.
Com a idade avançada, pensa em retornar a sua província no Brasil. Recebeu ainda um chamado da rainha Cristina, encaminhado pelo Geral da companhia, para que retornasse a sua corte em Roma, que recusou, alegando idade e as doenças. Hesitava entre retornar ao Maranhão ou à Bahia. Partiu a 27 de janeiro de 1681 na companhia de outros missionários que iam para a Bahia.
Das primeiras notícias que recebeu de Portugal, chegado definitivamente ao Brasil, foi de uma troça de estudantes em Coimbra, simulando um auto de fé e que os estudantes e a ralé da cidade o queimaram em esfinge aos gritos de "Padre Vieira, vendido aos judeus".
Não parece ter sido de tédio a vida de Vieira, após retornar ao Brasil. Logo que chegou, foi intenção sua viver retirado na quinta do Tanque, de propriedade dos Jesuítas nas vizinhanças da cidade. Seu propósito consagrar-se à ascese e à conclusão dos sermões, que ia reconstruindo de fragmentos e notas e da memória, e concluir outros trabalhos literários. Mas esse retiro não foi possível. Não podia desaparecer sem que a curiosidade o seguisse. Eram duques, marqueses, arcebispos, a solicitar aos irmãos jesuítas notícias de Vieira.
Logo está a trocar assiduamente cartas com amigos na Europa, enquanto trabalha na revisão dos seus sermões. É também involuntariamente envolvido num incidente político desagradável, relativo a seu irmão que vivia na Bahia, Bernardo Vieira Ravasco, e um dos filhos deste, Gonçalo Ravasco. Foi o assassinato do Alcaide, tocaiado à luz do dia e morto perto do Colégio por oito mascarados que em seguida ao crime refugiaram-se na casa dos jesuítas. Lá estava escondido também o referido sobrinho de Vieira, Gonçalo Ravasco, por uma briga que tivera com um meirinho. Daqui nasceu dizer-se que o homicídio do alcaide fora planejado no interior da residência, em conciliábulo a que tinham assistido o filho e o irmão de Antônio Vieira, versão logo aceita pelos inimigos dos jesuítas.
Vieira tinha a intenção de reunir seus sermões em 12 volumes, e já publicara 7. O trabalho exigia grande aplicação porque a maior parte das prédicas estava em notas algo desordenadas. A coleção consta de sermões pregados em diferentes épocas, remontando a antes de 1640 na Bahia.
Com as rendas de seus sermões publicados Vieira se mantinha e também a um secretário, e o restante empregava em socorrer as necessidades dos índios nas missões.
O livro que Vieira pensava seria sua grande obra, nunca saiu a lume: De regno Christi in terris consummato, ou por outro nome, Clavis prophetarum, em quatro livros. Era uma publicação aguardada com interesse. Meditada nos caminhos e rios da Amazônia, começada ao sair da Inquisição, continuada em Roma e Lisboa, era a ocupação em que mais tinha gosto. Por mais de trinta anos ele tinha burilado o texto, e continuava ainda a aprimorá-lo. Agora, perto de nonagenário, fisicamente inválido, possuía ainda clareza das idéias, a agudeza do verbo para concluí-la. Esta obra sumiu-se quase por completo, ficando apenas algumas copias mutiladas. Supõe-se que foi roubada por ocasião de sua morte.
Tendo a rainha Dona Maria Francisca Isabel de Sabóia falecido, houve grandes homenagens na Bahia. Obedecendo a determinação ao Marques das Minas, o Padre Antonio Vieira fez um sermão, apesar da "falta de dentes e de voz e todos os outros achaques da velhice...", contou ele em carga de agosto de 1684 ao marquês de Gouveia.
D. Pedro II, que ainda não tinha herdeiros, casou-se novamente, em dezembro de 1686, com Dona Maria Sofia Isabel de Neuburgo, filha do Eleitor Palatino Filipe Guilherme de Neuburgo, que lhe deu cinco filhos. Mais tarde, além dos sermões antigos, de que ia sucessivamente mandando os volumes para publicação em Lisboa, preparou Vieira entre 1691 e 1693 um tomo de sermões de São Francisco Xavier, por encargo da nova Rainha, particularmente devota do apóstolo a Índia.
