quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Passeio pelo Sagrado"

Um dos dados curiosos em torno da biografia do padre Antonio Vieira é a descrição do famoso “estalo” que o transformou no maior orador sacro da língua portuguesa. Segundo consta, o fato se deu diante de Nossa Senhora das Maravilhas, no Colégio dos Jesuítas da Bahia. Trata-se de uma imagem portuguesa em madeira, que chegou ao Brasil no século XVI, trazida pelo bispo D. Pero Sardinha, e aqui recebeu revestimento em prata. Preservada de várias intempéries – como a invasão holandesa de 1624 –, a peça é uma das relíquias do Museu de Arte Sacra da Ufba, o MAS.

Devido a seu valor cultural, a imagem foi escolhida para estampar a capa do livro que marca o início das comemorações dos 50 anos da casa. O aniversário ainda é em agosto de 2009, mas o MAS quer realizar uma série de atividades para dinamizar sua atuação. “Hoje em dia, a visão de museu abrange o compromisso com o social e com a divulgação da cultura. Eles são espaços onde se reverencia o passado para se projetar o futuro”, afirma o arquiteto Francisco Portugal Guimarães, diretor do MAS desde 1998.

Nesse contexto, insere-se o lançamento da publicação luxuosa, bilíngüe (português-inglês), que foi patrocinada pela Petrobras via Lei Rouanet. Na primeira parte, ela traz informações e fotos sobre a Igreja e o Convento de Santa Teresa D’Avila, o belo e imponente conjunto arquitetônico onde o MAS está instalado e que por si só já justifica um passeio por lá. Fundado pela Ordem dos Carmelitas Descalços e tombado desde 1938 pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), destaca Franscisco, é um dos mais importantes exemplares da arquitetura colonial do século XVII. O imóvel, pertencente à Arquidiocese de Salvador, foi reformado pela Ufba para ser o seu primeiro museu, numa das muitas ações do visionário reitor Edgard Santos.
Depois de apresentar a moradia, o livro traz um apanhado da coleção do MAS, que tem um total de cinco mil peças, pertencentes à própria universidade, à arquidiocese ou a instituições como o Mosteiro de São Bento, Igreja Belém de Cachoeira e Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, emprestadas em regime de comodato. Os exemplares selecionados para o livro foram agrupados em quatro seções: Imaginária, Marfim, Ourivesaria e Pintura. Cada uma delas vem acompanhada de um texto de um especialista sobre o tema.

Entre as preciosidades do acervo, por exemplo, na parte Imaginária, uma Nossa Senhora de Guadalupe, do século XVI, que representa a produção espanhola do período, e as peças em terracota do mestre Frei Agostinho da Piedade – que veio pequeno para Salvador e aqui produziu sua obra, no século XVII. Já na Ourivesaria, o diretor aponta o impressionante conjunto do altar-mor, todo em prata, da antiga Igreja da Sé, incorporado ao altar da Igreja de Santa Tereza. Hoje, um ciclo de palestras desdobra o conteúdo da publicação, com a presença da historiadora Maria Helena Flexor, da museóloga Mercedes Rosa, da escritora Myriam Fraga e dos arquitetos Eugênio de Ávila Lins e Francisco de Assis Portugal Guimarães, que assinam os textos do livro. O evento é gratuito e as inscrições são feitas na hora. O livro será vendido, a partir do próximo mês, na sede do museu, na Rua do Sodré, no centro da cidade, mas ainda não tem preço definido.

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Palestras de hoje
9h - Imaginária: aspectos de sua representação, com a historiadora Maria Helena Flexor10h - Ourivesaria sacra, com a museóloga Mercedes Rosa11h - Marfim: a riqueza que veio do Oriente, com a escritora Myriam Fraga14h - Arquitetura carmelitana: Convento de Santa Tereza D’Ávila com o arquiteto Eugênio de Ávila Lins.15h - Pintura religiosa na cidade do Salvador - Bahia: séculos XVII, XVIII e XIX, com o arquiteto Francisco de Assis Portugal Guimarães
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FICHA
Livro: Museu de Arte Sacra – Universidade Federal da BahiaCoordenação: Francisco de Assis Portugal GuimarãesVenda: a partir de junhoPreço: não definido (182 páginas)

ANA CRISTINA PEREIRA, FOLHA DA BAHIA, 29.5.08

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