Adoentado, em 1969 Vieira suspendeu sua correspondência com seus admiradores. Repetir-se-ia o acidente de 1673 em Roma: aos 85 anos, já trôpego, caiu de noite por um lance de escada de pedra. Além de ficar molestado em todos os membros, por muito tempo não pode segurar a pena.
Dois anos depois saia da imprensa o undécimo volume de sua coleção dos Sermões, oferecido à rainha Dona Catarina. O último volume, o duodécimo, foi acabado no ano de sua morte, em 1697, A mesma nau em que viajou o manuscrito trouxe a Lisboa a nova de ter falecido o autor.
Pensamento
Vieira considerava-se filósofo, não só "filósofo natural", mas "filósofo cristão". Professor de retórica, compôs para seu uso um curso de filosofia. Seus conhecimentos de história e filosofia transparecem em milhares de comparações e metáforas nos seus sermões. Toda uma monografia seria pequena para considerar o que nos sermões de Vieira há de assuntos filosóficos.
O pensamento de Vieira é genuinamente moderno, apesar de viver na época em que, não só em Portugal como em boa parte da Europa, ainda domina o aristotelismo e a filosofia escolástica ensinada pelos jesuítas, e apesar de ser ele mesmo um padre jesuíta. Para comentar suas idéias vamos utilizar os mesmos trechos selecionados por Ivan Lins como os mais significativos da sua obra.
Contra a lógica e a autoridade Aristotélicas. Rejeitava Vieira o princípio de autoridade própria da escolástica, sancionada pela Igreja e reforçada pelo poder real, para, em substituição, valorizar a experiência como caminho da certeza. No seu Primeiro Sermão da Terceira Dominga do Advento que demonstra claramente sua postura filosófica moderna, realçando o valor da experiência contra o vazio da especulação filosófica aristotélica dedutiva. Diz Vieira: "Nenhuma coisa houve mais assentada na Antigüidade, que ser inabitada a zona tórrida; e as razões com que os filósofos o provaram, eram ao parecer tão evidentes, que ninguém havia que o negasse." As viagens dos descobrimentos provaram ser errada a lógica dos aristotélicos, porque existiam de fato terras habitadas nos trópicos. A verdade foi provada pela experiência de buscar e de ver: "Descobriram, finalmente, os pilotos e marinheiros portugueses as costas da África e da América, e souberam mais e filosofaram melhor sobre um dia de vista que todos os sábios e filósofos do mundo em cinco mil anos de especulação".
A propósito de sua postura filosófica, e para não deixar em ninguém qualquer dúvida de que Vieira se alinha com o pensamento dos filósofos modernos, basta ver a carga de acusações que lhe faz a Inquisição portuguesa, entre elas a de fazer uso de livros proibidos trazidos do estrangeiro. Ora, os livros proibidos em Portugal são principalmente os livros dos filósofos empiristas ingleses e de seus aderentes e comentaristas franceses.
Inclusive em seus erros Vieira está emparelhado aos filósofos de seu tempo, pois é uma característica do início da idade moderna a crença em certas forças ocultas, nas quais esses filósofos acreditavam e para cuja explicação queriam encontrar um caminho filosófico próprio, diferente tanto da superstição quanto de sua qualificação religiosa como forças demoníacas. Assim foi com Giordano Bruno, Campanella, e outros, não faltando sinais de propensões esotéricas no próprio Bacon e em Locke. Vieira parece tocado pelas profecias de Bandarra e as utilizou para o fim de inflamar o nacionalismo dos portugueses, e terá que explicar essa atitude aos seus inquisidores, no seu martírio perante o Santo Ofício. Sua crença nos malefícios dos cometas é a mesma que têm os grandes filósofos e matemáticos da época moderna.
A respeito escreveu o opúsculo: Voz de Deus ao Mundo, a Portugal e à Bahia: Juízo do cometa que nela foi visto em 27 de outubro de l695 e continua até hoje, 9 de novembro do mesmo ano.
Finalmente, a perseguição pela Inquisição é outro elemento identificador do filósofo moderno, pois o Santo Ofício está precisamente atento e contrário à filosofia moderna quanto a seus métodos, idéias e descobertas.
O desassombro de Vieira em defender a ordem prática, a liberdade de culto, o repatriamento dos judeus portugueses, tudo representa uma inimaginável revolução e um rompimento com o pensamento medieval que vai acontecer de fato somente mais de um século depois, e ainda assim apenas parcialmente, no governo de Pombal. Até lá a idéia de padroado e o absolutismo monárquico, o ensino jesuítico e a Inquisição manterão ao largo a ciência e a liberdade de pensamento, em Portugal e no Brasil. E Vieira já dizia, no Sermão da Sexta-feira da Quaresma, de 1662, em plena Capela Real:, numa velada crítica a São Tomás, o Doutor Angélico: "porque até entre os anjos pode haver variedade de opiniões, sem menoscabo de sua sabedoria, nem de sua santidade; e para que acabe de entender o mundo, que ainda que algumas opiniões sejam angélicas, nem por isso são menos angélicas as contrárias". Este Sermão é todo vazado em termos de aprovação da verdade, e contrário ao culto da autoridade, não importando quem fala, mas a verdade do que é dito. E no Sermão de São Pedro, de 1644, adverte: "Ora, desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores".
Vieira é um dos primeiros a assinalar com entusiasmo o valor das invenções modernas. Em seu História do Futuro admira-se do poder que a pólvora trouxe para a arte da guerra, e a bússola para a arte de navegar, e louva a invenção da imprensa, pela qual "a doutrina (a religião) e a ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares...".
Está, sem dúvida muito a par do que escreve seu contemporâneo Descartes, um autor proibido, e com ele concorda aderindo claramente à posição dualista revolucionária daquele filósofo, inteiramente contrária à concepção tomista de unidade substancial do homem ao afirmar, no Sermão 27º. do Rosário", que o homem "é feito de duas peças, alma e corpo". Seu comentarista Ivan Lins também dá como inquestionável que Vieira tenha lido "Os Meteoros", de Descartes, o qual havia realizado experiências para reproduzir o arco-íris e descobrira que era apenas refração da luz e não milagre celeste em cada aparição nos céus. Vieira diz: "na Íris ou Arco celeste, todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedade de cores: e contudo ensina a verdadeira Filosofia que naquele Arco não há cores, senão luz e água".
Psicologia
A quantos ilustres filósofos e psicólogos não se antecipa Vieira ao afirmar, como faria pouco depois Pascal, que a razão tem razões que não lhe são próprias, mas que partem do coração? É o que ele diz no Sermão da Quinta Quarta-feira da Quaresma, de 1669: "E os erros dos homens não provêem apenas da ignorância, mas principalmente, da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras. Os olhos vêm pelo coração, e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores, de que estão, bem ou mal, afetos os corações". Um século depois Pascal teria falado assim, não fosse sua irresistível fascinação, tipicamente francesa, por cunhar frases de efeito, donde seu dito: "O coração tem razões que a própria razão desconhece"...
Na psicologia de Vieira encontramos também uma teoria sobre os sonhos em que os dá como realização dos desejos do indivíduo, deixando para Freud apenas acrescentar sua teoria dos símbolos oníricos. É verdade que Vieira inicia com a teoria inventada por Aristóteles, em que este se vale de analogia tipicamente desprovida de base experimental. Mas Vieira corrige seu curso terminando por afirmar, nos Sermões de São Francisco Xavier Dormindo: "Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas ações, dos seus propósitos e dos seus desejos." E prossegue com grande riqueza de exemplos.
História
Em sua História do Futuro advoga Vieira uma ciência da história, para que os historiadores se afastem os erros que cometem por culpa da paixão. "Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas, leia a mesma história por diferentes escritores, e verá como se encontram, se contradizem e se implicam no mesmo sucesso, sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz". No Discurso apologético - Palavra do Pregador empenhada e defendida, Vieira define a história como "aquele espelho em que olhando para o passado, se antevêem os futuros"
Raças
A tão aplaudida afirmação de Buffon, um século depois de Vieira, de que o clima influi nas raças determinando-lhes a cor da pele não representava nenhum risco para aquele cientista, ao contrário do perigo que representou para Vieira, um século antes, afirmar a mesma tese, contrária à tradição bíblica da maldição de Noé contra Cam e seus descendentes. Diz Vieira, em outro trecho do Sermão da Epifania pregado na Capela Real em 1662: "a causa da cor é o sol. As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol". E Vieira sabia de experiência, porque andou por onde Buffon nunca esteve.
Vieira era também um defensor dos direitos humanos e pregou contra a exploração do negro e do índio, para grande aborrecimento dos colonos brancos no Brasil. Vários de seus discursos versam sobre a situação dos escravos africanos. Não se pode, é claro, saber quais sentimentos teria Vieira, colocando-se ao lado dos judeus e cristãos novos portugueses, porque tudo que lhe era permitido alegar, e ainda assim com grande risco para si como ficou provado, era um motivo patriótico. É verdade que seu envolvimento nos negócios do Estado abriram seus olhos para o vulto dos recursos exigidos para a restauração do reino, e os judeus representavam riqueza. No entanto, ele busca favorecer os judeus além do que os interesses econômicos requeriam que fizesse. Mostra nas reivindicações pelos judeus igual pertinácia e igual risco quanto teve na defesa dos índios do Maranhão.
O sistema solar
Na ambigüidade do seu Sermão da Primeira Dominga do Advento, pregado em 1652 na Capela Real, podemos ver o Vieira dividido entre aquilo que estava obrigado a dizer e aquilo em que realmente acreditava a respeito do Universo. Primeiro, negando, ele diz: "Copérnico, insigne matemático do próximo século, inventou um novo sistema do mundo, em que demonstrou ou quis demonstrar (posto que erradamente), que não era o sol o que se movia e rodeava o mundo, senão que esta mesma terra em que vivemos, sem nós o sentirmos, é a que se move, e anda sempre à roda. De sorte que, quando a terra dá meia volta, então descobre o sol, e dizemos que nasce, e quando acaba de dar a outra meia volta, então lhe desaparece o sol, e dizemos que se põe." E continua, agora com fé: "E a maravilha deste novo invento, é que na suposição dele corre todo o governo do universo, e as proporções dos astros e medidas dos tempos, com a mesma pontualidade e certeza com que até agora se tinham observado e estabelecido na suposição contrária."
Neste campo Vieira também conhece a dúvida que surge na primeira metade da idade moderna com respeito ao que existe entre os objetos e a mente, ou o que existe no espaço entre os astros, dado que, se o vácuo existe, então seria forçoso admitir que todas as forças e impressões se dão por um poder de influência à distância, sem nada a permear entre os objetos e os sentidos. Esta questão, ainda hoje mal resolvida, tem uma alusão no Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma, pregado na Capela Real em 1670, onde Vieira diz: "Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo, e que em todo o universo não haja lugar vazio".
Disputatio
Ser um filósofo moderno não erradicou do vocabulário de Vieira os jargões da escolástica nem o tirou-lhe o gosto pelas disputas com que os professores jesuítas buscavam aguçar a inteligência dos jovens discípulos. No Sermão do Rosário Vieira é o velho racionalista, e se propõe um questão daquelas insolúveis, tão a propósito para os jogos dialéticos: "Perguntam os filósofos se Deus pode fazer tudo quanto pode? Uns negam, outros afirmam, e uns e outros se implicam. Porque depois de Deus fazer tudo o que pode, ou pode fazer mais alguma coisa ou não? Se não pode, deixou de ser Deus, porque não há Deus sem onipotência. E se pode, segue-se que aquilo que fez, não era tudo", não e perfeito.
Outra manifestação desse gosto pelas disputas é a citada participação sua no torneio filosófico havido nos salões do palácio da Rainha Cristina, em Roma. No desafio, o Padre Jesuíta Jerônimo Cataneo defendeu a posição de Demócrito com respeito à avaliação da vida, enquanto Vieira defendeu a posição de Heráclito. Demócrito ria sempre e Heráclito, chorava. Diz, mais ou menos, "Se no paraíso estava ociosa a potência do chorar, na miséria de hoje está ociosa a potência do rir". Considerando a maldade do homem diz que ao certo o homem deveria chorar a respeito de sua própria maldade, mas então dá-se um paradoxo: Se não chora, mostra que não é racional: e se ri da sua própria maldade, é uma fera, mostra que também os irracionais, as feras, riem. (Sermões, Porto, 1909, vol. XV, p. 399)
(Rubem Queiroz Cobra , Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia, Site original:www.cobra.pages.nom.br)
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